foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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5 de março de 2014

POLÍCIA LIBERTA REGEDOR CAPENDA-CAMULEMBA

Polícia Liberta Regedor Capenda-Camulemba
Por cwhommes - 28 de Fevereiro, 2014
Por Lusa
O ativista de direitos humanos angolano Rafael Marques afirmou à Lusa que foi libertado o chefe tradicional angolano sua testemunha no processo Diamantes de Sangue, que tinha sido detido hoje de manhã em Angola.

“Mwana Capenda acabou de ser libertado mas está sob termo de identidade e residência e não pode ausentar-se da localidade onde vive, em Angola, sem autorização policial”, disse à Lusa Rafael Marques, jornalista e ativista de direitos humanos que chamou o soba das Lundas, zona diamantífera angolana, como testemunha no caso que está a ser julgado em Portugal.

Nove generais angolanos recorreram à justiça portuguesa para processarem por difamação Rafael Marques, autor de “Diamantes de Sangue”, um trabalho de investigação sobre as Lundas.

De acordo com Rafael Marques, a polícia disse ao soba Mwana Capenda que a detenção está relacionada com um caso que envolveu uma arma de fogo, pouco antes da deslocação do chefe tradicional a Lisboa, este mês.

O caso foi mencionado em Portugal por Mwanda Capenda, que acusou um polícia de o ter ameaçado com uma pistola, numa tentativa de o intimidar para não prestar depoimento como testemunha de Rafael Marques.

O polícia acabou por ser desarmado pelos acompanhantes do soba, que entregaram de imediato a pistola na comissaria da polícia.

Segundo Rafael Marques, durante a detenção, que ocorreu hoje às 09:00 (08:00 em Lisboa) Mwana Capenda foi também questionado sobre a deslocação a Lisboa, onde prestou testemunho em tribunal.

O chefe tradicional angolano esteve presente também num colóquio sobre direitos humanos em Angola que decorreu no dia 07 de fevereiro no Gabinete do Parlamento Europeu, em Lisboa, organizado pela eurodeputada socialista Ana Gomes.

“É muito feio e uma desonra para o país que estas testemunhas estejam a ser estejam a ser perseguidas de forma vil e que a polícia tenha tido a coragem de os questionar sobre o que vieram fazer a Portugal”, disse ainda Rafael Marques, que relatou também hoje alegadas ameaças contra Linda Moisés da Rosa, outra testemunha sua no mesmo caso.

Retirado de Maka Angola (http://makaangola.org/2014/02/28/policia-liberta-regedor-capenda-camulemba/), com a permissao dos autores do site.

4 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Sem querer pôr em causa a veracidade da notícia (nem me passa tal coisa pela cabeça), quero notar que há nela uma confusão entre soba e regedor. O título da notícia chama regedor a Mwana Capenda, mas o texto chama-lhe soba. Ora soba e regedor não são a mesma coisa; são dois graus diferentes na hierarquia de poder tradicional. Um regedor é mais do que um soba; tem vários sobas sob a sua autoridade. Acima de um regedor, só está o rei, segundo creio. Assim, fico sem saber o que é que Mwana Capenda é: soba ou regedor? Poderei depreender que é apenas soba, porque é chamado Mwana (filho) e foi incomodado pela polícia e metido na prisão? Em princípio, não se prende um regedor com uma tal leviandade, porque isso pode provocar uma revolta por parte dos seus muitos milhares de súbditos. No tempo colonial, até a PIDE tinha muito respeitinho pelos regedores, evitando meter-se com eles!

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Caro Fernando,

Não vejo muito problema chamar regedor a um soba, embora haja diferenças, o texto em questão foi escrito pela Lusa, o que suponho ser um jornalista português, e porque embora a palavra “soba” possa ser encontrada num bom dicionário de português, sabemos que nem todos os falantes da língua portuguesa saberão, exactamente, o que é ou deixa de ser um soba. Até porque a jurisdição do soba se circunscreve a um papel (mutadis mutandis) muito idêntico aos dos regedores que existiram nas freguesias rurais portuguesas.
Existem, como realmente refere, dois tipos de sobas, o soba comum e o soba-grande, que tem sob a sua tutela vários sobas. Estou-me a lembrar de ter visto na tv angolana as exéquias fúnebres, talvez há cerca de um ano, do soba-grande da Ilha de Luanda, que faleceu com quase 90 anos e tinha outros sobas sob a sua tutela.
Penso, com quase certeza, que Mwana Capenda é um soba comum. Fernando, infelizmente a notícia é verdadeira e remeto-o para a postagem http://poesiangolana.blogspot.co.uk/2014/02/camponesa-denuncia-generais.html e para o livro do jornalista Rafael Marques de Morais, Diamantes de Sangue.
Quando aos desmandos do governo já estão os naturais habituados... nas Lundas, por via da exploração diamantífera, desenrola-se um drama de regime colonial puro, regime neocolonialista africano.
Já agora uma achega, os sobas podem ser eleitos, por um conselho de anciãos (sekulus) ou por via hereditária, neste caso, não é o filho do soba que herda o poder, mas o seu sobrinho, o filho mais velho da sua irmã mais velha, como sabe o direito consuetudinário bantu é matrilenear.

Abraços,
Namibiano

Fernando Ribeiro disse...

Caro Namibiano, obrigado pela sua resposta. É profundamente lamentável, para dizer o mínimo, o que tem sido denunciado a respeito da situação nas Lundas. Tal não deveria nunca, mas mesmo nunca, acontecer.

A sucessão de um soba, regedor, dembo, rei ou outra figura da autoridade tradicional angolana é, com efeito, matrilinear, a não ser que o cargo seja eletivo, como diz. Mas há uma exceção. Em consequência de um secular influência portuguesa, em Mbanza Congo, Maquela do Zombo, Damba e outras partes das províncias do Zaire e do Uíge a sucessão é patrilinear, à europeia, isto é, processa-se do pai para o filho mais velho. Não me atrevo a generalizar esta regra a todos os Bakongos, porque não sei como é que acontece, por exemplo, em Quitexe, que fica no sul da província do Uíge. A patrilinearidade referida, porém, só se aplica à sucessão, unicamente à sucessão e nada mais do que à sucessão. Tudo o resto (heranças, poder parental sobre as crianças, etc.) segue a regra matrilinear, tal como acontece na generalidade das sociedades bantus.

Um abraço

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Pouco conheco dos Bakongo, mas realmente deve ser uma influencia europeia através dos reis do Congo...