foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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11 de novembro de 2010

ÍNDICE IBRAHIM - ANGOLA DO FUNDO DA TABELA (Ou 35 anos depois)

O Índice Ibrahim

Pontuação 2009
 1   Maurícia
 2   Seicheles
 3   Botsuana
 4   Cabo Verde
 5   África do Sul
 6   Namíbia
 7   Gana
 8   Tunísia
 9   Egipto
10  Lesoto
11 São Tomé e Príncipe
(...)
20 Moçambique
(...)
41 Guiné-Bissau
(...)
43 ANGOLA


Dos 53 países presentes no índice, os últimos sao: Eritreia, Zimbabué, R. D. Congo, Chade e Somália.
A tabela avalia quarto critérios de governação: Desenvolvimento Humano, Participação e Direitos Humanos, Segurança e Estado de Direito, Oportunidades e Sustentabilidade Económica.

Como se pode ver pela tabela os recursos petrolíferos de Angola nada ajudam a uma boa performance do país que se encontra muito mal colocado neste índice da Fundação Mo Ibrahim. http://www.moibrahimfoundation.org/pt 

 Veja também a notícia aqui: http://angonoticias.com/full_headlines_.php?id=28930



POEMA

Risos presos a lamas e limos
trazem marés e calemas
pútridas a chorar lágrimas
hipócritas das hienas fétidas
mentirosas roubando
descaradamente
ao metro ao kilo e ao litro
-em perfeito sistema cgs-
arreganhando dentes
e roubando a olhos vistos
o povo nu faminto ignaro
alastrando musseques
de nudez e poeiras...

e o raiar quotidiano do Sol
brilha só para as castas hienas...

Namibiano Ferreira, 11/11/2010

1975 - 2010
35 anos de Independencia!

8 de outubro de 2010

CINCO ANOS DO BLOG 2005-2010

Ondjira Sul faz cinco anos. Data de nascimento: 09/10/2005. Uma aventura iniciada com alguma timidez e irregularidade mas que tem vindo (nos últimos três anos) a manifestar uma actividade crescente tanto quanto me permite o tempo.
Nasceu, exclusivamente, como blog de poesia e destinado a publicar os meus textos poéticos. Teve, no entanto, a sua evolução, e hoje, tem também uma vertente cultural divulgando a cultura angolana, nas suas mais variadas manifestações.
O meu obrigado a todos que visitam este espaço.

7 de outubro de 2010

SELF-ULTIMATUM

Tela de Eleutério Sanches (Angola)


Tanto me faz...
escrevo unicamente
os meus versos
deixei de medir o tempo
e as datas
já não me preocupam
nem quero saber dos dias
que passam
onde marco e escrevo
os meus poemas tecidos
à luz acimentada
do Sol ou do luar.

Desiludi-me!
Escrevendo
espero unicamente
o dia do meu komba.

Namibiano Ferreira

29 de setembro de 2010

DESTINO

Kwanza Sul - Foto Alex Correia

Quando nasci
o Kilamba* das Kiandas
me deu o Astrolábio
verdadeiro do céu e do mar
– Hulu e Kalunga – **
de marcar ondjira*** na terra
e eu tenho de te cantar
e eu tenho de me perder
nos vincos dourados
onde a calema fala...

Namibiano Ferreira
 
*Sacerdote do culto da Kianda (Sereia).
**Céu e Mar.
***Caminho.

25 de setembro de 2010

ESTÓRIA DO JACARÉ BANGÃO


Jacaré Bangão, monumento na cidade do Caxito.

Contam-se muitas estórias… e nos tempos de crise e sujeição, em que é necessário e urgente resistir, há estórias que se tornam archotes a arder na escuridão. São formas de resistir à opressão, anseios de Liberdade. Uma forma inteligente de resistência psicológica.
Em dado momento, essas estórias, inventadas ou baseadas numa frágil e ténue verdade, sem sabermos bem como, transfiguram-se em algo vivo, espiritualmente superior e poderoso: o mito, o nada que é tudo. Esse nada que é tudo vive, revive e transcende-se como que por artes mágicas e torna-se uma arma. Uma arma poderosa que pode ser usada e reusada nos mais variados momentos de crise na História de um determinado povo ou país.
Assim é o caso da estória popular angolana do “Jacaré Bangão” acontecida em terras do Caxito, no tempo colonial. Caxito é a actual capital da província do Bengo que fica a cerca de 130 Km da cidade de Luanda.
Há várias versões desta estória. Vamos ficar por esta que é popularmente aceite e que vai ao encontro do que foi dito acima. Eis a estória recontada por mim:

ESTÓRIA DO JACARÉ BANGÃO


Esta estória aconteceu no tempo em que as autoridades coloniais portuguesas obrigavam com formas de extrema coacção o pagamento do Imposto Geral Mínimo a cada cidadão angolano. Quem resistisse ou tivesse o atrevimento de não pagar era exemplarmente punido. O Imposto era profundamente odiado, por vários motivos, um deles pela forma injusta como era cobrado e por ser mais um modo de opressão por parte de um governo imposto pela força e que praticava formas modernas de escravatura como o famigerado trabalho contratado, usualmente referenciado como “contrato”.

Consta que um determinado chefe de posto do Caxito era implacável, feroz e desumano no modo como arrecadava o dito imposto. Ninguém escapava à sua fúria.

