foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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12 de maio de 2012

SONA: OS DESENHOS NA AREIA


Os sona (singular lusona) são desenhos feitos na areia pelo povo Tchokwé que habitam o Nordeste e Leste de Angola e países limítrofes (Rep. Democrática do Congo e Zâmbia).  Outrora, os sona eram comuns a outras áreas geográficas de Angola mas foram desaparecendo e também hoje os desenhos na areia dos Tchokwé correm o mesmo destino. Há cada vez menos pessoas a desenhá-los. O matemático Paulus Gerdes,  descobriu neles propriedades matemáticas notáveis, por exemplo no domínio da Análise Combinatória e editou um pequeno livrinho que nos ensina a executar sona e também nos explica esta notável tradição Tchokwé. Eu tenho um exemplar em língua inglesa “Drawings from Angola”, não sei se existe em português mas creio que há uma versão brasileira.


Como se desenha um lusona?

Depois de preparado e alisado o solo, o desenhador  começa pela marcação de uma quadrícula de pontos, marcados a espaços regulares com as pontas dos dedos. Em seguida, à volta dos pontos, vai  traçando  linhas retas e curvas que se mantêm sempre equidistantes dos pontos. As linhas são sempre fechadas, sendo cada uma delas traçada sem levantar o dedo da areia e seguindo regras bem específicas, que são impostas pela tradição. Enquanto vai traçando as linhas o desenhador narra a sua história. Um excelente desenhador tem a admiração e o respeito do seu povo.

Foto blog Angola Rising


Os sona são uma forma de escrita. Nele o desenhador pode contar uma história ou uma outra realidade da vida. Há tempos postei aqui no blogue um mito Tchokwé, para apreciarem a força e a importância cultural dos sona volto a publicar o mesmo mito, primeiro de forma escrita e, depois, utilizando desenhos sona.

O Mito Tchokwé:

Um dia o Sol foi visitar Deus. Deus ofereceu ao Sol uma galinha e disse-lhe: “Regressa de manhã antes de te ires embora”. De manhã a galinha cacarejou e acordou o Sol. Quando o Sol revisitou Deus, ele disse-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui todos os dias.” Daí a razão porque o Sol circula a terra e nasce todas as manhãs.

A Lua também foi um dia visitar Deus e também recebeu uma galinha como presente. De manhã a galinha cacarejou e acordou a Lua e Deus voltou a dizer-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui em cada vinte e oito dias.” Daí a razão porque a circulação total da Lua dura vinte e oito dias.

Um homem foi visitar Deus recebendo também uma galinha como presente mas o homem estava com fome depois de tão longa caminhada e comeu parte da galinha para o jantar. Na próxima manhã já o Sol estava bem alto quando o homem acordou. Comeu o resto da galinha, visitando Deus em seguida. Deus disse-lhe: “eu não ouvi a galinha cacarejar esta manhã.” O homem com certo receio respondeu: “eu tive fome e comi-a.” “Está bem,” disse Deus, “mas ouve, tu sabes que o Sol e a Lua estiveram aqui e nenhum deles matou a galinha que lhes ofereci.” Essa é a razão que nem o Sol nem a Lua morrerão um dia. Mas tu mataste a tua galinha e assim deves morrer como ela. Porém, à tua morte, deves regressar aqui outra vez.”

"E assim é!" 



No topo está Deus, no lado esquerdo o Sol, no direito a Lua e em baixo um ser humano. Este desenho conta a história do mito publicado acima.
Um outro desenho do mesmo mito:

Aqui, e segundo Mário Fontinha, a linha reta representa o caminho para Deus.

Encontrei na net este blogue que apresenta uma extensa e valiosa  ionformação sobre os sona, aconselho a visitá-lo, caso queiram saber mais: http://amateriadotempo.blogspot.co.uk/2011/05/desenhos-na-areia-em-africa.html

Lusona da Amizade.


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