foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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27 de fevereiro de 2014

PEQUENO HINO AO SOL


Reconheço-te, ò Sol,
és a minha matutina luminescência
que, partindo na véspera da noite,
voltas dourando a manhã
de vida, espanto, verdor e poesia.

Ò Sol, nesta luz sadia da manhã  
os poemas do Eugénio são bagos
matutinos de lume e romã:
ò Sol, também eu quero ficar cego
de tanta claridade e por isso,
ofereço-te as conchas de fogo
que trago no regaço de minhas mãos
trémulas e famintas de poesia.


Namibiano Ferreira

25 de fevereiro de 2014

OS MENINOS DO HUAMBO









Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos de Huambo fazem alegria
Do ceu puxando as cadentes mais bonitas

Com lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Com os nomes mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Juntam fapula com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar

Divide a chuva miudinha por o milho
Multiplicam o vento pelo poder popular

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
Que até já dizem que as estrelas são do povo
Porque meninos inventaram coisas novas
Que até já dizem que as estrelas são do povo

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade

Assim contentes à voltinha da fogueira
Soltam ao ceu as estrelas ja escritas
Novas palavras para fazer redaçoes
Escapando ao se esvadeio ao machado
Para os meninos tambem sao constelações
Constelações que brilham sempre sem parar

Palavras deste tempo sempre novo
Multiplicam o vento pelo poder popular
Porque meninos inventaram coisas novas
Que até já dizem que as estrelas são do povo
Porque meninos inventaram coisas novas
Que até já dizem que as estrelas são do povo

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade


Manuel Rui Monteiro

24 de fevereiro de 2014

DONOS ANGOLANOS DE PORTUGAL

Donos Angolanos de Portugal
Por Maka Angola - 15 de Janeiro, 2014
Foi ontem apresentado em Lisboa o livro Os Donos Angolanos de Portugal, uma obra que denuncia a crescente influência dos investimentos angolanos em Portugal, encabeçados por Isabel dos Santos (filha primogénita de JES), Manuel Vicente (vice-presidente da República e ex-director da Sonangol) e pelo general Vieira Dias “Kopelipa” (ministro de Estado e chefe da Casa Militar do presidente da República).

O livro, da autoria de três dirigentes da formação política Bloco de Esquerda, retrata a teia de interesses e parcerias entre as elites político-empresariais angolanas e portuguesas, numa altura em que a tensão entre os dois países se intensifica. O capital angolano investido em Portugal aumentou 35 vezes na última década e, no seu conjunto, os angolanos são os investidores estrangeiros com maior peso na Bolsa de Valores de Lisboa. Interesses angolanos detêm agora posições significativas no sector bancário, nas telecomunicações, na energia e na comunicação social em Portugal.

A acumulação de capital em Angola, resultado de uma década de elevados preços do petróleo e da institucionalização da corrupção, liderada pelo presidente da República, coincidiu com a crise económica em Portugal.

A fragilidade da economia portuguesa, assim como a predisposição da sua classe política e económica para fechar os olhos à proveniência dos capitais angolanos, completaram um quadro em que os interesses das principais figuras angolanas encontraram em Portugal portas abertas para o branqueamento de capitais e para a internacionalização de investimentos obtidos de forma ilícita.

De acordo com Jorge Costa, um dos autores do livro, “Portugal está a transformar-se, fruto da promiscuidade política entre o regime angolano e quase todos os partidos portugueses, numa placa giratória para a aplicação de capitais, que, pela sua origem, teriam muita dificuldade em ser aplicados noutros países europeus”.

Isabel dos Santos, a primeira mulher bilionária africana, cuja fortuna foi acumulada através de decretos presidenciais, é o exemplo máximo do crescente poder angolano sobre a economia portuguesa. A filha de José Eduardo dos Santos é uma das maiores accionistas em empresas portuguesas, com participações na banca (BPI, BIC), nas telecomunicações (ZON) e na energia (Amorim Energia).

Numa sala cheia da livraria FNAC, no centro de Lisboa, o jornalista e director-adjunto do semanário português Expresso, Nicolau Santos, apresentador do livro, indicou que, para além dos investidores angolanos, ninguém com capital disponível teria interesse em investir na comunicação social em Portugal, sector com pouca ou nenhuma rentabilidade. O interesse angolano neste sector destina-se unicamente a influenciar a cobertura noticiosa sobre Angola.

António Mosquito, um dos investidores angolanos com forte presença em Portugal, adquiriu recentemente uma participação na Controlinveste, grupo de media que integra importantes órgãos de comunicação social em Portugal, incluindo a estação radiofónica TSF e os jornaisDiário de Notícias e Jornal de Notícias, entre outros.

