Foto: Jorge Coelho Ferreira

Ondjira - A Rota do Sul (o livro - compre aqui)

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POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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28 de agosto de 2021

PARECER SOBRE O MEU LIVRO

Parecer de Manuel Andrade sobre o livro Ondjira - A Rota do Sul: "achei-o, do ponto de vista cultural muito rico. Há uma linguagem africana que  nos é oferecida abertamente, com recurso à língua corrente, aproveitando o seu ritmo natural para a composição de uma bela sonoridade poética. É por isso um livro muito seguro, mesmo quando se aventura a expressar sensações e emoções. Tem métrica (solta, mas com rédeas quase invisíveis) e o texto é equilibrado."

24 de agosto de 2021

LEOPARDO

 





na noite
do leopardo
só se vê os olhos

A. Barbeitos


A noite da escuridão
tem os olhos do leopardo
faiscando diamantes.
Leopardo: fere o meu coração;
aguça os meus sentidos;
crava, usa tuas garras;

não deixes o sal
arrefecer o sangue da poesia;
não deixes a rocha
tecer o casulo da ignorância;
não deixes o cacimbo
cristalizar a alma do poeta.

Viverei eu, assim, eternamente cantando
estes e outros versos insanos e selvagens
trucidando meus sentidos,
dispersando a alma nos teus olhos leopardo,
no fulgor suave das noites
e na fúria brava das calemas.


Namibiano Ferreira, in Ondjira - A Rota do Sul/ChiadoBooks 

10 de agosto de 2021

FIRMAMENTO

    A propósito de uma postagem do blog "A Matéria do Tempo", lembrei-me deste poema de 1998.


No Curoca Norte, Namibe, Angola (Foto: Pedro Klecius)

https://amateriadotempo.blogspot.com/?m=0/


 Firmamento



Até este céu nocturno é de uma
tristeza sem par...


Nas noites mágicas do Sul, no céu,
tem meninas-de-fogo
dançando as constelações mais formosas
 brincando no luando 
negro
veludo de carvão.


Namibiano Ferreira

4 de agosto de 2021

REGRESSANDO... COM LIVRO.

 



Caros Leitores,

Por motivos diversos e de saúde tenho andado, como é fácil de constatar, ausente deste blog por vários anos. Resolvi regressar e podeis dizê-lo, "ressuscitei".

Acabo de publicar o meu primeiro livro de poemas que organizei no final dos anos de 1980. 

Ondjira - A Rota do Sul, não pode, de momento e devido às restrições da Covid19, ser apresentado presencialmente. Por esse motivo venho apresentá-lo neste blog.

O livro encontra-se à venda no site da Chiado Books em Portugal e no Brasil.


https://www.chiadobooks.com/livraria/ondjira7a-rota-do-sul 



Sinopse

Ondjira – A Rota do Sul – é uma estrada do Sul que vai na direcção do Sul. Parte da infância e percorre a terra angolense e a sua história recente trazendo como grande protagonista Angola e as suas gentes. Há neste caminho uma estreita relação do poeta com a sua terra e o povo com o qual conviveu e aprendeu coisas que não vêm escritas nos livros. O autor, bisneto de colonos, soube não erguer muros e deixou entrar na sua alma os sentidos e os sabores da terra/povo que o viu nas­cer. Ondjira é, também, o testemunho de uma vivência pessoal, um tes­temunho de passagem que não esquece os sofrimentos, as aspirações e a guerra fratricida que tanto sofrimento trouxe ao povo angolano.

Esta é a Rota

Ondjira de árduas jornadas

fragmentos de muitas dores

onde balas não viram massambalas

e a hiena vem gulosa

comer a vida do Povo

caminhando cansado

à sombra de poentes macerados

e nas lavras imprecisas do sonho

Espera Novembro florir açucenas.


12 de maio de 2017

CONTO DE NAMIBIANO EM PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS (Continuacao)

(java)



