foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

22 de abril de 2014

ODE À GOIABA


Goiabas
surgindo como um rio amarelo
o perfume delas
rico de sínteses
das madrugadas encerradas
na penugem dos Katetes.


E o sol também
o sol camarada e operário
doirando a cabeça das árvores
quando os montes além
fecundam as ventanias
no sangue maternal das tardes.


Tudo isso é pouco p'ra caber numa goiaba.


Falta o sonho da palma
da mão
no começo da seca estação.



José Luís Mendonça

 in Chuva Novembrina 

CAROCHAS DO NAMIBE - TOMBUA (ANGOLA)

Medium
Foto: Paulo E. Cardoso (onymacris candidipennis)


Estas carochas são abundantes no deserto do Namibe, comem excrementos secos dos ruminantes e outros animais. Para beber água, quando o cacimbo sopra do mar, viram-se de patas para o ar e a seu tempo o cacimbo (nevoeiro carregado de vapor de água que sopra do mar, devido á corrente fria de Benguela) transforma-se, pela condensação, em água que lhes escorre para a boca. Só hoje, soube o seu nome científico, Onymacris candidipennis e Onymacris unguicularis.


Stock Photo #4201-17483, Darkling Beetle (Onymacris unguicularis) tips its head down to drink dew collected on its back, Namib Desert, Namibia
Foto: Minden Pictures / SuperStock (onymacris unguicularis)

19 de abril de 2014

MARIMBA

Grupo de marimbeiros. Foto net.

À memória do cego da Baixa

Dedicados a Óscar Ribas


Marimba tocada
por dedos tão dextros
marimba que vibra
que chora e não fala
que lembra o lamento
da hiena na selva
e o grito selvagem
do negro no quimbo.
marimba saudosa
nos dedos do cego
pedindo uma esmola,
de roupa estragada
já velho e sem dentes,
marimba do canto
da paz e da guerra
que lembra o passado
dos olhos a verem,
da mão que não treme
da fala serena...
marimba que recorda o passado
e vive o presente
deixa a saudade no tempo futuro!
e os dedos tão dextros
tão cheios de calos
nas mãos que a correm
marimba não fala
o homem não vê!
mas marimba recorda
os tempos passados...
os tempos passados...
marimba recorda
e o pobre ceguinho
tocando a marimba
chora com ela
e recorda também
o tempo passado...
chorando, também
eu tenho saudades
do pobre ceguinho
tocando a marimba
os olhos sem vida
a voz sem expressão...
recordo... recordo... e choro com ele
nas horas amargas
marimba não fala
mas faz recordar.


Ruy Burity da Silva

(Poema retirado do blogue: Angola: Os Poetas.)

17 de abril de 2014

FIRMAMENTO



Poema às 0 horas e 30 minutos de 1998:



FIRMAMENTO


Até este céu nocturno é de uma
tristeza sem par...


Nas noites mágicas do Sul, no céu,
tem meninas de fogo
dançando as estrelas mais formosas
 brincando no luando 
negro
veludo de carvão.


Namibiano Ferreira

16 de abril de 2014

ESTE CHOCALHAR DE PÉS







Este chocalhar revolto
em pés empoeirados
e cacimbados
no quente do asfalto
vem do longe dos musseques
e traz o som dos batuques.

Este chocalhar de pernas femininas
a lutar bagatelas
e gritarias
em pedaladas fugidias
vem do longe das sanzalas
e foge a dança das minas.

Vêm perdidas das matas
perdidas das kubatas
estas chocalhadas em chão quente
de sol arrogante
vêm corridas das lavras
e trazem a fome das terras.

Este arrastar de pés zungueiras
com falas de asneiras
em conversa matumba
vem do longe dos musseques
e dança a dança dos batuques
a resmungar o chão da Mutamba.

Este fedor forte
conhece os grãos da estrada
os grãos da caminhada
e vem d’alguma parte
escapulido das minas
vêm d’alguma parte estas chocalhadas femininas.

Esta catinga fedeu-se distante
fugidia deslocada
do kimbo aos gritos mãos na cabeça
desesperançada
sem graça
esta catinga fedeu-se em andanças galopantes.

Este chocalhar em pés encardidos
e rachados
este chocalhar revolto
em pés de zungueira no quente do asfalto
vem do longe dos musseques
e dança a dança dos batuques!

  
Décio Bettencourt Mateus.

in Gente de Mulher.


Luanda, 5 de Agosto 2006. 

15 de abril de 2014

E se África Recusasse o Desenvolvimento?

1990 : uma camaronesa chamada Axelle Kabou, publica um livro que vai ressoar como um trovão. Intitula-se:

“E se África Recusasse o Desenvolvimento?”



