Foto: Jorge Coelho Ferreira

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POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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27 de maio de 2010

MÚSICA DOS HEREROS DO SUL DE ANGOLA

Alguma propaganda foi feita sobre o luxuoso livro de fotografias do povo herero, do sul de Angola [e norte da Namíbia], de autoria do publicitário pernambucano Sérgio Guerra (Hereros, editora Maianga, R$ 190*), que trabalha para o governo angolano desde 1999. Seu lançamento foi há um mês, no dia 27 de abril, na Livraria Cultura da faustuosa Villa Daslu, de São Paulo. Mas os resenhistas do material não chegaram a comentar sobre uma pequena relíquia que vem contida no álbum: é o disco das músicas daquele povo seminômade e irredento que passou um tanto ao largo do colonialismo português (embora tenha sofrido durante as campanhas europeias de "pacificação"). Trata-se de uma preciosidade para aqueles que se interessam pelos cânticos tradicionais angolanos em particular, e africanos em geral. O som, naturalmente, assim como o resultado geral do trabalho, de ótima qualidade.

[Comentários pontuais sobre os hereros e outros povos da região, ler o antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho. Com mais tempo, ler o ótimo Vou lá visitar pastores.]


Nota: Por falar em Villa Daslu, vai uma dica para os bebericadores de café. Quem algum dia passar ali por perto (avenida Chedid Jafet), aproveite para saborear gratuitamente o café da cafeteria Octavio, uma das melhores e mais luxuosas da capital paulista (há pelo menos dois balcões lá dentro). Pergunte pelo café turco. E leve o caderno de campo: as tribos que passeiam pelo local à procura de adornos e dádivas são muito, digamos assim, peculiares.
 
Créditos:  Lusofonia Horizontal: http://lusofoniahorizontal.blogspot.com/


E veja mais este link, sobre o livro:
Hereros (OvaHimba), foto de Sérgio Guerra

* 190 reais = 70 libras e 81 euros

9 de março de 2010

OS MUKUBAIS (OVAHELELOS)

Segundo o compêndio História de Angola, publicado em Argel no ano de 1965, pelo CEA – Centro de Estudos Angolanos, do MPLA, o povo Helelo, Herero ou Ovahelelo, saiu dos Grandes Lagos, por volta do Séc. XVI e veio para terras angolanas. Entraram pelo extremo Leste de Angola, atravessaram o planalto do Bié e foram instalar-se entre o deserto do Namibe e a Serra da Chela.
Quem são estes Ovahelelos ou Hereros? São um povo de língua e costumes bantus, são pastores onde o gado tem uma expressão não só no seu modo de vida mas em toda a sua cultura. Na província do Namibe, em Angola, eles dividem-se nos seguintes subgrupos: Ovakuvale (ou Mucubais, Kuvale, Cuvales ou Mukubais), é o grupo mais numeroso; Ovahimba (Himbas) e Ovadimba (Dimbas). O seu idioma é o Tchiherero ou Tchihelelo. Os Helelos estendem-se pela Namíbia onde são mais numerosos do que em Angola.
Sendo um povo de pastores e vivendo eles num deserto onde raramente chove a sua pastorícia tem de ser de transumância e o nomadismo é forma corrente nestes povos que não conhecem nem reconhecem fronteiras e estados.
A tecnologia europeia não afectou o seu modo de vida tradicional mas o mesmo não se pode dizer do colonialismo europeu em terras de África. Souberam resistir-lhe mas pagaram caro essa resistência.

Homens Mukubais (foto Alex. Correia)

É lendária a sua oposição ao colonialismo, foram quase dizimados em 1941 mas resistiram e logo que puderam voltaram ao seu modo de vida tradicional, os bois, os sambos* e as ongandas**. A sua liberdade e o seu modo de vida dependem do sucesso das suas manadas. Neste tempo de globalização os Ovakuvale, ou melhor, os Ovahelelo de Angola, continuam resistindo a outras formas de vida.
Vocês já os conhecem deste blogue e da minha poesia, permanentemente invocados como forças de liberdade, resistência e chama de inspiração. Estes meus conterrâneos do Namibe, são um povo nobre e orgulhoso que aprendi não só a amar mas a respeitar. São um povo de esbeltas mulheres e de homens fortes e de costas bem direitas. Não há obesidade, magros mas naturalmente musculados.



 
 
 
Jovens raparigas mukubais, o "chapéu" que trazem na cabeca, protege-as do Sol abrasador do deserto, chama-se "erembe".
 
 
Homem mukubal (foto Hunakulu)


Mukubal na imensidao do deserto (foto Hunakulu).

