foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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9 de abril de 2014

AS OBRAS DE PAULO SECO

Paulo Seco, nasceu em Luanda, a 20 de Junho de 1974. Lançou em 2001 “Uma Gota de Água Repousada na Pétala da Flor da Esperança, poesia; em 2003 “Sermão da Noite Desconhecida”, poesia, e em 2007 “Laços verticais”, também poesia.
"A Nudez Cristalina de Susana" é o título do último livro do jovem escritor angolano.

A nudez cristalina de Susana é um romance que versa sobre um chamamento para uma reconciliação do ser humano com o ambiente que se insere e cumpre os desígnios da própria vida. (...) Ainda existe gente (Susana é toda essa gente) capaz de viver em perfeita comunhão com a natureza e prenhe de humanidade». Estas são algumas palavras do prefácio que esclarecem a essência do quarto trabalho de Paulo Seco.  








LUMBU - ANTIGA DEMOCRACIA NO KONGO - LIVRO -





"Lûmbu: Antiga Democracia no Kôngo”

Batsîkama lançou em Lisboa o livro “Lûmbu: democracia no antigo Kôngo”, na passada Sexta feira dia 28 de Março de 2014.
Quando os portugueses  chegaram a Mbanza  Kongo  encontraram um Estado democrático. As relações de Rui Pina e de Duarte Lopes, embora numa intonação ocidental, ilustram este facto. Depois de vários séculos de um período obscuro – dominado por guerras, escravatura e todas atrocidades – que passou a sociedade kôngo, as evidências ainda não desapareceram. Além das escritas que encontramos em Portugal, Vaticano, Espanha, Itália, França, Alemanha, Holanda, etc., o autor aproveita disso para expor, em poucas palavras o que terá sido a democracia no antigo Kongo.
A democracia em Angola, assim pensa o autor, ainda não foi repensada e estudada de forma científica pela “academia” angolana. O que o autor publica agora é apenas um dos capítulos da sua pesquisa sobre “Repensar uma Democracia para Angola”, onde o autor debruça sobre a Democracia antes da chegada dos Portugueses nos Estados de Kongo/Mbundu, Lunda/Cokwe e Umbundu na primeira parte, e compara (já na segunda parte) com os problemas que o processo da democratização apresenta em Angola. Na presente publicação que é apenas 20% do seu projecto, o autor quer chamar ao debate os académicos angolanos para um olhar perspectivista sobre a democracia angolana que responda a realidade angolana.
Este livro é, por um lado o resumo das pesquisas que o autor tem publicado os relatórios numa trilogia: (1) As origens do reino do Kongo, 370 páginas; (2) O reino do Kongo e a sua origem meridional, 348 páginas; (3) Reino do Kongo consoante a Bibliografia e a Tradição Oral, 360 páginas. Por outro lado, na versão completa (Repensar uma democracia para Angola), a segunda parte é um resumo da Tese de Doutoramento (em antropologia política) do autor que tem 617 páginas mais 189 anexos.

Patrício Batsîkama é natural de Makela ma Zombo, da linhagem Ñtûmb’a Mvêmb’a Ñzînga. Formou-se em História, Filosofia e História da Arte; antropologia. É bisneto materno do pastor Pedro Sadi de Mbanza Kimalomba (Kibokolo) e neto paterno de Raphael Batsîkama.  Autor de uma dúzia de artigos publicados nas revistas científicas, proferiu várias comunicações em várias universidades angolanas, americanas, europeias e asiáticas. É membro UNAP e professor na Universidade Agostinho Neto. 

3 de abril de 2014

A POESIA... ORA, A POESIA...


A Poesia... (risos) ora, a poesia...
é coisa que não serve para nada!
Moringue de barro quebrado
não mata a sede a ninguém;
são letras, papéis ridículos 
não distribuindo dividendos
nem acumulando juros;
poesia não enche barrigas
grandes inchadas de fome
e o melhor poema seria
pão com marmelada
ou, antes, melhor que isso
um grande pão com chouriço
e para acompanhar um poema
um poema? sim, um poema
que seja uma grande caneca
ou garrafa de cerveja
a poesia? ora, não serve para nada
e de facto mais vale um grande
pão com chouriço e uma grade de cerveja
(de preferência uma Cuca fresca que se veja). 


