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POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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13 de março de 2015

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

 Artigo de opinião de  Gociante Patissa, publicado no “Semanário Angolense” e no jornal “Público”





Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo e vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.

Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul: «A língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais».

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como, por exemplo, «é maka grossa me apanhar a pata». Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do «K» pelo «C», mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes «K, W, Y», tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa

Escritor e linguísta em Ciências da Educação. Texto originalmente publicado no jornal Semanário Angolense (Angola) a 28 de Junho de 2014 



22 de janeiro de 2015

POEMA DE GOCIANTE PATISSA

 
Zungueira


África Mãe Zungueira


Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade
Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes
Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor
Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta
nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho
Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

Gociante Patissa

29 de novembro de 2013

ALMAS DE PORCELANA

Painel de azulejos da Fortaleza de Luanda.


Do forno ao desejo
simétricas
almas
de porcelana

É a linha
exterior
que revela
mais que qualquer
configuração
no centro
dos azulejos

Um em si
não cabe
de quadrado
tão pequeno

Daí galgar
de costas para o chão
onde renasce
em forma de mulher
fecundos cacos de gume e
verniz.

Gociante Patissa,

 in «Guardanapo de Papel», livro de poemas com edição em curso sob chancela da NósSomos, Lisboa, Portugal. 

13 de agosto de 2013

NOVO LIVRO DE GOCIANTE PATISSA

Novo livro do escritor e jornalista Gociante Patissa, lançado em Benguela e no Lobito, respectivamente, a 10 e 11 de Agosto corrente.
"Não Tem Pernas o Tempo" é o primeiro romance do jovem autor de Benguela. Na sua obra já editada constam os seguintes títulos: “Consulado do Vazio (poesia)” - 2008, “A Última Ouvinte (contos)” - 2010. Está para breve a edição de “Guardanapo de Papel”, um inédito de poesia com a chancela da editora Nóssomos, em Portugal.



10 de julho de 2013

POEMA DE GOCIANTE PATISSA

Rio Catumbela (nova ponte)

É o próprio rio

Despir-me-ia à brisa
ao nível da sua nudez
azul interior

Ao aroma deste conforto
da afonia do provérbio
tudo é cibernético
também o pudor

Se a ponte estagna
virtude única
é o próprio rio
ou a massemba
ou o tambor.

Gociante Patissa,
in «Guardanapo de Papel», livro de poesia previsto para sair em 2013

Fábulas da nossa terra: HÁ MUITO JACARÉ POR AÍ (*)

Quis o destino que a família Macaco habitasse numa árvore na margem do rio Catumbela, onde seria fácil cuidar da higiene e a comida abundava.

Estava o Macaco a fazer a barba, numa bela manhã, quando recebeu uma visita muito animada:
– Bom dia, caro Macaco! – saudou, eufórico, o Jacaré – Concluí que temos de ser amigos.
– Estás maluco ou quê? – retorquiu o Macaco – Somos vizinhos e isso BASTA!
– Está aí um ponto que tenho de discordar contigo, Sr. Macaco…
– Mas discordar como, ó Jacaré? – interrompeu – Se tu és incapaz de trepar a mais baixa das árvores, que amigo hei-de ser para ti, eu que mal sei nadar? – refilou o Macaco.

A troca de argumentos continuou. E como era já meio-dia, o Macaco chegou até a pensar que tudo não passava de truques do Jacaré só para «patar» o almoço da família do outro.
– Não vale a pena! Não é possível juntar o que a natureza quer separado – disse o anfitrião.
– Não concordo, Macaco! Não é justo culpares a natureza, quando o que falta é vontade. Ao menos tenta! Eu fico na água, tu na árvore, e construímos uma amizade forte como a vida – propôs o Jacaré.

Nasceu ali mesmo o pacto da amizade. Passavam-se os dias e fortalecia-se a relação. E num desses dias, surgiu o Jacaré com o mesmo entusiasmo e uma proposta na manga:
– Amigo Macaco, é já tempo de conheceres a nossa residência.
– Não sei se é boa a ideia, amigo Jacaré. Para mim estava melhor assim: tu lá e nós cá.
– Macaco, Macaco, não é possível negar-nos esse privilégio. Ao menos tenta! A minha casa fica lá naquela pedra, ao meio do rio, e levo-te às costas. Como vês, é de fácil acesso.
– E o Macaco aceita, pesava-lhe a consciência desagradar um fiel amigo.