Aconteceu que, vivia junto às margens do rio Dande, que serpentea pela bela e orgulhosa cidade do Caxito, um ilustre jacaré que dava pelo nome de Sr. Ngandu. Ele era um jacaré enorme, brigão, com fama de muito mal humorado e sempre zangado, mesmo com a própria sombra.

O Sr. Ngandu tinha tido em tempos uns desaguisados com as autoridades coloniais, queriam tirar a sua pele para mandar no Putu para fazer carteiras... e como chegou aos seus ouvidos a fama do dito Chefe de Posto o nosso jacaré resolveu fazer-lhe uma partida e aproveitar para se vingar daquela ignóbil humilhação quando lhe quiseram caçar para lhe roubar a pele e logo a ele, sim a ele, um crocodilo da mais alta linhagem das margens do Dande.

Uma certa manhã, ainda os galos não tinham acordado bem o dia, Sr. Ngandu pôs a sua cara mais feroz e mostrando seus dentes cortantes e pontiagudos saiu do Dande e com um saco de dinheiro na boca, pois jacaré não tem mãos, dirigiu-se ao Posto Administrativo com quanta pressa tinha mas no desengonço próprio de qualquer jacaré quando anda em terra-firme.

Chegou no posto ameaçador e zangado para pagar seu devido imposto ao implacável chefe do Mwana Putu. De dentes arreganhados, entrou pelo Posto dentro e logo veio o Sipaio a mando do patrão já medroso, que impedisse célere a presença naquela repartição pública de tão nefando animal.
_ Xé bicho, m’bora, xó, xó, fora... Sr. Chefe num quer tu aqui, bicho. Tunda, tunda...
Mas Sr. Ngandu não era homem... perdoem-me, não era jacaré para se intimidar com tal palavreado. Deu uma dentada na bunda seca do Sipaio que se pôs a correr em alvoroço pela rua fora.
E então, com todo seu jeito e lágrimas de crocodilo, Sr. Ngandu falou assim no chefe do posto:
_ Ó homem, venha cá e tome lá o seu rico imposto eu sou Ngandu, um velho jacaré do Dande, venho aqui pagar meu devido imposto. Venha, meu querido amigo, pegar seu dinheirinho preso em meus dentinhos afiados.
E dizendo isto o Sr. Ngandu deu uma risadinha muito própria de jacaré, bateu castanholas com seus dentinhos afiados de riso pontiagudo, olhando desafiador no chefe do posto.
O chefe, metido em sua farda colonial cor caqui de reluzentes botões não botou voz no discurso. Amarelo de cagaço e verde de medroso lá conseguiu arranjar força nas pernas trementes e saindo a correr porta fora, cagado e borrado no fundilho dos calções, gritava: - Acudam, acudam um enorme jacaré quer-me comer... abandonando o posto à sua sorte.
Os populares do Caxito, alertados pela fuga do Sipaio, haviam-se juntado à porta da Administração e a tudo isto assistiram. Entretanto, enquanto o Sr. Ngandu regressava pachorrento, ameaçador e desengonçado ao seu lar, nas margens do Dande, o povo começou dançar e batendo palmas cantava mesmo assim:

Viva Jacaré, Jacaré Bangão
sacola na boca, jacaré não tem mão,
saiu do Dande pagar o imposto
mordeu no sipaio assustado
e ao valentão Chefe do Posto
lhe meteu a correr cagado
borrado nos fundilhos do calção.
Viva Jacaré, Jacaré Bangão.

Por isto tudo que aconteceu, na então Vila de Caxito, Jacaré Bangão, ainda é hoje um herói admirado nestas terras onde o Dande continua serpenteando sem depressas nas margens do Caxito. E dizem os mais-velhos que Jacaré Bangão ainda hoje vive por ali, nas margens da cidade do Caxito.

Namibiano Ferreira


NOTA: Sobre esta estória, existem outras duas versões retiradas do livro “Do Cunene a Cabinda – IV Raid Todo-o-Terreno do Kwanza-Sul”. A primeira, tida como mais provável, é a seguinte:
Vivia na região um cidadão que dava pelo nome de Kingandu, palavra derivada de Ngandu, que em kimbundu significa jacaré. Esse cidadão era brigão, mas considerado nas redondezas. Kingandu era dado a não respeitar a autoridade colonial, não pagando impostos, até que um chefe de posto menos condescendente o obrigou a pagar. Assim, ficou a fama de que “e o Ngandu que é valente pagou, agora ninguém escapa”.
Quando, ao pagar o imposto, lhe perguntaram o nome, ele respondeu: Ngandu. E foi apontado que quem pagou o imposto foi o jacaré.
Por outro lado, o Sr. Domingos Correia Diogo, natural do Caxito, recolheu a seguinte versão:
Em 1848, em pleno regime colonial, o povo era obrigado ao pagamento do Imposto Geral Mínimo.
Um cidadão de nome Muneango transformou-se, magicamente, em autêntico “jacaré” e dirigiu-se ao Posto Administrativo para pagar o seu imposto como cidadão e natural do Caxito.
O chefe do posto administrativo ficou surprendido com a situação e ele e a sua equipa de sipaios meteram-se em fuga, abandonando o gabinete, perante a fúria do jacaré.


20 de setembro de 2010

HIDROGRAFIA


Kwanza Sul (Angola)

Na hidrografia do teu corpo
desenho a nudez dos rios
malaquites a beijar as coxas púbicas
dos lábios – margens abotoadas –
na nudez vestes de loucura verde.