De acordo com o jornalista, que afirma desconhecer casos de censura directa, existe agora, nos meios de comunicação portugueses que têm participações angolanas, grande hesitação em publicar notícias negativas sobre Angola. “As oito mil empresas portuguesas em Angola e os 150 mil portugueses que agora trabalham em Angola exercem de igual forma pressão para que não haja cobertura noticiosa negativa sobre Angola, de modo a não prejudicar os seus interesses”, acrescentou Nicolau Santos.

As alianças entre as elites político-empresariais angolanas e portuguesas resultam, segundo Jorge Costa, em “prejuízo para o povo angolano, que vê drenadas do seu país riquezas que poderiam ser usadas em seu benefício, bem como para o povo português, que vê serem entregues ao capital angolano interesses estratégicos de Portugal”.

O livro, que pretende constituir um levantamento exaustivo desta teia de alianças, inclui a listagem de todos os governantes portugueses, desde 1974, com ligações empresariais a Angola, revelando casos de muitos ex-ministros com protagonismo nestes grupos económicos.

Os Donos de Portugal, de autoria de Jorge Costa, Francisco Louçã e João Teixeira Lopes, é uma edição da Bertrand Editora.

Alguns dos gráficos reproduzidos no livro Os Donos Angolanos de Portugal, ilustrando as participações cruzadas de interesses económicos angolanos e portugueses:

ISABEL aux Donos Angolanos de Portugal

KOPELIPA aux Donos Angolanos de Portugal

SONANGOL aux Donos Angolanos de Portugal
Com a devida autorizacao do site MAKA ANGOLA
http://makaangola.org/2014/01/15/donos-angolanos-de-portugal/

21 de fevereiro de 2014

CAMPONESA DENUNCIA GENERAIS




Lusa.

Dois cidadãos angolanos relataram esta sexta-feira, no Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa, casos de violentos abusos de direitos humanos que viveram e testemunharam na região diamantífera das Lundas, em Angola.


Linda Moisés da Rosa contou que perdeu dois filhos na Lunda Norte, o primeiro soterrado num acidente em que foram vítimas 45 garimpeiros, no dia 5 de Dezembro de 2009, e dois meses depois o segundo “assassinado pelos seguranças nas instalações da empresa diamantífera Sociedade Mineira do Cuango da qual os generais são sócios”.
O relato dos detalhes sobre o resgate do cadáver do primeiro filho e o assassínio “à catanada” do segundo não chegou ao fim porque Linda Moisés da Rosa, visivelmente emocionada, acabou por desmaiar, tendo sido assistida pelo INEM no local.
Os relatos constam do livro “Diamantes de Sangue”, do jornalista e activista angolano Rafael Marques que acompanha Linda Moisés Rosa e o regedor (chefe tradicional) Mwana Capenda, da Lunda Norte, numa deslocação a Portugal, e foram  repetidos na sessão “Diamantes, Milionários, Violência e Pobreza nas Lundas”, promovida pela eurodeputada socialista Ana Gomes.
Linda Moisés da Rosa e Mwana Capenda contaram também que nos últimos dias as autoridades angolanas os tentaram subornar em troca do silêncio e para desistirem da viagem a Portugal.
“Eu sou Mwana Capenda (…) e fico muito envergonhado quando ouço falar das Lundas. Já estamos cansados, já multiplicámos as nossas forças, mas o Governo não faz nada”, disse o chefe tradicional.
“Temos esta riqueza toda, mas ficamos só com os buracos. Eu, pessoalmente há dias fui perseguido pela polícia só porque quero falar verdade. Fui ameaçado pela polícia e com pistolas. Se na verdade temos governos devíamos ter organização e ordem e respeito pelo ser humano. Mas não temos democracia. Falam da democracia mas nunca cheiramos o cheiro da democracia”, lamenta Mwana Capenda.
Para o chefe tradicional da Lunda Norte, a exploração dos diamantes em nada beneficia as populações locais, que também são vítimas de agressões arbitrárias da polícia e dos militares.
“Não temos casas, não temos escolas, não temos água, não temos energia. Quem goza da riqueza da minha terra? Os outros. Isto é matar”, acusou o regedor, acrescentando que se multiplicam os casos de violações e agressões a mulheres camponesas em “actos de intimidação” para obrigar as populações a abandonar os terrenos agrícolas que podem vir a ser no futuro zonas de garimpo.
Segundo Rafael Marques, a situação de pobreza e de falta de infraestruturas na província é tal que não há morgues, o que está a fazer com que as populações usem gasolina para “tratar dos cadáveres”.
“O Governo vai provocar uma guerra civil. Vamos começar a matar-nos com catanas e paus? Não há deputados, nem ministros que estão a sofrer como nós. Isto é matar: os nossos filhos não têm escolas”, acrescentou Mwana Capenda, que diz que Portugal tem obrigação de intervir, explicando que é preciso vir a Lisboa para “multiplicar forças” em Angola.
O activista Rafael Marques explicou também que há um processo neste momento na Bélgica em que uma das empresas que tinha a “responsabilidade de comprar diamantes nas Lundas” – a Omega – tinha como parceira uma empresa que foi criada pelo Estado angolano para compra exclusiva dos diamantes produzidos, “neste caso, por mineiros ilegais”.
Segundo Rafael Marques, a Omega está a ser processada porque quando operava em Angola vendia os diamantes a um preço muito baixo para evitar o pagamento de impostos na Europa, “vendia, por isso, os diamantes a si própria para não pagar impostos” e quando os diamantes chegavam à Bélgica eram vendidos pelo mesmo valor para não serem devidamente taxados.
“Calcula-se que nesta operação estejam em causa mais de quatro mil milhões de dólares [2,9 mil milhões de euros, ao câmbio actual] e, como multa, as autoridades belgas aplicaram à Omega – e neste consórcio a Isabel dos Santos, filha do Presidente José Eduardo dos Santos, detém 24 por cento – foram obrigados apenas a pagar uma multa de 160 milhões de euros, pela fraude fiscal cometida na Europa”, disse Rafael Marques.



