foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

12 de junho de 2013

ZUNGUEIRA - MULHER TRABALHADORA


A zungueira, é uma vendedora ambulante no verdadeiro sentido da palavra, anda, corre pela cidade para vender e ganhar o sustento do lar. São elas o verdadeiro e único ganha-pão das suas famílias.
O termo zungueira, deriva do kimbundu, kuzunga, que tem o significado de circular, deambular de um lado para o outro. A zunga é, pois, a actividade comercial  da zungueira. 



A ZUNGUEIRA

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!

A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

A zungueira zunga, cansada
E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
Arreou, arreou, arreou nos limões...
A zungueira zunga, empoeirada
E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
Arreia o preço do sustento

O miúdo nas costas faminto
A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
O miúdo nas costas, faminto de alimento
Chora e berra
Não é birra
É a fome que aperta, é a fome da sede!

A zungueira zunga, apressada
E arreia o negócio, arreia o preço:
Arreou, arreou, arreou no chouriço...
A zungueira zunga empoeirada
E arreia o preço do negócio
Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

Depois, a viatura da fiscalização
Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
E os homens arrogantes a perseguirem
E a baterem
E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
Caídos, espalhados no chão!

Depois vem o fiscal, também faminto,
“Você tem autorização?
Acompanha, isso é transgressão!”
A zungueira implora e mostra a fome:
Tem dois dias o miúdo não come
A lombriga na barriga precisa alimento!

O fiscal, também faminto
Arreia o lucro da zungueira cansada
E desesperada
Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
Senão a zungueira não volta a casa
E a zungueira cede, com medo no pensamento

Depois a zungueira chega a casa
De bolsos vazios, mas alívio no coração
E grata, afinal não foi presa
Afinal não foi à prisão
A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
O miúdo sedento de alimento

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
Amanhã a zungueira voltará a arrear:

Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…


Décio Bettencourt Mateus
in "Os Meus Pés Descalços"

Zungueira: Mulher vendedora que deambula pelas ruas
Zungar: Deambular pelas ruas
Arreou, arreou (...): Em jeito de cântico, as mulheres anunciam a baixa dos preços 




A mulher zungueira sobrevive através do trabalho árduo e arriscado. Na caracterização social, a mulher zungueira é persistente, resistente, ousada, sacrificada, excluída, injustiçada e desvalorizada.
Ela é vítima de perseguição, violência, assédio sexual e assaltos à mão armada, tanto pelos agentes da polícia quanto pelos grupos organizados de gatunos, muitos dos quais operam impunemente. As condições de vida deste segmento vital da sociedade angolana equivalente à escravatura ou ao sistema feudal que prevaleceu na Europa, na Idade Média.
Carlos Kandanda

Fotos da Internet

1 comentário:

António Eduardo Lico disse...

Belíssima poesia.Pungente, dolorosa como a actividade das zungueiras.
Abraço.