MARIA JAVA

Mal os primeiros raios de Sol despontavam no caminho do Leste, Maria Java já se estava banhando nas águas tranquilas do meu corpo. Não era um banho comum, parecia era um ritual, um estranho cerimonial. Depois, Maria dirigia-se para a Vila e por lá deslizava como se fosse um rio atormentando os homens com a sua beleza provocante. Maria Java não fazia nada para provocá-los, era simplesmente o seu modo de andar, a sua beleza que embriagava os homens de desejos. Ao fim da tarde, quando o Sol ia dormir roxo de cansaço, ela regressava ao ninho para voltar, na manhã seguinte, a cumprir o mesmo ritual.
Com a chegada das primeiras chuvas, Maria deu à luz um menino. Na primeira visita à Vila, as mulheres não aguetaram a curiosidade e vieram, sem cerimónias, espiar a criancinha que, nua, dormia envolta em folhas de bananeira. Houve logo ali mesmo alguém que traçou as parecenças da criança com o Xico Camionista. A novidade correu como brisa no tempo das chuvas. Só a mulher do Xico, claro, não gostou. Fez cara feia, muxoxou e foi tirar a prova visual do ADN da criança. Quando viu o menino, os resultados da análise saltaram com todos os cromossomas e também ela viu as trombas do mulato Xico Camionista, seu marido, na face angelical do menino. Revirou os olhos, muxoxou ainda mais, pôs as mãos na bunda e foi tartar do assunto com o Xico. Consta que o Xico, mulato franzino, negou conhecer a Maria Java mas isso de nada lhe valeu porque apareceu no Bar Esplanada com um olho negro, dizem, de um sopapo que lhe deu a mulher.
Depois do nascimento do filho Maria Java passou literalmente, para as mulheres da Vila, a ser uma pária, uma espécie de enjeitada da sociedade. Ignorada pelas mulheres mas desejada pelos homens enquanto deslizava pelas ruas da Vila, filho nos braços e os seios fartos de leite. O tempo, mangonheiramente foi passando e  Maria Java deixou de ser o tema de conversa das mulheres. (...)

Namibiano Ferreira (final na próxima postagem)

CONVITE: ANGOLA, O 27 DE MAIO - MEMORIAS DE UM SOBREVIVENTE


9 de maio de 2017

CONTO EM PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS

Os sucessos da história da literatura angolana



MARIA JAVA 

 Ninguém sabia de onde ela veio, quem era ou o que pretendia. Se é que pretendia alguma coisa. A meio da estação seca apareceu na Vila, grávida e semi-nua, com um par de seios a parecerem dois maboques provocantes. Era uma mulher bela, elegante e enigmática. Não andava, deslizava pela Vila sem nunca falar ou estabelecer qualquer forma de contacto. Também não pedia e mantinha uma certa altivez. As mulheres da Vila inventaram estórias sobre ela, conversas, bisbilhotices e mujimbos. Kuribotices, enfim, que só as mulheres sabem criar sobre outras mulheres. Por qualquer estranha razão as mulheres da Vila não gostavam desta ave de arribação vinda sabe Deus de onde. Só D. Dominguinhas, sekula de muitos cacimbos e chuvas, fez saber que sabia alguma coisa sobre esta solitária e estranha mulher. O respeito e a credibilidade da velha sekula, parteira nas horas vagas e lavadeira de profissão desde os tempos coloniais, trouxe as orelhas das mulheres até à boca de D. Dominguinhas que beijando seus dedos em cruz falou: “ Juro, por Nzambi! Estava lá na margem do rio sozinha mesmo a lavar umas roupas quando ela apareceu do lado donde o Sol dorme. Chegou assim mesmo do nada, a última vez que olhei naquela direcção, eu vi poisar uma ondjava, depois mesmo ela apareceu, de tanga e mamas a apontar o céu. Agora, vocês num me perguntem mais nada mas o andar dessa moça me faz lembrar uma ondjava.” E deu uma gargalhada sonora e cantante daquelas que só uma mulher kwanhama sabe dar. E foi assim, D. Dominguinhas virou madrinha de Maria Ondjava, mais tarde ficou só Maria Java. Maria Java não se misturava com o povo da Vila, limitava-se a passear, a deslizar pelas ruas. Vivia junto da minha margem, fora da localidade, numa cubata que mais parecia um amontoado de folhas e galhos velhos e secos. As gentes da Vila, isto é, o mulherio, chamavam, com desdém, o ninho da Java e realmente parecia um ninho. (...)

Namibiano Ferreira

PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS


“A língua portuguesa é um pássaro de asas abertas”