Por Maka Angola - 08 de Fevereiro, 2014

RETIRADO DO SITE: http://makaangola.org/2014/02/08/camponesa-denuncia-generais/?lang=pt  com a devida permissao dos responsáveis do mesmo.


Ordens Superiores: Quem Tem Medo da Camponesa?
Por Rafael Marques de Morais - 05 de Fevereiro, 2014
Encontro-me no aeroporto prestes a embarcar com destino à Lisboa. Viajo com o Regedor Capenda Camulemba e a camponesa Linda Moisés da Rosa (Deolinda Moisés Bungulo), para participarmos numa audição organizada pela eurodeputada Ana Gomes, com o tema “Diamantes, Milionários, Violência e Pobreza nas Lundas”.

Após o cumprimento das formalidades migratórias, sentámo-nos na sala de embarque a conversar tranquilos. Vários oficiais do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), apressados e diligentes, vieram buscar a camponesa munidos com uma fotocópia do seu bilhete de identidade e levaram-na, de imediato, sem prestar quaisquer explicações. Estavam vestidos com arrogância típica dos funcionários públicos que recebem ordens superiores de alguém que manda com toda a arbitrariedade.

Passada meia hora, telefonei à Rádio Despertar a denunciar a situação. Pouco tempo depois foi libertada. Contou sobre o interrogatório a que foi submetida, sobre a sua viagem à Portugal, e sobre a ordem que receberam para impedir a sua viagem.

Segundo Linda Moisés da Rosa, um dos funcionários disse-lhe que ‘só o chefe sabe a causa do impedimento da sua viagem”.

Na verdade, no dia anterior, alguns indivíduos realizaram um trabalho para corromper a camponesa, no sentido de evitar a sua viagem. De acordo com o seu depoimento, caso desistisse da viagem receberia US $10,000.

Quando cheguei ao aeroporto, recebi um telefonema sobre a desistência da camponesa. Telefonei-lhe e ela prontamente manifestou a seu disposição de viajar e os entraves que havia encontrado para chegar ao aeroporto.

A camponesa vai também prestar o seu depoimento à justiça portuguesa sobre a queixa apresentada contra mim, em Lisboa, pelos generais Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, Carlos Hendrick Vaal da Silva, Adriano Makevela Mackenzie, João Baptista de Matos, Armando da Cruz Neto, António Faceira, Luís Faceira e António dos Santos França “Ndalu”.
Trata-se do caso sobre o livro Diamantes de Sangue: Corrupção e Tortura em Angola, que publiquei em 2011.

Linda Moisés da Rosa perdeu dois filhos no espaço de dois meses. O primeiro foi enterrado vivo com mais 44 garimpeiros, por soldados das FAA, enquanto o segundo foi morto à catanada por um guarda da Teleservice.

Os generais queixosos são sócios na Sociedade Mineira do Cuango, através da Lumanhe, e da Teleservice.