Axelle Kabou : «O sub-desenvolvimento de África não se deve à falta de capital. Seria ingenuidade acreditar nisso. Para compreender por que motivo este continente não parou de regredir, apesar das suas riquezas consideráveis, é preciso em primeiro lugar perguntarmo-nos como é que funcionam as coisas ao nível microeconómico mais elementar: na cabeça dos africanos.»

E se África recusasse o desenvolvimento?

Regresso a um livro maior que surgiu já há 23 anos… Nesse livro, Axelle Kabou estigmatiza as mentalidades africanas e acrescenta que, desde Levy Bruhl, criticar as mentalidades africanas se tornou tabu. (Lucien Levy Bruhl é um intelectual francês que explicava o atraso tecnológico dos não ocidentais pela sua mentalidade “pré-lógica”. A sua tese sobreviveu-lhe, embora a tenha renegado no fim da vida N.R.).

Axelle Kabou opõe-se a tudo o que se diz geralmente sobre o desenvolvimento de África e põe o dedo na ferida. Aponta o dedo às responsabilidades africanas e chega aperguntarse se “a vontade de desenvolvimento dos africanos não será um mito”. Dá como exemplo o projecto panafricano de Nkrumah, sabotado pelos próprios dirigentes africanos, preocupados em jogar as suas cartadas pessoais e em conservar os seus “territórios”.

Kabou cita Nkrumah : “Entrámos, diz ele, num mundo onde a Ciência transcendeu os limites do mundo material e onde a tecnologia invadiu até os silêncios da natureza. O tempo e o espaço foram reduzidos à categoria de abstracção sem importância. Máquinas gigantes traçam estradas, abrem as florestas à agricultura, escavam barragens, constroem aeródromos (…) o mundo já não avança ao ritmo dos camelos ou dos burros. Já não podemos permitir- nos abordar os nossos problemas de desenvolvimento,

de necessidade de segurança, ao ritmo lento dos camelos e dos burros!” Segundo Kabou, Nkrumah tem a audácia de reconhecer, tal como o colonizador, que a África está atrasada, e de o dizer sem contemplações. (p. 37) E é justamente isso que os africanos têm dificuldade em fazer…

Axelle Kabou continua: ao fim de 30 anos consagrados a destruir os preconceitos do colonizador, a África, por não ter feito senão isso, mumificou-se terrivelmente, e adquiriu tiques regressivos de que dificilmente se livrará.

À parte o debate superioridade/inferioridade do Branco em relação ao Negro, que há de novo? “O mundo inteiro reconheceu a vacuidade das teses que mostravam os africanos como seres primitivos, desde os anos 30, pelo menos. Podemos assim perguntar- nos se é verdade que em 1990 o africano alfabetizado continua a fundamentar as reacções ao desenvolvimento em conceitos racistas que datam da segunda metade do século XIX, de tal forma isso nos parece inverosímil.

Ora, longe de se tratar de um falso debate, o problema da superioridade ontological do Branco sobre o Negro manteve-se incomparavelmente actual na África Negra.

A recusa do desenvolvimento, presente nas mentes africanas, continua a manifestar-se através do que a autora designa por “uma ideologia parasitária”. E dá como exemplo: ”Sou Negro. O Negro não inventou o computador. Logo, o computador é anti-africano.” Ou ainda: “A técnica degrada a vida familiar e as relações humanas. Os próprios Ocidentais o afirmam. Portanto, a África deve rejeitar a técnica.” (p. 93)

Segundo Axelle Kabou, os africanos alfabetizados foram moldados para “perceber a tradição e a modernidade como valores conflituais”. “Aplicada à África de hoje, a noção de alienação cultural é um mito que tem por função instaurar um clima de resistência à penetração de ideias novas nas mentalidades”. (p. 94). E ainda, para Axelle Kabou, os africanos não estão preparados para revivificar os seus valores civilizacionais por meio de contributos externos ou da investigação científica:

“A verdade é que os africanos não foram preparados para tal, pelo contrário”. “A imagem de um Japão a desenvolver-se por infiltração, absorvendo febrilmente todos os elementos exógenos susceptíveis de o guindarem ao nível de potência mundial, investindo tanto como as potências industriais na pesquisa científica, não se aplica ao actual estado psicológico de África. A África odeia os investigadores

(…) Ora, em trinta anos de independência, a África ainda não procedeu ao inventário dos seus valores tradicionais objectivamente dinâmicos, que poderiam, não apenas constituir alicerces sólidos de políticas de desenvolvimento coerentes, mas também servir para minimizar os efeitos perversos da dominação exterior”.