Namibiano Ferreira

12 de setembro de 2010

LUBANGO

Lubango - Estátua da Liberdade

No Lubango, hoje, o tempo é o que é e eu não estou no Lubango.
No Lubango, num dia de chorosa chuvada, trovoada e flashes de relâmpagos,
recordo as bátegas grossas, tão grossas como se fossem permanentes tubos transparentes ligando o céu e a terra, num místico beijo do suor divino.
O dilúvio abatia-se sobre o mundo! E os homens esperavam complacentes
vórtice de uma paciencia africana e milenar enquanto nas matas a promessa...

Para além disto, o Lubango é sempre os versos de um poema de Viriato da Cruz:
policromias, fulgências, feitios e transparências
de um pratinho de louça
de Rouen.

Namibiano Ferreira
In Frag/men/sias - Fragmensia de Lembranças . antigas .

1998

 
 
 
Lubango - Cristo Rei

7 de setembro de 2010

CARTA DE MARTIN LUTHER KING A UMA ANGOLANA (Deolinda Rodrigues de Almeida)

Foto Jornal de Angola (on line)


No dia 21 de Julho de 1959, da cidade de Montgomery, no Alabama, Martin Luther King escrevia à heroína angolana:


Senhorita Deolinda Rodrigues

Muito lhe agradeço pela sua muito amável carta, de data recente. Li cada linha que me escreveu com grande interesse. É realmente encorajador saber do seu interesse na libertação do povo do seu país. Estou bastante contente em receber informação em primeira-mão sobre a situação em Angola. Tive notícias a partir de outras pessoas que vivem fora do país, mas não há nada melhor do que receber notícia em primeira-mão.

Parece que os portugueses são as pessoas mais lentas a largar mão das suas possessões em territórios estrangeiros. É lamentável que lhes falte a visão para se aperceberem do que está traçado para esses territórios. É sempre trágico ver um indivíduo ou uma nação tentando impedir ou parar uma irresistível onda.

Criar uma liderança

Não sei se posso dar-lhe alguma sugestão concreta sobre o que fazer na vossa particular situação, pois muitas vezes é necessário ver com os próprios olhos antes de poder dar uma resposta definitiva. Direi, contudo, que o primeiro passo para corrigir a situação é criar uma verdadeira liderança no seu País. Alguma entidade ou algumas poucas entidades devem posicionar-se como símbolos do vosso movimento para a independência.

Logo que tal símbolo seja encontrado não é difícil conseguir que as pessoas o sigam e quanto mais o opressor procurar deter e derrotar esse símbolo, tanto mais ele consolidará o movimento. Seria maravilhoso regressar ao seu país com esta ideia na mente A liberdade nunca é alcançada sem sofrimento e sacrifício. Só se conquista com trabalho persistente e incansáveis esforços de pessoas dedicadas.

A senhorita Deolinda Rodrigues deve também saber que aquilo que vem acontecendo noutros países de África terá inevitavelmente repercussões no seu país. Será impossível Angola permanecer em África, sem ser afectada por aquilo que acontece na Nigéria, no Quénia e na Rodésia (referia-se à Zâmbia, então chamada Rodésia do Norte). Portanto, a vossa verdadeira esperança reside no facto de que a independência será uma realidade em toda a África, dentro dos próximos anos.

Dirijo à senhorita Deolinda Rodrigues as minhas orações e os melhores votos de bênçãos de Deus, em tudo o que estiverem a fazer. Espero que os seus estudos continuem de maneira a serem frutíferos e compensadores.

Em encomenda separada envio-lhe um exemplar do meu livro “Stride Toward Freedom”. Queira aceitá-lo como oferta minha. Espero que lhe venha a ser útil este meu humilde trabalho.

Muito sinceramente, me subscrevo

Martin Luther King, Jr.

 
Visão política
 
O reverendo Martin Luther King revela nesta carta uma visão política fora do comum. Tudo o que afirmou a Deolinda Rodrigues, então ainda jovem estudante no exílio, aconteceu. As independências nas antigas colónias de África sucederam-se em alta velocidade e, na verdade, só ficaram para o fim as antigas colónias portuguesas, porque uma ditadura feroz se convenceu de que era possível travar a imparável onde de liberdade que varreu o continente africano.
- Esta carta de Martin Luther King a Deolinda Rodrigues foi “descoberta” por Loide Ana Santos e o embaixador Ismael Martins, que a fizeram chegar à família através do deputado Roberto de Almeida, vice-presidente do MPLA.

Créditos: http://jornaldeangola.sapo.ao/20/0/carta_de_martin_luther_king_a_uma_angolana_na_revolucao
 
Breve nota sobre Deolinda Rodrigues de Almeida, mais conhecida por Deolinda Rodrigues:
 
Deolinda Rodrigues de Almeida e as suas companheiras Irene Cohen, Engrácia Paim, Lucrécia dos Santos e Teresa Afonso, na luta contra o colonialismo português foram incorporadas como combatentes do Esquadrão Kamy, coluna guerrilheira preparada e treinada em 1966 por internacionalistas cubanos e cuja arriscada missão consistia em levar reforços desde a fronteira congolesa até à Primeira Região Político-Militar do MPLA. No interior de Angola, numa longa e penosa marcha, em zona de terra queimada, o Esquadrão perdeu-se, e a fome dizimou uma grande parte dos combatentes, especialmente dos quadros.
Deolinda e as suas quatro companheiras, dirigentes da OMA (Organização da Mulher Angolana), sobreviveram à inclemência das condições climatéricas e do terreno inóspito. Empreenderam o regressando via Zaire (hoje RDC), foram presas, nos arredores da pequena vila de Kamuna, pela FNLA e posteriormente assassinadas. O dia da sua detenção – 2 de Março de 1966 – foi consagrado  Dia da Mulher Angolana.