A GUERRA DOS MUKUBAIS (1940-41)
O povo Ovahelelo, foi bastante perseguido e dizimado pelos alemães na sua colónia do Sudoeste Africano (actual Namíbia) mas não menos pelos portugueses no Sul de Angola. O texto que se segue, em itálico, vem referido no livro “Rumo ao Cunene” de onde passo a transcrever o texto sobre a Guerra dos Mucubais (1940-41):
Trata-se de um episódio raramente referido pela administração colonial portuguesa. Henri Pélissier diz mesmo que não foi objecto de qualquer relatório publicado pela imprensa oficial ou privada.
Partindo de um conflito (uma maka) relativa a um episódio de roubo de gado envolvendo cuvales, muílas e um comerciante português que degenerou em violência, foi desencadeada uma gigantesca operação de repressão do povo cuvale.
Este povo vive para o seu gado e a operação visou fundamentalemente separá-lo dos seus rebanhos, sendo grande parte dos reclusos (3.529 prisioneiros..., com um número de mortos desconhecido) encerrados em clolónias ou deportados para S. Tomé, durante alguns anos. O gado dos cuvales foi roubado ou leiloado a baixo preço (foi confiscado 90% do efectivo pecuário cuvale).
Os cuvales seriam nessa altura menos de 5.000, e as operações envolveram mais de um milhar de soldados e dois pequenos aviões que serviam para acções de reconhecimento e para perseguir cuvales isolados.
A proletarização dos cuvales não durou muito. Em menos de 20 anos, à força da aceitação de trabalhos que não estavam nas suas tradições, os cuvales reconquistaram os seus rebanhos e reganharam uma parte da arrogância passada. Demonstraram a vitalidade herdada dos seus antepassados, que há mais de um milénio partiram das terras do Norte.
É gente que não tem chefe político, nem soba, e que vive – repetimo-lo – para o seu gado. (...)
Em 1975, interpretando o conflito sul-africano como uma guerra de brancos contra negros, aderiram maciçamente ao MPLA e desenvolveram na retaguarda das forças sul-africanas uma muito eficaz guerra de guerrilhas. Farrusco, um operário português da Fábrica de Cervejas Ngola, no Lubango, ex-comando do exército português, foi aceite pelos cuvales e juntos conduziram acções contra os “karkamanos” (designação dada aos sul-africanos).
Não vou tecer comentários pessoais sobre este texto e às atrocidades aqui relatadas. Como podem verificar tratou-se de um genocídio e se não foi conseguido completamente deve-se à capacidade de sobrevivência do povo Ovakuvale.
 
Namibiano Ferreira
 
* local onde se guarda o gado.
** aldeia, local não permanente de habitação, devido à transumância.

26 de agosto de 2009

NONKAKOS

Nonkakos (foto de Tonspi)


Era o tempo em que as acácias floriam garridas
cabeleiras sobre as longas avenidas da cidade
e havia a liberdade a despontar no céu da madrugada...


Eu trazia o tempo da nudez no chão da alma
e pisava o ventre da terra com a pureza do coração.
Minhas imbambas eram ventos do leste e sementes
armazenadas nos tijolos da liberdade e construção
do país novo a construir de mãos dadas com o povo...
e agora, aqui nestes corredores frios de civilização,
já não sei andar minha nudez com o chão da alma
sobre o ventre quente da terra rubra-negra.
Doem-me os pés se andar descalço! Civilizei-me!
– Dizem! – Civilizei-me no calçar de sapatos apertados
made somewhere in Global City e fabricados
por mãos humanas pagas com salários de coisa nenhuma.
Os pés da nudez, pedúculos de inocência e liberdade,
perdi-os, troquei-os por todas estas materialidades
que supostamente me deveriam fazer feliz...


Poderá a chuva – riso de Ombera – trazer de novo
a verdade nua de sentir a terra e o pó vermelho
dos caminhos a pintar telas, a tilintar horizontes?


Oh, meu povo Mukubal, guerreiros de liberdade!
emprestai-me vossos velhos nonkakos, como aqueles
que usei nos tempos de minha juventude...
sujos e gastos e cobertos com pó-vida do deserto.




Namibiano Ferreira



Imbambas – bagagens, pertences.
Ombera – chuva, em idioma Tchierero do povo Mukubal.
Nonkakos – sandálias usadas pelos mukubais.

11 de outubro de 2005

ADULTERANDO ÁLVARO DE CAMPOS


Jovem Mukubal





Uma mulher Mukubal e tao bela como a Vénus de Milo
o que há é pouca gente para dar por isso.
Depois de onze girassois florindo Novembro
ainda há pouca gente para dar por isso
e uma mulher Mukubal é mais bela que a Vénus de Milo.

ÓOOO - OOOOOOO - OOOOOOOOOOOOOOOO

(o vento no deserto.)



Namibiano Ferreira
In Resist(ir) Assim - Poesia a Doze
Editorial Minerva