foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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3 de maio de 2014

POETAS PÓS- INDEPENDÊNCIA 3: JOSÉ LUÍS MENDONÇA



José Luís Mendonça nasceu em Novembro de 1955, na comuna da Mussuemba, município do Golungo Alto, Angola. Licenciou-se em Direito pela Universidade Católica de Angola. A sua participação mais visível na construção da polis angolana tem-se cingido, até ao momento, aos andaimes do jornalismo, paixão esta que lhe valeria a atribuição do Prémio “Notícias Gerais da Lusofonia”, no Concurso CNN-Multichoice Jornalista Africano do Ano 2055. Em 1998, elaborou e implementou com o apoio do Ministério da Educação e do Instituto Nacional do Livro e do Disco, o projecto intitulado “Ler é crescer”, na vertente de bibliotecas manuais, com o objectivo de incentivar o gosto pela leitura e aprimorar a capacidade de redacção e compreensão da língua portuguesa, principalmente entre as camadas mais jovens (dos dez aos catorze anos), em escolas nas províncias de Luanda. Bié e Moxico, projecto que teve o suporte bibliográfico da União dos Escritores Angolanos, da UNESCO e do Instituto Camões. Dirige, actualmente, o jornal “CULTURA” suplemento do Jornal de Angola, Luanda.

Para além de tudo, o seu verdadeiro reino é a “poesia descida/das embarcações futuras movidas só de pensar”, como esclarece em “Poesia”.

O autor arruma a sua produção poética da seguinte forma:
1. Ciclo da poesia experimental iniciado com Chuva Novembrina (INALD, 1981) e fechado pelo caderno Gíria de Cacimbo (UEA, 1987).
2. Ciclo do lagarto: começa com Respirar as Mãos na Pedra (UEA, 1990) e vai até 1995, quando o INALD fez publicar Quero Acordar a Alva.
3. Ciclo da ascensão à raiz: de Logaríntimos da Alma (UEA, 1998) até Ngoma do Negro Metal (Chá de Caxinde, 2000). A antologia Cal & Grafia (vinte Anos de Poesia) encerra estes três ciclos.
O ano de 2002 inaugura um quarto período ainda não caracterizado.

Algumas Obras:

Chuva Novembrina, edição do INALD, 1981, Luanda.( Prémio de poesia "Sagrada Esperança" - 1981,)
Gíria de Cacimbo, União de Escritores Angolanos, 1986; (Prémio Sonangol de Literatura)
Respirar as Mãos na Pedra; União de Escritores Angolanos; 1989, (Prémio Sonangol de Literatura de 1988)
Quero Acordar a Alva; INALD 1997, (prémio "Sagrada Esperança - 1996" (ex-aequo com Se a Água Falasse, de João Maimona)
Logaríntimos da alma. 1998
Poemas de amar, 1998
Ngoma do Negro Metal (2000), Edições Chá de Caxinde 

Poemas:


NO ÓVULO DAS CIDADES

Começaram as chuvas.
O dia caminha mole e cinzento
dentro da tromba do elefante.

Nosso rio estruturou no céu
seu caudal pleno de batuques e ferreiros.

Mais altas que o vento voam as mulheres
de seios sangrando o sono azul dos pássaros.

A cabeça da terra irriga os lábios da infância.
As madeiras suspensas da fala estão húmidas.

Amanhã vamos levar nossas enxadas e depor
uma lágrima de esperma no óvulo das cidades.


José Luís Mendonça
In Não Saias Sem Mim à Rua Esta Manhã


UM CANTO PARA MUSSUEMBA 

Ó mãe dos gafanhotos
sentados na lavra da boca deserta:

quantos comboios pariu a tua fome
sobre tijolos gravados ao corte da língua?
O abecê do tempo sangra no pilão
e a chuva de Abril nos cafeeiros
é a mulher kilombo, dizem
morreu um leão no fogo do teu ventre
onde caminhei de animais na mão. 

  
José Luís Mendonça



SUBPOESIA

Subsaarianos somos
sujeitos subentendidos
subespécies do submundo

subalimentados somos
surtos de subepidemias
sumariamente submortos

do subdólar somos
subdesenvolvidos assuntos
de um sul subserviente

José Luís Mendonça
In Chuva Novembrina



POESIA VERDE 

(Para Carlos Drummond de Andrade)


No meio do caminho nunca houve uma só pedra
As pedras nascem na boca e a boca é o seu caminho

Das pedras que comemos as cidades ainda falam
pelos cotovelos da noite Não eram pedras eram pedras
com cabeça tronco e sexo Pariram fábricas
de pedras montadas sobre a língua E as pedras comeram
a pedra que restou no meio do caminho

José Luís Mendonça



DONGOS*


Mulher pequena, descobres no sal
dos meus ombros o suave gotejar
dos mitos incinerados na batalha de Ambuíla
com a sua longa sede de dongos submersos.

Dongos? Sim, dongos é o que crias
sobre a pele dos séculos nunca ressequida
de dizer sou povo.

À luz dessa janela vista assim de um ângulo rente ao chão
te amo outra vez olhando a copa dos mamoeiros no auge do verão.

O sol é o mesmo cão rafeiro castanho muito claro com
manchas brancas no pescoço
comendo da sua lata o tutano das promesas.

E eu vi-te desceres do céu. E a terra tremeu.


José Luís Mendonça

* Canoa

1 comentário:

António Eduardo Lico disse...

Belas poesias.
Obrigado por partilhar.
Bom fim de semana.
Abraço.