foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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24 de abril de 2014

TRADIÇÃO E MODERNIDADE

A tradição não impede a tecnologia. Os Nyaneka-Humbi (muíla) e os Herero (Kuvale, Himba...), presevam as suas tradições mas não desdenham da modernidade...



Duas moças mumuílas numa rua do Lubango, Angola (Foto: Hill DO Foto Dadilson). 


Não é por causa de estarem isoladas do resto do mundo que algumas populações do sul de Angola mantêm um estilo de vida tradicional. É por opção. Se clicarmos nesta imagem para ampliá-la, poderemos ver claramente que esta senhora angolana de etnia Himba tem na sua mão direita um telemóvel (celular) (Foto: Selma Fernandes) 


Créditos:  A Matéria do Tempo http://amateriadotempo.blogspot.co.uk/ 

23 de abril de 2014

CONHEÇO CHUVAS DE NVULOMBERA

Rio Cuíto - Angola


Conheço chuvas de Nvulombera antigas como a aurora do Mundo!
Chuvas de velho e conhecido crepitar na força máscula do tantã
ngoma de sangue ressoando no suor da alma pela mata de minha
memória diluída em bátegas soltas, na aragem das nuvens, no país
de Xamavú - terra-vermelha - e eu mwangolé no sopro e no fragor
ácido desta diáspora assente nos poros deste cacimbo permanente...


Chuvas antigas latejando sangue nas veias que não esquecem
o chão quente do ventre da terra e na pele curtida dos tambores 
a dedilhar desejos e missangas verdes que vão ondulando chanas
na pérola dos bagos de água, chovendo na carícia melancólica
do vento livre do sertão, malembelembe-devagar e morrendo
rendas pardas de cacimbo mas renascendo renovo de chuvas
filhas neófitas das chuvas antigas como a aurora velha do Mundo.
Nvulombera assassinada a cada cacimbo mas a renascer ainda
na fala só de cantar tantã alucinado nas cordas dos meus sentidos,
a vibrar palpitando a taquicardia mística da vida do coração
muximangoma do batuque africano, kazumbi das chuvas antigas
a renovar profundos e novos desejos de futuros verdes de um sol
a baloiçar luzidio na prata Nvulombera dos lábios promessa da lavra.



Namibiano Ferreira

BANDA MARAVILHA



DIA INTERNACIONAL DO LIVRO

Hoje, 23 de Abril, é dia Internacional do Livro, escolho o livro LAVRA - Poesia Reunida 1970/2000 de Ruy Duarte de Carvalho, que estou presentemente a ler.


ISBN: 978-972-795-135-2 

SINAL


Naquele ano a chuva foi excessiva e cresceram tortulhos no olhos dos cães. Os vitelos, ao espreitar a luz pelos sexos das mães, afogavam-se em lama, no meio dos sambos. As paredes das casas diluíam-se em nata e os oleiros desistiram de encomendar a sua obra a Deus. Enormes cuidados foram inventados para proteger o fogo nos altares e as crianças adotaram a nudez. As termiteiras deixaram de existir e as formigas aladas perderam as asas. Os pés dos mais velhos fenderam-se em chagas e as mamas das virgens, mal eram tocadas, colavam-se aos dedos como cinza úmida. Os lábios dos sexos das mulheres paridas inchavam carnudos de uma carne branca e os ventres pendiam como fruta mole.
Naquele ano a chuva foi excessiva
e os horizontes deixaram de existir.
Choveu por muito tempo até os cães perderam todo o pêlo e as cabeleiras se destacarem como algas podres. O rei do Jau ficou colado ao trono e ao boi sagrado cresceram-lhe os olhos, que depois cegaram. As sementes grelaram nos celeiros e essa semente assim era servida aos homens e daí lhes ocorreu um tal vigor que os seus pênis cresceram desmedidos e os homens vacilaram, tendo-os nas mãos e mudos de fascínio.
A chuva choveu tanto que as serpentes saíram dos buracos e vieram alongar-se ao pé dos paus, mantendo com esforço as cabeças erguidas. Nas terrinas do leite vicejaram musgos e o leite das vacas alterou-se em soro,a coalhar na urina. Naquele ano a chuva choveu tanto que até nos areais cresceram talos e as enxurradas produziram peixe e até o ferro se lavou sozinho e os diamantes vieram rebolar nas pedras concavadas de moer farinha. As próprias aves morreram quase todas e apenas se salvaram as de penas brancas, que a distância atraiu, depois comeu.
E aquela chuva aproveitou aos fósseis e houve minerais que se animaram e até pedras comuns a transmudar-se em carne.
Naquele ano a chuva choveu tanto que a memória perdeu todo o sentido. As gargantas entupiram-se de limos e as testas que os velhos pousavam nas mãos fundiam-se aos dedos e os braços às pernas e os gestos de graça fundiam os corpos e as jovens crianças ficavam coladas ao peito das mães. Só as bocas teimavam em manter-se abertas e quando mais tarde a chuva parou, das bocas saíram grossas aves negras que abalaram logo daquelas paragens. E a seca voltou e o mundo secou. A carne antiga a dar-se agora em terra, os fósseis em pedra e as ramas em húmus. E os passos poliram pouco a pouco as formas.