Em edição organizada por Margarida Gil dos Reis e António Quino, esta seleção reúne trinta e seis dos autores mais expressivos da literatura angolana, apresentando histórias do nosso tempo, histórias que se centram nas relações humanas e familiares, que desnudam conflitos sociais e mergulham no interior do ser humano, mas sobretudo recriando estórias a partir da tradição africana, dando especial relevo ao que se convencionou chamar de oratura, como fonte inesgotável de inspiração. Marcadas por uma grande diversidade temática e estilística, a maior parte destes contos baseia-se em conhecidas lendas e outras narrativas fantásticas, onde o sobrenatural convive naturalmente com muita imaginação e invenção, próprias de um povo que se refugiou em narrativas mirabolantes aproximando o maravilhoso e o insólito, como forma de dar uma tessitura peculiar à sua mensagem, de uma maneira muito próxima do realismo fantástico que caracterizou durante as últimas décadas a literatura latino-americana. Dando especial relevo à feitiçaria e bruxaria, de uma forma que pode levar a algumas confusões, pois brincar com coisas sérias pode levar a resultados perigosos, sobretudo quando o público-alvo é pouco informado, uma grande parte dos autores vai na onda do bonito e aparentemente poético, aproveitando uma moda que em breve ficará ultrapassada pelo seu abuso, esquecendo talvez a primeira e fundamental missão do intelectual, que é ser autêntico e realista, havendo que ter muito cuidado com a forma como a linguagem alegórica é apresentada. Uma das personagens recorrentes, por ser transversal em várias etnias angolanas é a Kianda, singular de Ianda, sereia em Kimbundu, conhecida também como Deusa das Águas, uma personagem muito amada e tradicionalmente venerada através de oferendas. Pepetela, um dos expoentes máximos da literatura em Angola, tem inclusive um livro intitulado O Silêncio da Kianda. Cada meio aquático tem uma sereia, isto é, cada rio, cada lagoa, cada charco tem a sua Kianda que toma o nome do rio, lago ou cacimba. De certa forma, ela é a encarnação do próprio meio aquático. Literariamente, esta utilização da oralidade através de uma estilística cuja escrita incorpora os fenómenos socioculturais, sendo um produto válido e pertinente para conhecer efetivamente um contexto político e sociocultural de uma terra, é, de vários modos, plausível e aconselhável, mas há que perspetivar que a literatura deve ser sempre ampliada e combinada com a vida, tornando cada narrativa um observatório privilegiado de leituras de cenários históricos e socioculturais de um povo, tornando assim cada obra viçosa e profunda. Além da mãe,
A memória do conto popular africano e as heranças da oralidade nos mecanismos de manutenção, preservação e transmissão do conhecimento, dos costumes, das questões éticas e estéticas coletivas; a tradição cultural dinâmica e o importante papel da memória como repositório e veículo da cultura, na sua função de comunicação e continuidade na sociedade angolana perpassam acentuadamente na antologia de contos angolanos, Pássaros de Asas Abertas, editada recentemente em Lisboa. Marcadas por uma grande diversidade temática e estilística, a maior parte destes contos baseia-se em conhecidas lendas e outras narrativas fantásticas

21 de março de 2015

SIM EM QUALQUER POEMA (DIA MUNDIAL DA POESIA)

 


Apetece-me escrever um poema.

Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser entendido
pela canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do sol
e pelo carácter integro dos homens.

Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de inversos chuvosos e frios
e seja lume para acolher as gazelas
que pastam inserguras
nos acolhedores campos da imensa vida;
amizade para corações odientos
motor impelindo o impossivel
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.

Um poema
(ah! quem comparou a Africa a uma interrogação
cujo ponto é Madagáscar?)

Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha recta de afirmação;
e a beleza das florestas virgens
a precisão da engrenagem da existência,
o som fantástico do trovejar sobre pedras,
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire,
a obnubilação ansiosa das almas da penumbra,
o claro arrebol dos olhos dos homens.

Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços erguidos da podridão;
esculpido no amor

que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas do quissanje ao luar;
e as gargalhadas infantis para a minha amada;
com o calor simpático
do corpo sangrento dos homens.

Um poema fechado
- longo e imperceptível
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
da outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear de máquinas de escrever,
grito aflitivo no vácuo
e a aspiração dos homens.

Mas não escreverei o poema

Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
o caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilométricos intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?

Não escreverei o poema.

Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.
Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referias à Primavera.
Sonharei contigo.

E com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado,
ao Sol, - uma praia furiosa lá ao longe.
E ficará dentro de mim
A amargura de não escrever o poema
Ele há tantas amarguras!

Não escreverei o poema.

Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
como a força da harmonia dos braços
como a esperança no coração dos homens.
Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e do terror transmitido dos abismos.

Direi simplesmente sim!
Sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores
ao odor inesquecível da natureza
que apaga os possíveis cheiros amargos.

Sim!
á interrogação mágica de Talamungongo
do Cunene ou do Maiombe;
ao sonoro cântico de ritmos subterrâneos
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando paz para o fio da ancestralidade
esbatido além;
ao ponto interrogativo de Madagáscar.

Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas,
às expansões magnificas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade
com a filosofia do imbondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.

Sim!
à África-terra, à África-humana.

Direi sim
em qualquer poema.

E esperemos que a chuva pare
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem
e o desejo de escrever um poema.
Isso passa.

Agostinho Neto


In “CULTURA”, Sociedade Cultural de Angola, no 8. Luanda – 1959 

15 de março de 2015

BÚSSOLA

  Almada Negreiros


Para a Dinah:




Oriento-me no oriente
de teu corpo
esperando o sol
erguer-se fagueiro
no sorriso luminoso
candura de teu ventre
chana quente
aberta ao desejo
iluminado no muxito
de meus olhos
ondulantes.
 


Namibiano Ferreira