Namibiano Ferreira

28 de março de 2014

MÚCUAS


Publicado hoje, no blogue: Angola: Os Poetas (http://angolapoetas.blogspot.co.uk/ )


Imbondeiro


Múcua:
fruto mácula
veludo a pingar
mágoa negra
lágrima seca a chorar
escorrendo nos braços
mãos-imbondeiro
abertas aos céus
anunciando a crescer
desespero da terra
povo inteiro
múcua, mákua, mágoa
lágrima negra imbondeiro
a chorar.


Namibiano Ferreira

 Flor e fruto do imbondeiro (múcua)

27 de março de 2014

OS NGANGELA (Leia-se Nganguela)

Usos e costumes dos Bantu de Angola - Nganguela


Este termo significa oriente ou leste e os povos desse ponto cardeal de Angola são designados Yingangela/Opvingangela ou simplesmente os do Leste e são nomeadamente lwimbi, lwena ou luvale, lucazi/lutchazi, mbunda, ngangela, ambwela, ambwilamambumba, ngondjelo mbande, khangala, yahuma, gengista, nkoya, kamachi, ndungo, nyemba e aviko.
 
Os Ngangela são povos que ocupam maioritariamente a parte Leste de Angola (Moxico) e Sudeste (Kuando Kubango) e alguns núcleos na Huíla e Bié, fazendo parte das sociedades cujas origens, segundo os seus membros, são apontadas como tendo sido fora de Angola.

Neste aspecto, os Ngangela apontam o Shaba Ocidental como seu ponto de partida. As versões dominantes indicam que a sua origem deve ser procurada no leste, apesar de nos mapas “etnolinguísticos” da Zâmbia, com a qual tem um longa fronteira, não se encontrar o termo Ngangela, mas sim Mbunda Mbwela, Luchazzi e Kamachi. Actualmente os Ngangela estão repartidos em dois “territórios”, um dos quais na fronteira leste que vai da bacia do Zambeze ao curso do Kubango, divisão considerada como imposta pela cunha da migração Côkwe para o sudeste de Angola.


Do ponto de vista económico, os Ngangela oriundos dos antigos caçadores savânicos praticam hoje como principais actividades a agricultura em estação chuvosa, trabalho essencialmente feito por mulheres (limpeza, desbravamento do solo, lançamento de sementes, etc.), com excepção do derrube das árvores que é feito por homens e a pecuária.

A extracção do mel, a cera e a pesca lacustre e fluvial fazem igualmente parte da sua economia. À pesca são empregues muitos instrumentos, tais como munsunsa, teha, txintokotolo e algumas raízes maceradas, uma espécie de veneno para “embriagar” os peixes a fim de facilitar a sua captura.

NOTÁVEIS FUNDIDORES DE FERRO

No domínio artístico, os Ngangela atingiram níveis bastante elevados, com o emprego de foles de quatro saídas com os quais se fundem o ferro, cujo “ventre” do forno é semelhante ao tronco da mulher. Para além de serem notáveis fundidores, a “variante” luvale fabrica ainda hoje uma admirável cerâmica negra, polida, envernizada e com uma moderação artística bastante apreciada.

Ganguela AngolaNo aspecto social, tomam como predomínio os ritos de iniciação ou de passagem masculina que são consagrados com uma curiosa série de máscaras do tipo rodeado, antropomórfica ou zoomórfica, feitas à base de fibras vegetais, madeira e resina. Essa instituição de socialização ngangela transforma o estatuto de um jovem para ser um verdadeiro “ homem”, já introduzido nos segredos clânicos e dos adultos, pronto a enfrentar todos os desafios da vida.