Naquele ano a chuva choveu tanto
que a memória nunca mais teve sentido.


Ruy Duarte de Carvalho
In Lavra – Livro III – Exercícios de Crueldade (1975 – 1978)

22 de abril de 2014

NDAPANDULA - WALDEMAR BASTOS




ODE À GOIABA


Goiabas
surgindo como um rio amarelo
o perfume delas
rico de sínteses
das madrugadas encerradas
na penugem dos Katetes.


E o sol também
o sol camarada e operário
doirando a cabeça das árvores
quando os montes além
fecundam as ventanias
no sangue maternal das tardes.


Tudo isso é pouco p'ra caber numa goiaba.


Falta o sonho da palma
da mão
no começo da seca estação.



José Luís Mendonça

 in Chuva Novembrina 

CAROCHAS DO NAMIBE - TOMBUA (ANGOLA)

Medium
Foto: Paulo E. Cardoso (onymacris candidipennis)


Estas carochas são abundantes no deserto do Namibe, comem excrementos secos dos ruminantes e outros animais. Para beber água, quando o cacimbo sopra do mar, viram-se de patas para o ar e a seu tempo o cacimbo (nevoeiro carregado de vapor de água que sopra do mar, devido á corrente fria de Benguela) transforma-se, pela condensação, em água que lhes escorre para a boca. Só hoje, soube o seu nome científico, Onymacris candidipennis e Onymacris unguicularis.


Stock Photo #4201-17483, Darkling Beetle (Onymacris unguicularis) tips its head down to drink dew collected on its back, Namib Desert, Namibia
Foto: Minden Pictures / SuperStock (onymacris unguicularis)

19 de abril de 2014

MARIMBA

Grupo de marimbeiros. Foto net.

À memória do cego da Baixa

Dedicados a Óscar Ribas


Marimba tocada
por dedos tão dextros
marimba que vibra
que chora e não fala
que lembra o lamento
da hiena na selva
e o grito selvagem
do negro no quimbo.
marimba saudosa
nos dedos do cego
pedindo uma esmola,
de roupa estragada
já velho e sem dentes,
marimba do canto
da paz e da guerra
que lembra o passado
dos olhos a verem,
da mão que não treme
da fala serena...
marimba que recorda o passado
e vive o presente
deixa a saudade no tempo futuro!
e os dedos tão dextros
tão cheios de calos
nas mãos que a correm
marimba não fala
o homem não vê!
mas marimba recorda
os tempos passados...
os tempos passados...
marimba recorda
e o pobre ceguinho
tocando a marimba
chora com ela
e recorda também
o tempo passado...
chorando, também
eu tenho saudades
do pobre ceguinho
tocando a marimba
os olhos sem vida
a voz sem expressão...
recordo... recordo... e choro com ele
nas horas amargas
marimba não fala
mas faz recordar.


Ruy Burity da Silva

(Poema retirado do blogue: Angola: Os Poetas.)

17 de abril de 2014

FIRMAMENTO



Poema às 0 horas e 30 minutos de 1998:



FIRMAMENTO


Até este céu nocturno é de uma
tristeza sem par...


Nas noites mágicas do Sul, no céu,
tem meninas de fogo
dançando as estrelas mais formosas
 brincando no luando 
negro
veludo de carvão.


Namibiano Ferreira