Foto: Jorge Coelho Ferreira

Ondjira - A Rota do Sul (o livro - compre aqui)

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POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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17 de setembro de 2021

A PINTURA DE CRISTIANO MANGOVO


Cristiano Mangovo



Avaliação
 

Menina com picareta

“Vejo a arte como o meu mundo”, exalta Cristiano. “É só aí que tenho a sensação de me sentir um peixe dentro de água. Imagine um peixinho sem água! Vejo a arte como uma forma pacífica de combater a ignorância. Vejo-me como um orador a quem faltam palavras para se expressar. A quem faltam meios de expressão para narrar sobre aqueles que estão na escuridão, ignorados ou esquecidos pelos olhares de alguns. Sinto-me um pequeno deus quanto estou perante a tela”.

13 de setembro de 2021

AD AETERNUM

 

Foto de Aurélio Baptista - xamalundo.blogspot




Além, na margem esquerda do Curoca,
as dunas fulvas do Namibe
galopam as asas ocultas do vento
e o vento adormece e desperta
preso ao génio eterno do Tempo...


Namibiano Ferreira 

2 de setembro de 2021

TELHADO DE ZINCO


 Foto da net. Autor desconhecido



Brincam anharas

sobre os lábios hialinos

dos meus olhos

iluminados de lírios 

e eu deixo os pássaros

poisarem sobre os caniços 

do canavial  a baloiçar 

junto ao rio.


Lá fora, o azul a fugir do céu,

a vestir-se de algodão cinzento

e o vento, em crescendo,

sopra um misto arrepiado 

de calor e frio...

e nos sulcos súbitos de nada 

a chuva canta aguarulhos 

sobre o meu telhado

tambor 

de zinco ondulado.


Namibiano Ferreira 



28 de agosto de 2021

PARECER SOBRE O MEU LIVRO

Parecer de Manuel Andrade sobre o livro Ondjira - A Rota do Sul: "achei-o, do ponto de vista cultural muito rico. Há uma linguagem africana que  nos é oferecida abertamente, com recurso à língua corrente, aproveitando o seu ritmo natural para a composição de uma bela sonoridade poética. É por isso um livro muito seguro, mesmo quando se aventura a expressar sensações e emoções. Tem métrica (solta, mas com rédeas quase invisíveis) e o texto é equilibrado."

24 de agosto de 2021

LEOPARDO

 





na noite
do leopardo
só se vê os olhos

A. Barbeitos


A noite da escuridão
tem os olhos do leopardo
faiscando diamantes.
Leopardo: fere o meu coração;
aguça os meus sentidos;
crava, usa tuas garras;

não deixes o sal
arrefecer o sangue da poesia;
não deixes a rocha
tecer o casulo da ignorância;
não deixes o cacimbo
cristalizar a alma do poeta.

Viverei eu, assim, eternamente cantando
estes e outros versos insanos e selvagens
trucidando meus sentidos,
dispersando a alma nos teus olhos leopardo,
no fulgor suave das noites
e na fúria brava das calemas.


Namibiano Ferreira, in Ondjira - A Rota do Sul/ChiadoBooks 

10 de agosto de 2021

FIRMAMENTO

    A propósito de uma postagem do blog "A Matéria do Tempo", lembrei-me deste poema de 1998.


No Curoca Norte, Namibe, Angola (Foto: Pedro Klecius)

https://amateriadotempo.blogspot.com/?m=0/


 Firmamento



Até este céu nocturno é de uma
tristeza sem par...


Nas noites mágicas do Sul, no céu,
tem meninas-de-fogo
dançando as constelações mais formosas
 brincando no luando 
negro
veludo de carvão.


Namibiano Ferreira

4 de agosto de 2021

REGRESSANDO... COM LIVRO.

 



Caros Leitores,

Por motivos diversos e de saúde tenho andado, como é fácil de constatar, ausente deste blog por vários anos. Resolvi regressar e podeis dizê-lo, "ressuscitei".

Acabo de publicar o meu primeiro livro de poemas que organizei no final dos anos de 1980. 

Ondjira - A Rota do Sul, não pode, de momento e devido às restrições da Covid19, ser apresentado presencialmente. Por esse motivo venho apresentá-lo neste blog.

O livro encontra-se à venda no site da Chiado Books em Portugal e no Brasil.


https://www.chiadobooks.com/livraria/ondjira7a-rota-do-sul 



Sinopse

Ondjira – A Rota do Sul – é uma estrada do Sul que vai na direcção do Sul. Parte da infância e percorre a terra angolense e a sua história recente trazendo como grande protagonista Angola e as suas gentes. Há neste caminho uma estreita relação do poeta com a sua terra e o povo com o qual conviveu e aprendeu coisas que não vêm escritas nos livros. O autor, bisneto de colonos, soube não erguer muros e deixou entrar na sua alma os sentidos e os sabores da terra/povo que o viu nas­cer. Ondjira é, também, o testemunho de uma vivência pessoal, um tes­temunho de passagem que não esquece os sofrimentos, as aspirações e a guerra fratricida que tanto sofrimento trouxe ao povo angolano.