Chegados ao meio do rio, vem a surpresa:
– Bem, Macaco, sempre achei que entre amigos não deve haver segredos… A verdade é que a minha mãe está gravemente doente e o único remédio que a pode salvar é coração de Macaco. Foi por isso que te trouxe cá… E sinto-me, como bom amigo, na obrigação de contar-te.
– Ai ééééé!? – exclamou o Macaco numa pausa de meio minuto – Só isso? Que falasses mais cedo! É que agora estou sem coração por uma questão de boas maneiras. Porque nós, macacos, quando levamos o coração brincamos muito mal em casa alheia; pulamos p’ra cá e p’ra lá… e mesmo você e a ilustre família não iriam gostar. Agora mesmo, temos de voltar à árvore para buscar o coração. RÁPIDO!
– Juras, Macaco?
– Ainda duvidas? Juro por mim e pela vida da “nossa mãe”, que pode morrer se nos atrasarmos.

O Jacaré dá meia volta e regressa em alta velocidade. Mal chegam, o Macaco pula e grita:
– Já viste um animal sem coração? MATUMBO! Eu é que bruxei a tua mãe, p’ra me matares?

O Jacaré perdia um amigo e a mãe no mesmo dia. O Sr. Macaco salvou-se graças à inteligência na hora do perigo. Por isso, em Umbundu, macaco chama-se “Sima”. “Sima wasima olondunge vio’yovola” [o macaco pensou, o juízo o salvou].

Moral da estória (lembrando música das Jingas do Maculusso): “sê prudente. Nunca se sabe, afinal, o que se esconde no peito de quem te abraça”.

(*) Adaptado naquela (2008) altura para o programa “Aiué Sábado” da Rádio Morena por Gociante Patissa (ideia original de autor desconhecido)


Retirado de: Angola Debates e Ideias- G. Patissa

11 de maio de 2013

OCILONGWA: OMBANGULO VONJO (PARÁBOLA: A COMUNICAÇÃO NO LAR)


Retirado do blog de Gociante Patissa: http://ombembwa.blogspot.co.uk/
Umbundu, língua nacional angolana de origem Bantu e com mais de 4 milhoes de falantes. A língua africana mais falada em Angola. Esta estória faz-me lembrar Mestre Tamoda do escritor Uanhenga Xitu.


UMBUNDU

Kwakala ukwenje umwe okuti, omo ka solele upange wokulima, wavanja upange vocakati kolupale waye. Vokwenda kwoloneke, yu wainda loku lilongisa elimi lyoputu. Lo ame layo vo yafetika okuvokiya.
Eteke limwe, vokwenda oku ñwalañwala, wasokolola okulya osanji lovakamba vaye konanya. Okwiya wosika ndona yaye hati:
— “Ó mulher, vou trazer meus 'migos. Tráta lá aquilo!” (eye ka longisa oputu yaco ku ndona).
Vokutyuka, weya yapa lesanju, lesolo kumosi. Pwãi hati ndivanjiliya pevindi, osanji alopo yeyi yivanja pevindi, ka yapondelwe, ka yatelekelwe.
— “Mas, ó mulher”, osanji kwa yitelekele?
— Sio! — Ukai watambulula, lelyanjo.
— “Mas eu não disse trata lá aquilo”?
— Oco mwenle ndapanga. Omo okuti walinga heti tala tala kilu, ndasima siti ukwetu mbi wasakalala lombela. Oko mwenle ndalaaaaña loku tala tala kilu, ndamuna wacinuma.

(Wasapuila ko kota lyange Rosa Ngueve Gociante Patissa)

PORTUGUÊS

Era uma vez um jovem que, por não gostar de ir à lavra, arranjou um emprego na urbe da sua localidade. E foi aprendendo a língua portuguesa com o tempo, o que veio a estar na base do aumento da vaidade.
Certo dia, enquanto saía para um passeio, entendeu que voltaria com os amigos para o almoço, dando à esposa a seguinte orientação:
— Ó mulher, vou trazer meus ‘migos. Trata lá aquilo! (ensina já a língua portuguesa à coitada da mulher, nada!).
Voltava, alegre, com aquela água na boca de quem espera degustar uma “galinha gentia” bem guisada, e tal… Só que, para a sua surpresa, a galinha continuava no canto, viva, não guisada.
— Mas, ó mulher, não cozinhaste a galinha?
— Não! – respondeu, nas calmas, a mulher.
— Mas eu não disse trata lá aquilo?
— Foi isso mesmo que fiz. Passei o dia a espreitar o céu, ainda pensei que tivesses alguma paranóia com a chuva. Tal como mandaste (tala tala kilu), não fiz outra coisa o dia todo.

(Chegou-me através da irmã mais velha Rosa Ngueve Gociante Patissa)