As raparigas são também isoladas da comunidade quando apresentam o primeiro fluxo menstrual e submetidas a rigorosas doutrinas por uma mestra idónea para serem futuras boas esposas, donas de casa, mães e noras aceitáveis.

O casamento e o nascimento do primeiro filho constituem o momento de elevada autoestima por parte do casal e um reconhecimento e consideração pela comunidade. Sobre as práticas religiosas, os Ngangela, “para além das religiões universais cristãs (católica e evangélica), tomam predomínio a crença aos espíritos dos seus antepassados, denominados vakulu, ndumba-ai, munto e kazumbyei. Segundo a tradição, os adivinhos e curandeiros estão intimamente ligados a essas divindades.

Américo Kwononoka
Director do Museu de Antropologia 

24 de março de 2014

A CULTURA NOK - HISTÓRIA DE ÁFRICA



Civilização Nok

Nok era uma civilização existente no norte da Nigéria que, no século V a.C. dominava a metalurgia.
O seu extenso legado constitui aquilo que se chama a Cultura Nok. Por razões desconhecidas, esta cultura desvaneceu-se por volta do século II ou III da nossa era.

Eram principalmente agricultores sedentarizados que cultivavam o inhame (para alimentação) e produziam óleo de palma, sendo provável que não criavam gado. Parecem ter sido pioneiros também na metalurgia, já que foram os primeiros ao sul do Sara a fundir o ferro. “A língua Nok estava possivelmente ligada à dos Protobantos, que enxameavam toda a África Central e Meridional.

Nada se sabe sobre como terá desaparecido esta cultura, se de forma brutal ou na sequência de um progressivo declínio.” Os Nok habitaram uma ampla área de “480 quilómetros por 160 quilómetros” a norte da confluência do rio Níger com o Benué, entre cerca de 500 a.C. e 200 d. C.






Cultura Nok

Desenvolveu-se durante a Idade do Ferro no período de 500 a.C. e 200 d.C.
Na Idade do Ferro usavam cobre, estanho, bronze e ferro para produzirem seus artefactos com mais resistência, na Civilização Nok não foi diferente, fabricavam lanças, machados, vasos, esculturas, estátuas e outros de barro e cerâmica. A sua arte tem algumas características que se devem assinalar. Os Nok representaram pessoas e animais. As cabeças humanas são modeladas segundo as formas geométricas em uso: esféricas, cónicas e cilíndricas; são em tamanho quase natural e as feições são estilizadas. “As cabeças humanas, mesmo quando mostram alguma tendência para o naturalismo, nunca são retratos. Em contrapartida, os animais são tratados de forma realista, o que leva a pensar que as representações humanas se afastam da realidade voluntariamente e não por falta de habilidade dos artistas.” De facto, há estudiosos que sugerem que existia uma recusa em fabricar retratos, pois o modelo poderia ficar exposto à acção de forças maléficas. Ainda assim, há uma preferência pela representação humana, embora tenham aparecido elefantes, macacos, serpentes etc.


 


A Cabeça de Jemaa

A peça considerada mais importante da cultura Nok é a Cabeça de Jemaa, descoberta em 1942. Modelada em forma esférica, a cara é uma superfície lisa, com olhos triangulares e nariz pouco saliente a que adere o lábio superior; os olhos, o nariz e a boca são perfurados e as orelhas estão “no ângulo do maxilar”.


File:El Pensador (Cultura Nok).jpg

O Pensador Nok.


Fonte Wikipédia e Armarium Libri.


Para saber mais há o livro: "The Nok Culture - Art in Nigeria 2500 Years Ago"
Gert Chesi





A TUA VOZ ANGOLA


Nos tribos
E assobios
Dos pássaros bravios
Ouço a tua voz Angola.

Dos fios
Esguios
Em arrepios
De mulembas sólidas
Escorre a tua voz Angola.

Nas ondas calemas
Barcos e velas
Dongos traineiras
Âncoras e cordas
Freme a tua voz Angola.