Esta é a Rota

Ondjira de árduas jornadas

fragmentos de muitas dores

onde balas não viram massambalas

e a hiena vem gulosa

comer a vida do Povo

caminhando cansado

à sombra de poentes macerados

e nas lavras imprecisas do sonho

Espera Novembro florir açucenas.


12 de maio de 2017

CONTO DE NAMIBIANO EM PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS (Continuacao)

(java)



MARIA JAVA

Mal os primeiros raios de Sol despontavam no caminho do Leste, Maria Java já se estava banhando nas águas tranquilas do meu corpo. Não era um banho comum, parecia era um ritual, um estranho cerimonial. Depois, Maria dirigia-se para a Vila e por lá deslizava como se fosse um rio atormentando os homens com a sua beleza provocante. Maria Java não fazia nada para provocá-los, era simplesmente o seu modo de andar, a sua beleza que embriagava os homens de desejos. Ao fim da tarde, quando o Sol ia dormir roxo de cansaço, ela regressava ao ninho para voltar, na manhã seguinte, a cumprir o mesmo ritual.
Com a chegada das primeiras chuvas, Maria deu à luz um menino. Na primeira visita à Vila, as mulheres não aguetaram a curiosidade e vieram, sem cerimónias, espiar a criancinha que, nua, dormia envolta em folhas de bananeira. Houve logo ali mesmo alguém que traçou as parecenças da criança com o Xico Camionista. A novidade correu como brisa no tempo das chuvas. Só a mulher do Xico, claro, não gostou. Fez cara feia, muxoxou e foi tirar a prova visual do ADN da criança. Quando viu o menino, os resultados da análise saltaram com todos os cromossomas e também ela viu as trombas do mulato Xico Camionista, seu marido, na face angelical do menino. Revirou os olhos, muxoxou ainda mais, pôs as mãos na bunda e foi tartar do assunto com o Xico. Consta que o Xico, mulato franzino, negou conhecer a Maria Java mas isso de nada lhe valeu porque apareceu no Bar Esplanada com um olho negro, dizem, de um sopapo que lhe deu a mulher.
Depois do nascimento do filho Maria Java passou literalmente, para as mulheres da Vila, a ser uma pária, uma espécie de enjeitada da sociedade. Ignorada pelas mulheres mas desejada pelos homens enquanto deslizava pelas ruas da Vila, filho nos braços e os seios fartos de leite. O tempo, mangonheiramente foi passando e  Maria Java deixou de ser o tema de conversa das mulheres. (...)

Namibiano Ferreira (final na próxima postagem)

CONVITE: ANGOLA, O 27 DE MAIO - MEMORIAS DE UM SOBREVIVENTE


9 de maio de 2017

CONTO EM PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS

Os sucessos da história da literatura angolana



MARIA JAVA 

 Ninguém sabia de onde ela veio, quem era ou o que pretendia. Se é que pretendia alguma coisa. A meio da estação seca apareceu na Vila, grávida e semi-nua, com um par de seios a parecerem dois maboques provocantes. Era uma mulher bela, elegante e enigmática. Não andava, deslizava pela Vila sem nunca falar ou estabelecer qualquer forma de contacto. Também não pedia e mantinha uma certa altivez. As mulheres da Vila inventaram estórias sobre ela, conversas, bisbilhotices e mujimbos. Kuribotices, enfim, que só as mulheres sabem criar sobre outras mulheres. Por qualquer estranha razão as mulheres da Vila não gostavam desta ave de arribação vinda sabe Deus de onde. Só D. Dominguinhas, sekula de muitos cacimbos e chuvas, fez saber que sabia alguma coisa sobre esta solitária e estranha mulher. O respeito e a credibilidade da velha sekula, parteira nas horas vagas e lavadeira de profissão desde os tempos coloniais, trouxe as orelhas das mulheres até à boca de D. Dominguinhas que beijando seus dedos em cruz falou: “ Juro, por Nzambi! Estava lá na margem do rio sozinha mesmo a lavar umas roupas quando ela apareceu do lado donde o Sol dorme. Chegou assim mesmo do nada, a última vez que olhei naquela direcção, eu vi poisar uma ondjava, depois mesmo ela apareceu, de tanga e mamas a apontar o céu. Agora, vocês num me perguntem mais nada mas o andar dessa moça me faz lembrar uma ondjava.” E deu uma gargalhada sonora e cantante daquelas que só uma mulher kwanhama sabe dar. E foi assim, D. Dominguinhas virou madrinha de Maria Ondjava, mais tarde ficou só Maria Java. Maria Java não se misturava com o povo da Vila, limitava-se a passear, a deslizar pelas ruas. Vivia junto da minha margem, fora da localidade, numa cubata que mais parecia um amontoado de folhas e galhos velhos e secos. As gentes da Vila, isto é, o mulherio, chamavam, com desdém, o ninho da Java e realmente parecia um ninho. (...)

Namibiano Ferreira