4 de agosto de 2010

E AINDA O COMBOIO-MALA...

Em postagem neste blog (http://poesiangolana.blogspot.com/2010/06/ver-o-comboio-mala-chegar.html) sobre o poema “Ver o Comboio-Mala Chegar” o poeta angolano, Décio Bettencourt Mateus, fez o seguinte comentário: Essas pinturas poéticas desses tempos, mano, semi-nostálgicas e semi-alegres são d'encantamentos poéticos.

Pois concerteza que são, meu amigo e poeta, concerteza que são... mas o comboio-mala também inspirou outras situações menos alegres, mais duras e de uma realidade que me mostrou, desde muito cedo, que eu nasci e vivia em um país cativo. Aqui fica um outro poema para um outro dia de domingo, embora hoje não seja domingo, todos os dias são, infelizmente, dias em que se estrangula a LIBERDADE.


Luau em 1963 - foto do blog: joanfuba.blogspot.com


DIFERENÇAS DE DOMINGO



Eu vi a luz em um país cativo
muito cedo dei por isso
e não o soube explicar
quando pedi
remeteram-me para o mar:
silêncio mortal sem boca a marulhar...

Na suave verdura do tempo, oito eram as brisas soando sobre meu corpo.
Desse tempo antigo, ternura de mulemba e moleque, hei-de sempre lembrar
os olhos brancos assustados do homem atirado na gare ao pontapé, ao encontrão,
a tropeçar de mãos agrilhoadas. Não lembro a sua fisionomia, a sua estatura,
nem o que trazia vestido e muito menos sei o seu nome. Jamais o saberei!
No entanto, triste paradoxo, sei que era Domingo. E desse Domingo sei unicamente
o homem negro algemado e assustado nos olhos todos brancos, atirado como Cristo, sobre o chão da gare quando a grazine chegou naquela tarde de Domingo e antes da entrada triunfal do comboio-mala na estação do que era o Luau do outro tempo.
Vozes ciciadas murmuravam: Um turra! Um turra! E atrás, no pontapé, no encontrão,
na brutalidade gratuíta, três, quatro, cinco já não sei quantos soldados portugueses satisfeitos. Nesse Domingo, num ano qualquer da graça, houve um Domingo
de todas as diferenças, na memória das lembranças, só me ficaram os olhos verdadeiramente brancos de um homem simplesmente um homem anónimo
fazendo pensar minha cabeça ainda sem saber pensar e distinguir a razão
de existirem domingos diferentes, ciciados e algemados na flor dos dias
num grito azul desejo Liberdade e anseios de plena Igualdade.

Namibiano Ferreira,
in FRAG/MEN/SIAS
Fragmensia de Lembranças . antigas .

2 de agosto de 2010

KAMUSOSO


Malembe, malembelembe*
toc toc toc...
Ngana Mbaxi**
carrega o mundo nas costas
toc toc toc...
malembe, malembelembe.
E voando, Ngana Piápia,***
voando a noite ao sol,
passa só a gritar:
piá piá piá...
– Onde está a outra metade?
piá piá piá...
– Onde está a outra metade?

Ngana Mbaxi fica só a calar
e toc toc toc...
carrega o mundo nas costas
malembe, malembelembe
toc toc toc...

Namibiano Ferreira

* Devagar, devagarinho.
** Senhora Tartaruga
*** Senhora Andorinha.
Kamusoso - Pequeno conto.

(Inspirado em Parábola do Cágado Velho, de Pepetela)

14 de julho de 2010

ENCRUZILHADA


E no desmaio dos dias
lúcidos de loucura
procuro o momento
navalha que não perdi...

A lógica pútrida
que passa
é filha de um tempo
marxista
vestindo agora
nos lobbies do poder
as marcas capitalistas.

Namibiano Ferreira

27 de junho de 2010

REGRESSAR DE NOVO

Foto de Tonspi (Angola)


Partir no rio de Kalungangombe*
e, depois, quando voltar de novo,
hei-de vir montado na garupa
viva das boiadas andarilhas
pele a cantar ngomangombe**
levantando no peito do ar
um mar de poeiras a festejar
e eu, calçando meus nonkakos,***
serei um pastor Ovakuvale****
conduzindo meus bois
na árida oferta da terra Namibe.


Namibiano Ferreira




* Aglutinação de duas palavras: kalunga + ngombe (boi). Neste sentido é um ente espiritual que acolhe o espírito dos mortos no outro mundo.
** Ngoma (tambor) e ngombe (boi), aglutinacao feita pelo autor.
*** Sandálias feitas com pneus de automóveis e usadas pelo povo mukubal e outros do deserto.
**** Povo (mucubal, kuvale) do deserto do Namibe do grupo etno-linguístico dos Hereros/Helelos, idioma Tchiherero.