Em rios torrentes
Regatos marulhentos
Lagoas dormentes
Onde morrem poentes
Brilha a tua voz Angola.

No andar da palanca
No chifre do olongo
No mosqueado da onça
No enrolar da serpente
Inscreve-se a tua voz Angola.

No acordar dos quimbos
Nos cúmulos e nimbos
Nos vapores tímidos
Em manhãs de cacimbo
Flutua a tua voz Angola.

Na pedra da encosta
No cristal de rocha
Na montanha inóspita
No miolo e na crosta
Talha-se a tua voz Angola.

Do chiar dos guindastes
Do estalar dos braços
Do esforço e do cansaço
Emerge a tua voz Angola.

No ronco da barragem
No camião da estrada
No comboio malandro
Nos gados transumantes
Ecoa a tua voz Angola.

Dos bongos e cuicas
Concertinas apitos
Que animam rebitas
Farras das antigas
Salta a tua voz Angola.

A flor da buganvilia
A rosa e o lírio
Cachos de gladíolos
O gengibre e a cola
Perfumam a tua voz Angola.

Ouve-se e sente-se e brilha
A tua voz Angola

Inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
A tua voz Angola

Vai com o vento goteja com o suor
A tua voz Angola

Por toda a parte por toda a parte
A tua voz Angola

Que voz é essa tão forte e omnipresente
Angola?

Que voz é essa omnipresente e permanente
Angola?

É a voz dos vivos e dos mortos
De Angola
É a voz das esperanças e malogros
De Angola
é a voz das derrotas e vitórias
De Angola
É a voz do passado do presente e do porvir
De Angola
É a voz do resistir
De Angola
É a voz dum guerrilheiro
De Angola
É a voz dum pioneiro
De Angola.



Antero Abreu

in "A Tua Voz Angola"

21 de março de 2014

PARA O DIA MUNDIAL DA POESIA: DISCURSO NO PARLAMENTO

Assembleia Nacional de Angola - Luanda


DISCURSO NO PARLAMENTO

Um dia, encho-me de coragem
E vou mesmo discursar no parlamento
Confesso que fiz juramento
De ir a pé até lá
De entrar naquela sala,
Para discursar a minha mensagem

Um dia, apareço nas câmaras da televisão
Verdade mesmo, não é ilusão
Apareço com o meu rosto maltratado
Com o meu rosto de drogado
Para pedir um ponto de ordem
Aos senhores deputados,
Eu mesmo que vivo do outro lado da margem

Ja sei que vão olhar com indignação
Para os meus pés descalços
Para os meus calções rotos
E para os meus magritos braços
Já consigo imaginar os vosso rostos
De indignação e estupefacção

Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar
Em plena assembleia nacional
Assim mesmo, com este meu visual
De menino de rua votado ao abandono
De menino de rua cão sem dono
Eu vou à assembleia nacional falar

Assim mesmo, sem convite
E sem ser chamado
Eu, que não sei falar português de escola
Vou entrar naquela sala
Para falar com os senhores deputados
Eu vou lá sem convite, acredite!

E antes de me porem andar à paulada
Antes de me mandarem calar à porrada
Vou rasgar o meu peito
Para vocês escutarem o grito
De tanto sofrimento vivido
De tanto sofrimento bebido

E enquanto estiver a ser arrastado
Para fora da assembleia nacional
Eu, menino de rua cão sem dono e drogado
Eu, menino de rua marginal
Ainda terei coragem
Ainda serei capaz
De trovejar a minha mensagem:
POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!

Não levem a mal
Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!


Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar" 

20 de março de 2014

AS HIENAS


descem nos kimbos

quando que inerme a noite dorme

e dos monas

seu chorado

sabem

roçam nas portas

roçam nas portas

condevagar

(da morte
na roça
eriçado rumor)
e o luto kukunam
e o luto kukunam
na terra violada

João-Maria Vilanova
in Caderno dum Guerrilheiro

Monas  - Crianças, filhos.
Kukunam - Semeam, espalham, de kukuna, semear (Kimbundu).