Outro ponto destacado por Kabou: a visão que os africanos têm da colonização e do tráfico negreiro. “A leitura africana do tráfico negreiro e do colonialismo é de um simplismo assombroso: estava eu tranquilamente em minha casa, quando vi chegar um homem de cor branca que me pediu hospitalidade e se aproveitou da minha gentileza para me espoliar dos meus bens, matar os meus e reduzi-los à servidão. Por conseguinte, apresento queixa e exijo reparação”. (p. 105)

Axelle Kabou lembra, sem contemplações, que “todos os povos são, em primeira e em última análise, responsáveis pela sua história na íntegra, sem exclusão”. Mais adiante: “a questão não será, antes, a de saber o que, para além da moral, poderia obrigar um Ocidente poderoso a pagar dívidas coloniais e, sobretudo, a colocar os interesses de África antes dos seus”. (p. 114)

Kabou argumenta dizendo que os africanos colocam, de facto, as perguntas erradas, do género “a colonização foi uma coisa boa ou má?”.

Segundo a autora, não é aí que reside o essencial do debate. Em sua opinião, é preciso tomar boa nota da colonização e seguir adiante.

Comparando África e o Japão, ela sublinha que o Japão soube preservar a sua cultura e simultaneamente seguir a via da industrialização, embora não possuindo riquezas no subsolo, contrariamente aos países africanos.

“Desde que o relativismo cultural foi inventado” (quer dizer, desde que é admitido, grosso modo, que todas as culturas são equivalentes), os africanos têm aproveitado para denegrir “a robotização, a mecanização, a industrialização a todo o custo, de que os países ricos seriam vítimas”. Kabou sublinha, no entanto, que essa industrialização é fonte de riqueza, e que os africanos fariam melhor em arregaçar as mangas e lançarem-se na mesma via, em vez de cair na armadilha do relativismo cultural. Em resumo, os africanos deveriam pôr os olhos na Ásia.

Quando foi lançado, o livro causou muita irritação nos círculos intelectuais africanos. A autora foi taxada de “traidora” de África ou de “voz dos seus patrões brancos”. Contudo, somos forçados a notar que o livro continua surpreendentemente actual, apesar de ter sido publicado há 15 anos. Muitos dos pontos levantados por Axelle Kabou são ainda hoje válidos…

 AS CITAÇÕES DE AXELLE KABOU…

«Todos os povos são responsáveis pela sua história na íntegra, sem exclusão.» «É como se o africano de hoje em dia apenas concebesse antepassados da envergadura de Soundiata, de Samory ou de Chaka. A aldeia real parece deixá-lo pouco à vontade, por lhe faltar brilho.»

«Assim, a criança africana, que, antes da escolarização, faz prova de grande curiosidade e demonstra notáveis capacidades de observação e de invenção ao fabricar os seus próprios brinquedos, torna-se, desde os primeiros dias de escola, uma espécie de vitelinho alimentado pelo leite do tráfico negreiro e da resistência à colonização e, à medida que cresce, não vai além disso.»

«A África continua a comportar-se como se todos os seus valores fossem dignos de ser preservados.»

«A África, ao contrário do Japão, situa as suas referências narcísicas num tempo tão longínquo que não pode transformar o seu orgulho cultural em motor do desenvolvimento.»


in ‘AFRICULTURES, nº 8 (CULTURA-Jornal angolano de Artes & Letras)


MÁSCARAS CHIONGO


CIHONGO


As máscaras Cihongo (chiongo) simbolizam poder e riqueza, representam homens poderosos e ricos. São utilizadas nas danças juntamente com as máscaras Mwana Pwó para assim trazer fertilidade e prosperidade à comunidade.  São, por assim dizer, o acompanhante masculino da máscara feminina de Mwana Pwó.




10 de abril de 2014

REINES D' AFRIQUE et HÉROINES de la DIASPORA NOIRE - LIVRO -


O livro de Sylvia Serbin, "Reines d'Afrique et Héroïnes de la Diaspora Noire", infelizmente sem tradução em português, fala de muitas e esquecidas mulheres africanas que foram verdadeiras heroínas.

A primeira rainha negra que Sylvia nos apresenta é a muito angolana, a Rainha Da Matamba, Sua Alteza Real, Nzinga Mbandi Ngola. No campo das profetizas, temos o nome de Dona Beatriz Kimpa Vita.

9 de abril de 2014

AS OBRAS DE PAULO SECO

Paulo Seco, nasceu em Luanda, a 20 de Junho de 1974. Lançou em 2001 “Uma Gota de Água Repousada na Pétala da Flor da Esperança, poesia; em 2003 “Sermão da Noite Desconhecida”, poesia, e em 2007 “Laços verticais”, também poesia.
"A Nudez Cristalina de Susana" é o título do último livro do jovem escritor angolano.

A nudez cristalina de Susana é um romance que versa sobre um chamamento para uma reconciliação do ser humano com o ambiente que se insere e cumpre os desígnios da própria vida. (...) Ainda existe gente (Susana é toda essa gente) capaz de viver em perfeita comunhão com a natureza e prenhe de humanidade». Estas são algumas palavras do prefácio que esclarecem a essência do quarto trabalho de Paulo Seco.