23 de junho de 2010

VER O COMBOIO-MALA CHEGAR




Comboio-mala CFB (foto Mukandas do Monte Estoril)

Trapos de vento falam no ar
lembranças do antigamente,
tempo antigo de moleque
quando todo o domingo
era um dia de festa
na estação esperar o comboio-mala chegar
a Vila Teixeira de Sousa*.
Era tudo sempre igual, sempre igual...
kama-kove, kama-kove, kama-kove, úuu...
uma triste monotonia de um fúnji sem muamba
mas se não fosse esperar o comboio-mala chegar
para mim, moleque de outro tempo,
domingo jamais seria esse dia!

Namibiano Ferreira
 
* Actualmente: Luau.

Poema publicado no livro Rumo ás Terras que Brilham: Lundas, roteiro que acompanha o 5 Raid TT Kwanza Sul.
 
 

15 de junho de 2010

1975 - MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DO MPLA



A Revolucao murchou, o POVO continua minguado e nunca ordenou coisa nenhuma. Desses tempos em que se construiam nobres ideais ficaram muitas coisas... Umas más outras belas, como estas duas cancoes que andavam na boca de toda a gente. E temos que ser sinceros, a música revolucionária do MPLA, para além de uma excelente qualidade musical e intelectual, eram armas que chegavam a por os partidários da UNITA e da FNLA a cantar estas mesmas cantigas. Estes dois movimentos nao conseguiam nem chegar aos calcanhares da propaganda musical do MPLA. Deixo-vos com saudades dos meus 15 anos estes dois vídeos.


Ngola Ritimos e a voz de Santocas, em 1975 - Poder Popular


Novamente a voz de Santocas, homenagem ao Comandante Valódia (Herói do Massacre de Kifangondo)

14 de junho de 2010

NAVEGAR

Kissanje

Os dedos dedilham
harpas ou kissanjes 
espírito eterno e palavras.
Eu não sei realmente
quem os comanda
e a poesia navega
por entre velames de mim
e dos muitos barcos
distintos onde aportei
naveguei o mesmo mar
antigo mas de périplos
sempre distintos.


Depois de cada desembarque
escolho um outro barco
para nele voltar a navegar
por entre velames de mim
-dedilhando harpas ou kissanges-
solto dedos eternos e poesia...


Namibiano Ferreira

9 de junho de 2010

QUINTO RAID TT KWANZA SUL

Uma edição da Pangeia Editora (Portugal) e Chá de Caxinde (Angola)



Mais um Raid TT Kwanza Sul, trata-se da sua quinta edição e como já vem sendo hábito nas duas últimas edições sai, antes do raid ter início, o livro que vai dar a conhecer o trajecto que os entusiatas do TT vão ter que percorrer. Este ano intitulado: “Rumo às Terras que brilham: Lundas”. Não se trata de um mero roteiro de estradas e picadas. Ele é, antes de tudo, um excelente veiculador de informações históricas, económicas, culturais e humanas. Um excelente manual para quem quiser saber estórias da História e também outros textos de índole literária.
Segundo me informaram da organização vou, mais uma vez, participar com um poema.
O Raid vai ter início no dia 24 de Junho e prolonga-se até 4 de Julho do corrente, bem na época do cacimbo para fugir às chuvas.

8 de junho de 2010

DOIS LIVROS INTERESSANTES...

"A History of Postcolonial Lusophone Africa" e "The Postcolonial Literature of Lusophone Africa", são dois livros de muito interesse para quem quiser se inteirar da História e Literatura dos PALOP's (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).
Vários são os autores, mas os livros são orientados por Patrick Chabal que é professor de Estudos Lusófonos Africanos na Universidade de Londres e dirigente máximo do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros no King's College, prestigiadíssima instituição universitária londrina. Infelizmente os livros não estão, que eu saiba, traduzidos em português mas são duas obras que vivamente aconselho aos que forem capazes de os ler em inglês.
No que se relaciona com Angola, os responsáveis são, no volume de História, David Birmingham (eminente professor de História da Universidade de Kent em Canterbury) e na Literatura, Ana Mafalda Leite (professora de Literaturas Africanas da Universidade de Lisboa).
Namibiano Ferreira





NOTA: Os livros podem ser adquiridos aqui http://www.amazon.co.uk/ ou http://www.amazon.com/

2 de junho de 2010

ANIMAIS EM IDIOMA KWANHAMA

O idioma Kwanyama (leia-se cuanhama) é uma língua Bantu* usada pelo povo Ovakwanyama que vive no sul de Angola, província do Cunene (420.000 pessoas) e no norte da Namíbia, região de Ovamboland (240.000 pessoas). É conhecida também pelos nomes: cuanhama , otchikwanyama, ovambo, owambo, ambó.


Zona sombreada, área do povo kwanyama.


Os Kwanyamas:

O povo cuanhama pertence ao grupo étnico-linguístico dos Ambós (Ovambo).
Os Cuanhamas constituem, dentro do baixo Cunene, o grupo mais importante. São exímios na arte de fundir o ferro. A sua economia assenta na pecuária e na agricultura. É lendária a resistência dos seus reis contra o colonialismo europeu, nomeadamente o último rei Mandume Ya Ndemufayo, preferiu suicidar-se a render-se aos portugueses.

A origem do nome:

Segundo a tradição, vieram do sul (Ondonga). Um soba da tribo donga teria enviado alguns elementos para o norte em busca de alimentos. Esta gente, apesar do soba o haver ordenado, não regressou, por ter encontrado uma região muito rica em caça. Então o soba acabou por dizer: deixai-os lá com a carne (carne = nhama). Assim surgiu o nome Cuanhama, ova-kwa-nyama, (literalmente os da carne).


