foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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2 de janeiro de 2015

A RAINHA GINGA DE AGUALUSA




“A Rainha Ginga”

Início do primeiro capítulo do livro de José Eduardo Agualusa.

A primeira vez que a vi, a Ginga olhava o mar. Vestia ricos panos e estava ornada de belas joias de
ouro ao pescoço e de sonoras malungas de prata e de cobre nos braços e calcanhares. Era uma
mulher pequena, escorrida de carnes e, no geral, sem muita existência, não fosse pelo aparato com
que trajava e pela larga corte de mucamas e de homens de armas a abraçá-la.
Foi isto no Reino do Sonho, ou Soyo, talvez na mesma praia que lá pelos finais do século XV viu
entrar Diogo Cão e os doze frades franciscanos que com ele seguiam, ao encontro do Mani-Soyo —
o Senhor do Sonho. A mesma praia em que o Mani-Soyo se lavou com a água do batismo, sendo
seguido por muitos outros fidalgos da sua corte. Assim, cumpriu Nosso Senhor Jesus Cristo a sua
entrada nesta Etiópia ocidental, desenganando o pai das trevas. Ao menos, na época, eu assim o
cria.
Na manhã em que pela primeira vez vi a Ginga, fazia um mar liso e leve e tão cheio de luz que
parecia que dentro dele um outro sol se levantava. Dizem os marinheiros que um mar assim está sob
o domínio de Galena, uma das nereidas, ou sereias, cujo nome, em grego, tem por significado
calmaria luminosa, a calmaria do mar inundado de sol.
Aquela luz, crescendo das águas, permanece na minha lembrança, tão viva quanto as primeiras
palavras que troquei com a Ginga.
Indagou-me a Ginga, após as exaustivas frases e gestos de cortesia em que o gentio desta região é
pródigo, bem mais do que na caprichosa corte europeia, se eu achava haver no mundo portas
capazes de trancar os caminhos do mar. Antes que eu encontrasse resposta a tão esquiva questão, ela
própria contestou, dizendo que não, que não lhe parecia possível aferrolhar as praias.

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