Foto: Jorge Coelho Ferreira

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POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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21 de outubro de 2013

POEMA DE JOAO-MARIA VILANOVA

Quimbo!
Foto: Nelson Viegas


Kimbo solitário coxilando
sob o lado oculto da Lua

Esse kimbo aí
não tem mais gente
nem bicho
pé da porta não
Ngulu que tu não
comeu
onça ela comeu
cabrito & sanji
que tu não
comeu
onça ela comeu
e povo do lá
e povo do lá
sem nadica do nada
para
comer
imabamba dele
cambeza dele
surruu
aiuê
na mata
quando que
sem galinha ciscando
sem galinha ciscando
galo negro
todo chapado em ferro
hela
ele chegou


João-Maria Vilanova


Sobre Joao-Maria Vilanova (texto retirado do site da UEA-Uniao de Escritores Angolanos)



João Maria Vilanova, poeta da geração de 70, é um nome que esconde o maior enigma da literatura angolana, um heterónimo que encobre muito bem o seu autor biológico-histórico, continua fictício até hoje.

Na linha do pensamento teórico que vai de Stephane Mallarmé a Jonathan Culler “interessa reflectir sobre a teoria da textualidade: a noção de que é a palavra que constrói a realidade, e, portanto, é responsável pela criação daquele espaço criador que é o autor. Nesta linha de pensamento, o autor desaparece para dar lugar a palavras, cuja acção não só cria a obra, mas também o próprio autor. Roland Barthes identifica esse fenómeno como o “espaço discursivo de individuação” o qual estabelece certa unidade textual que nos permite ultrapassar as contradições, nas quais se neutralizam os dados biográficos (Barthes, Roland, «Roland Barthes par lui-même», Paris: Seuil (1975)”, teorização desenvolvida pela ensíata Joanna Courteau (Ames), ler o texto intitulado «D´A varanda do frangipani à morte dos heterónimos», in Lusorama, nr. 50 (Juni 2002).

Jorge Macedo garante que conheceu o poeta quando esteve a trabalhar no Kuanza Norte, ou seja, suspeita que tenha sido “um juiz branco que gostava da poesia angolana, que conhecia as diversas propostas poéticas”. Muitos são os escritores dessa geração que lançam suspeitas para todas as direcções.

Galadoardo em 1971 com o Prémio Mota Veiga, atribuído a «Vinte canções para Ximinha», nunca apareceu para receber o merecido prémio. Mas não deixou de aparecer, em 1974, através da revista Ngoma, mantendo-se na mesma no meio de uma «grande nuvem». Em 1974, edita «Cadernos de um guerrilheiro».

João - Maria Vilanova é um poeta que usa o bilinguismo como seu recurso de escrita e por ser assim “marcadamente bilinguista, regionalista, vanguardista, intraduzível, e, portanto, inequivocamente pré-angolana, a poesia de João Vilanova paga o preço do desconhecimento mundial, enquanto a poesia de Agostinho Neto, retórica, grandiloquente, alegórica, aristotélica, aspirante ao universalismo, aufere fama de múltiplas traduções. Vilanova realiza na poesia algo como José Luandino Vieira na prosa: retira à História da Literatura Portuguesa poder de anexação”, são palavras do crítico Pires Laranjeira.

O ensaísta vai mais longe na sua análise estrutural quando afirma que “Não há recorrência ao empolamento do metaforismo e da ruptura abrupta da ritmia do discurso, como seria usual nas concepções poéticas latino-europeias. As rupturas e empolamentos situam-se em níveis do discurso diferentes da literatura portuguesa. A inovação é, por isso, de sinal radicalmente anticolonialista. O discurso não pode ser apropriado pelas instâncias colonialistas por se inscrever nos antípodas da sua boa consciência. A forma dialógica é também inalienável da condição de herdeiro da estrutura da narrativa bantu.”.

Pires Laranjeira não deixa de realçar na sua crítica o apuramento estilístico de Vinanova que foge do discurso directo: “A denúncia do paternalismo, como de outras sequelas do colonialismo, quase nunca se faz em linguagem expositiva, panfletária. A força, o propósito do discurso poético não é do mesmo género do discurso político.”

Os quimbos quietos pensados no silêncio (...) Da Envagélica os cânticos se derramando na voz do vento: povo

Excerto de um poema in Vinte Canções para Ximinha.

Para o professor Manuel Ferreira, o poeta anónimo "será o que mais conscientemente prolonga e renova as experiências dos poetas da Mensagem e da Cultura (II). Tudo leva a crer que Vilanova venha dos tempos da Mensagem, notadamente quando o seu enunciado é a expressão de um certo quotidiano povoado de rememorações; nelas e na narração evocativa um mundo de anseios e suspensões significativas nos povoa a imaginação".


Ainda segundo Manuel Ferreira, em Caderno de um guerrilheiro, o poeta elege como temática "o povo angolano crescendo na luta armada." e considera-o como o poeta do "rigor e da elaborada interiorização da gesta do povo angolano, com uma fala para cada tema, uma gramática pessoal na fusão de níveis e áreas linguísticas, mesmo quando o real é momentâneo e no seu verbo se trtansfigura e dimensiona". 

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