Alguns animais em Kwanyama:

Leão – Onghoxi

Leopardo – Ongwe

Elefante – Ondjaba

Avestruz – Omha

Boi – Ongobe

Cão – Ombwa

Ovelha – Oxikapa

Crocodilo – Ongadu

Coelho/Lebre – Ondiba

Escorpião – Ondje

Gato – Okambixi

Mosca – Odi

Grilo – Osenhe

– Efuma

Girafa – Onduli

Aranha – Eluviluvi

Rato – Omuku

Termita/Salalé - Ehedi

Porco – Oxingulu

Zebra – Ongolo

Marimbondo/Vespa – Omambodwe



Notas: Não me preocupei com a ortografia oficial da língua kwanhama porque preferi aproximar-me da fonética portuguesa para que todos possam reter o mais possível da língua tal como ela é falada.
Como todas as línguas, o kwanhama nao é uniforme e é possível que hajam outras formas de pronunciar e até outras palavras para designar o mesmo animal. Como em portugues, por exemplo: cordeiro, anho, borrego ou ainda cão e cachorro. Por outro lado pode haver erros de minha parte pois já não ouço falar kwanhama há muitos anos. Estes são os que me lembro.

*A principal característica das línguas Bantu é o facto do feminino, masculino, singular e plural serem feitos por meio de prefixos (em vez de sufixos, como acontece nas línguas europeias.) A letra h deve ser levemente aspirada.

1 de junho de 2010

BEIJOS

O Beijo, Rodin (foto net)
                                             
  Para Dinah


O meu corpo anda caiado de luz
pelo carinho de beijos luzidios
dos teus lábios fogo carmesim
incendiado a labaredas e lírios.


O meu corpo anda caiado de luz
como se fosse um templo imaculado
onde guardo as pétalas dos teus lábios
fogo bendito carnal e sagrado...

Namibiano Ferreira

28 de maio de 2010

ENTREVISTA COM JÚLIO MENDES LOPES



Júlio Mendes Lopes lecciona História de África no ISCED em Luanda.


"Elites africanas preservam processos da administração colonial"


A pré-história é um conceito que ainda faz sentido?

É ainda um conceito que faz sentido, sim. Porque é o período em que ocorreram, em África, os processos de hominização. É no continente africano que se encontram os estádios do desenvolvimento humano de maneira continuada, desde os australopitecos até ao homo sapiens, que se vai encontrar desde o corredor que vai de Manke Makdap, na África do Sul, até ao vale do rio Omo na Etiópia.
É neste vale onde investigadores franceses, britânicos e norteamericanos trabalharam e deram com muitos achados ósseos que dão uma ideia sobre a evolução da humanidade.
Os australopitecos, por exemplo, não foram encontrados em nenhum outro continente que não no africano.
Aliás, é também em África que se deram os primeiros sinais da escrita cursiva, nomeadamente no Egipto antigo, e é também em África onde muitos dos grandes sábios da Grécia antiga estudaram. Há até trabalhos publicados por um grego, Ptolomeu Cláudio, que chegava ao ponto de afirmar que um livro de mil páginas não chega para enumerar os sábios da Grécia que estudaram no Egipto antigo, nas mais diferentes áreas: medicina, agronomia, astronomia, filosofia, etc. Como o caso de Pitágoras, por exemplo, o sábio grego que criou a teoria dos catetos, estudou matemática durante 22 anos no Egipto. Isso é prova evidente de que África é o continente que deu os primeiros fundamentos do desenvolvimento da humanidade.

O País On Line http://www.opais.co.ao/pt/opais/home.asp

27 de maio de 2010

MÚSICA DOS HEREROS DO SUL DE ANGOLA

Alguma propaganda foi feita sobre o luxuoso livro de fotografias do povo herero, do sul de Angola [e norte da Namíbia], de autoria do publicitário pernambucano Sérgio Guerra (Hereros, editora Maianga, R$ 190*), que trabalha para o governo angolano desde 1999. Seu lançamento foi há um mês, no dia 27 de abril, na Livraria Cultura da faustuosa Villa Daslu, de São Paulo. Mas os resenhistas do material não chegaram a comentar sobre uma pequena relíquia que vem contida no álbum: é o disco das músicas daquele povo seminômade e irredento que passou um tanto ao largo do colonialismo português (embora tenha sofrido durante as campanhas europeias de "pacificação"). Trata-se de uma preciosidade para aqueles que se interessam pelos cânticos tradicionais angolanos em particular, e africanos em geral. O som, naturalmente, assim como o resultado geral do trabalho, de ótima qualidade.

[Comentários pontuais sobre os hereros e outros povos da região, ler o antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho. Com mais tempo, ler o ótimo Vou lá visitar pastores.]


Nota: Por falar em Villa Daslu, vai uma dica para os bebericadores de café. Quem algum dia passar ali por perto (avenida Chedid Jafet), aproveite para saborear gratuitamente o café da cafeteria Octavio, uma das melhores e mais luxuosas da capital paulista (há pelo menos dois balcões lá dentro). Pergunte pelo café turco. E leve o caderno de campo: as tribos que passeiam pelo local à procura de adornos e dádivas são muito, digamos assim, peculiares.
 
Créditos:  Lusofonia Horizontal: http://lusofoniahorizontal.blogspot.com/


E veja mais este link, sobre o livro:
Hereros (OvaHimba), foto de Sérgio Guerra

* 190 reais = 70 libras e 81 euros

27 DE MAIO DE 1977 - O QUE FOI?

Nito Alves


José Van Dúnen



Sita Valles





Hoje, é 27 de Maio. Em 1977 aconteceu História em Luanda. O que foi o 27 de Maio de 1977? O vídeo esclarece.



Link Associacao 27 de Maio: http://27maio.com/



25 de maio de 2010

25 DE MAIO - DIA DE ÁFRICA - PINTORES ANGOLANOS

Valentim


Carla Peairo



Rui Samuel



Lino Damiao


António Olé

Neves e Sousa



Thó Simoes


Mário Tendinha


13 de maio de 2010

A AVÓ MAYAMBA

Interessantíssima matéria publicada no jornal angolano on-line O País, em março de 2010, retirei do blog Lusofonia Horizontal:
http://lusofoniahorizontal.blogspot.com/ 

O evento que acontecerá hoje a partir das 18 horas na sede da UEA é, na verdade, um duplo momento, pois para lá do livro “Um Ano de Vida”, vai ser também a apresentação pública de uma nova casa editora, que acaba de ser fundada pelo jornalista e editor literário Arlindo Isabel.
Avó Mayamba

Baptizada com o nome de Mayamba Editora, a entidade surge como a nova aposta do ex-director da Nzila, conhecida editora que criou há dez anos e de que se afastou, de maneira voluntária, nos finais de 2009.
“Um Ano de Vida” é, assim, o livro de estreia da Mayamba Editora, que muito em breve trará outros autores nas suas variadas colecções, que se estendem da ficção narrativa (colecção Nzadi, que significa rio em língua kikongo) a uma dezena de outros géneros (literatura infanto-juvenil, ensaio histórico, pesquisa em ciências médicas, texto de ciências sociais, dicionários, etc).



Preito de homenagem

O nome Mayamba, que passa a conferir identidade à nova casa editora, pertence à avó materna de Arlindo Isabel, e constitui uma homenagem à mulher que considera “o pilar” da sua educação e formação.
Hoje, com mais de noventa anos, e a residir num bairro de Luanda, a matriarca é iletrada e não fala português, exprimindo-se exclusivamente em kikongo. Nenhum destes factos a impediu, contudo, de compreender desde cedo a importância da escola e tem o seu passado ligado profundamente a essa visão progressista do mundo, que a levou a fazer da oferta sistemática de livros a filhos e netos uma rotina. A sua aposta firme na educação dos descendentes permite que hoje tenha na família mais de uma dezena de licenciados, entre eles o próprio Arlindo Isabel, formado em jornalismo e a irmã deste, médica especialista em oncologia.
A homenageada criou os seus filhos e netos numa aldeia do município da Damba (província do Uíge) e é lembrada pelo seu estoicismo e capacidade de fazer acontecer, que a tornou criadora de gado caprino, suíno e galinhas; produtora de ginguba, mandioca, gergelim e inhame e dextra no domínio das plantas medicinais locais para curar os seus do paludismo e outras doenças. Mas filhos e netos recordam-na com mais emoção ainda pelas suas viagens de mais de 30 km, a pé, da aldeia até à sede comunal, para vender fuba de bombó, ginguba, milho, batata-doce e outros produtos do campo, e assim conseguir os trocados tão necessários à sobrevivência da prole sob sua exclusiva responsabilidade, uma vez que tios e irmãos tinham abalado como refugiados para o vizinho Congo ex-Belga (actual RDC) para escapar da repressão do colonizador português.


http://www.opais.net/pt/opais/?id=1787&det=10548&mid=293

11 de maio de 2010

CARLA PEAIRO - PINTORA ANGOLANA


Carla Peairo nasceu em Angola, Benguela, cidade das acácias rubras, em 1961.
Viveu uma grande parte da sua infância, à beira-mar: Praia Morena, Baía Farta,
Chamume, Macaca.
O seu interesse pelo desenho e pintura começou quando tinha 13-14 anos e, até hoje a sua paixão. A sua paleta de cores quentes, transmite África e levou-a a realizar mais de quarenta exposições.
Viveu em Angola 22 anos onde seguiu uma formação artística de desenho, pintura e
decoraçãona Escola Industrial de Benguela e frequentou o Instituto Superior de Ciências da Educação na cidade de Lubango.
Foi membro da Brigada Jovem de Literatura da Huíla e participou, com o Trio Mensagem, em vários espectáculos musicais apresentados no cinema Arco-Íris e no ISCED.
Adquiriu experiência profissional como decoradora, assistente social, professora de
inglês e de desenho no ensino secundário.
Em 1983 parte para Lisboa onde exerce em desenho publicitário, criação e confecção de modelos na indústria têxtil.


Admitida no Centro de Arte e Comunicação Visual - ARCO em Lisboa, frequenta os
ateliers de desenho , artes gráficas, modelagem assim como o atelier de pintura da
Sociedade Nacional de Belas Artes.
Actualmente vive em Neuchâtel – Suíça, e continua a dar asa à sua imaginação.
As suas obras estão representadas em várias colecções privadas e públicas
internacionais: Angola, Senegal, Portugal, Brasil, Suíça, Dinamarca, Noruega, Inglaterra, Alemanha, Nova Iorque.
É membro da UNAP e da ArtAfriksuisse, sociedade dos artistas africanos na Suíça.
As sua obras orientam-se essencialmente para uma temática de expressão africana
representando aspectos da vida dos africanos: a fecundidade e a continuidade, como
símbolos atribuídos ao universo feminino, os momentos de lazer e de reflexão sobre a
vida, os rituais...
Concilia e integra na sua criação o real e o imaginário, a mitologia negra, o seu
fantástico e a poesia assim como as disposições inerentes à sua condição de mulher-pintora africana.
O seu desejo e esperança são que as suas obras transmitam o amor da vida, a
solidariedade humana, a coesão.



As 3 telas sao de Carla Peairo (Angola)

10 de maio de 2010

Angola participa no 9º Festival Africano da Grécia




O Pensador 


Angola vai participar, nos dias 15 e 16 deste mês, em Atenas, no 9º Festival Africano da Grécia, inserido nas celebrações do Dia de África (25 de Maio), onde serão apresentados diversos aspectos da cultura nacional.
Segundo uma nota da embaixada angolana na Grécia, o país vai exibir danças, culinária, moda, artesanato, bijutaria e música, cujo certame se realiza há nove anos.
O Festival Africano da Grécia realiza-se numa iniciativa das missões diplomáticas do continente africano acreditadas naquele país europeu. O objectivo é promover as potencialidades sócio-culturais dos estados participantes.
O embaixador angolano na Grécia, Jaime Vilinga, promoveu quarta-feira, na residência oficial do diplomata angolano, um encontro de trabalho com os seus homólogos africanos, no qual foram analisados e discutidos aspectos ligados à organização do festival.
A organização do festival estima que cerca de 10 mil pessoas visitarão a residência oficial do embaixador da África do Sul, local onde vai decorrer o evento.

Texto retirado de http://www.angoladigital.net/artecultura/

7 de maio de 2010

COSTUMES NYANEKA-HUMBI - PENTEADOS -

Os Muílas são um povo que pertence à nação Nyaneka-Humbi. Habitam a província da Huíla no Sul de Angola. No século XVI os Nyaneka-Humbi repartiam-se por dois importantes e poderosos reinos: Reino da Huíla e Reino do Humbi e que fizeram parte do célebre “Ciclo de Mataman” que compreende a história de todos os povos angolanos que habitavam o que são hoje as províncias da Huíla e do Namibe.





OS PENTEADOS


As mulheres usam penteados de demorada e difícil execução, mas de grande duração, muitas vezes artisticamente ornamentados de missangas. O formato desses penteados é variável, estando em conformidade com a fase da vida que a mulher atravessa. Podem, assim, distinguir-se pelo menos seis formatos, que correspondem às seguintes fases: até à idade de doze anos; dos treze aos catorze, sendo este um autêntico monumento; quando está prestes a casar; quando casa; passado algum tempo depois de casar e, finalmente, depois de ter filhos. Nesta última fase, a mulher usa pedaços de caniço no penteado, consoante o número de filhos, pois cada pedaço de caniço representa um.

Pelo penteado pode, pois, distinguir-se se a rapariga é impúbere, púbere, se está para casar ou se já casou e, neste último caso, se tem filhos e quantos tem.

Nas cerimónias tradicionais as mulheres devem apresentar-se com os penteados próprios e devidamente compostos. Por vezes a arte dos penteados é melhorada através do uso de ornamentadas perucas.


Peruca

3 de maio de 2010

A REBITA

Para o meu avô, que foi um grande rebitista.


Rebita

A rebita é um género de música e dança de salão angolana que demonstra a vaidade dos cavalheiros e o adorno das damas. Dançada em pares em coreografias coordenadas pelo chefe da roda, executam gestos de generosidades gesticulando a leveza das suas damas, marcando o compasso do passo do semba. O charme dos cavalheiros e a vaidade das damas são notórios; enquanto dança se vai desenvolvendo no salão as trocas de olhares e os sorrisos entre o par são frequentes. É dançada em marcação de dois tempos, através da melodia da música e o ritmo dos instrumentos.



A rebita tem a sua origem mais directa na dança angolana que se chama semba (umbigada). Ao introduzirem o acordeão no semba surgiu a rebita, como explica Óscar Ribas, o ambiente campestre foi trocado pelo salão.
Segundo a opinião do músico angolano Liceu Vieira Dias, as origens da rebita remontam ao período das invasões francesas em Portugal quando um grande número de nobres portugueses se auto-exilaram em Luanda sem as suas mulheres e habituados a uma vida social influenciada pela cultura francesa, influenciaram os naturais do país. Por essa altura fundaram-se associações onde se organizavam bailes, tendo como base um tipo de movimentação coreográfica que é exactamente a do cotillon francês.
“Algumas figuras no desenvolvimento da dança que era colectiva eram comandadas (...) em francês: changer la dame, tourner a droite, tourner a gauche. Além disso, havia outras expressões francesas testemunhando a sua influência”. Ora, como bem sabemos, a nossa rebita possui este tipo de comandos.
Na rebita que se dançava no século XIX em Luanda, de acordo com documentos dessa época, as senhoras eram vistoriadas por uma “mais velha” do grupo. O objectivo era verificar se as damas não vinham só bonitas e luxuosas por fora, com panos garridos, mas certificar se a roupa interior também era digna de uma pessoa que frequentava um local de elite, como era a rebita.
Os cavalheiros também eram vistoriados por um “mais velho” do grupo, que observava se as peúgas dos cavalheiros estavam de facto em condições, se a camisola interior e outros utensílios de uso interno estavam em conformidade.