Bom, vamos embarcar.
http://makaangola.org/2014/02/05/ordens-superiores-quem-tem-medo-da-camponesa/ 

12 de fevereiro de 2014

TEMPO BASSULADO



Conseguimos
com o vento nos cabelos
bassular o tempo
cortar as amarras
e fugir…
voar como pirilampos
por cima das montanhas
e dos vales
resplandecentes de luz…
correr pelas praias
de cinza vulcânica
com cristais de sal
brilhando nos corpos nus…
e os nossos olhos
abertos ao horizonte
buscavam perdidamente
aquilo que de nós
ficou ecoando
numa outra dimensão…
… as ondas
como tambores
faziam fluir até nós
orgias crepusculares
que nos incendiavam…
comungámos assim
dia após dia
oceânicas tristezas
diluindo o tempo
ao contacto puro
do gelado elemento…
cantámos ternura em cada abraço
e sembámos velhos ritmos
que nos deram vida…

da árvore perdida
voltámos a percorrer
os seus eumbos…
da terra largada
voltámos a ser felizes
no seu solo…


Jorge Arrimar

15 de janeiro de 2014

PASSEIOS




Conheço as canções que o deserto desconhece.
bebo nas minhas mãos a imagem do deserto.
sinto-me torturado nas curvas do  deserto
onde vejo os barcos do planeta escamoso.

todas as minhas canções crepitam nos barcos.
todas as vozes concentram-se no meu sangue.

e o sangue para lá dos oásis do deserto
lembra os passeios sensuais dos meus olhos.


João Maimona

1 de janeiro de 2014

SÁBADO NOS MUSSEQUES

Poema escrito, segundo a Fundação Agostinho Neto, em 1948, vamos lá ver o que precisa de ser actualizado.... Deixo este acto de liberdade, ao leitor angolano, especialmente.


Os musseques são bairros humildes
de gente humilde


Vem o sábado
e logo ali se confunde com a própria vida
transformada em desespero
em esperança e em mística ansiedade


Ansiedade encontrada
no significado das coisas
e dos seres


na lua cheia
acesa em vez de candeeiros
de iluminação pública
que pobreza e luar
casam bem


Ansiedade
sentida nos barulhos
e no cheiro a bebidas alcoólicas
espalhadas no ar
com gritos de dor e alegria
misturados em estranha orquestração


Ansiedade
no homem fardado
alcançando outro homem
que domina e leva aos pontapés
e depois de ter feito escorrer sangue
enche o peito de satisfação
por ter maltratado um homem


Outros evitarão passar
onde o casse-tête derrubou o homem
darão voltas
saltarão muros
pisarão espinhos
pés descalços se cortarão
sobre cacos de garrafas
quebradas por crianças inocentes
e cada mulher
suspirará de alívio
quando o seu homem entrar em casa


Ansiedade
nos soldados que se divertem
emboscados à sombra de cajueiros
à espera de incautos transeuntes


A intervalos
ais de dor
lancinam ouvidos
ferem corações tímidos
e afastam-se passos
em correia angustiante
e depois dos risos da matula
desenfreada
só silêncio mistério lágrimas e ódio
e carnes laceradas
pelas fivelas dos cinturões



Ansiedade
nos que passam
à procura do prazer fácil


Ansiedade no homem
escondido em recanto escuro
violando uma criança


Sua riqueza calará o pai
e a criança
só tarde
clamará contra o destino


Ansiedade ouvida
na contenda da taberna


Compadres discutindo
escandalosamente
velha dívida de cem mil réis
entre os murmúrios
da numerosa assistência


Ansiedade
nas mulheres
abandonaram os homens
para ouvir
a vizinha aos gritos
ralhando contra a pobreza do marido


Ouvem-se
choros histéricos
ruídos de cadeiras caídas
respirações ofegantes
tilintar doloroso
de louça de ferro esmaltado
e a multidão invade a casa
os desavindos expulsam-na
e depois vem a reconciliação
com risinhos de prazer


Ansiedade
nos alto-falantes do cinema
de bocas escancaradas
a gritar swing
ao pé das bilheteiras
enquanto um carrocel
arrasta em turbilhões de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
e também
a troco de dois mil e quinhentos
namorados e crianças


Ansiedade
nos batuques saudosos
dos kiocos contratados
o fundo de todo o ruído


Lunda sem fronteiras
A derrubar o sussuro
Da ânsia tumultante


Ansiedade
na humilde criança
que foge amedrontada do polícia
de serviço


Ansiedade
no som da viola
acompanhado uma voz
que canta sambas indefinidos
deliciosamente preguiçosos
pejando o ar
do desejo de romper em pranto


Com a voz
possa o grito de saudade
que a multidão tem dos dias não vividos
dos dias de liberdade
e a noite
bebe-lhes os anseios de vida


Ansiedade
nos bêbedos caídos nas ruas
alta noite


Ansiedade
nas mãos aos gritos
à procura de filhos desaparecidos


nas mulheres que passam embriagadas


no homem
que consulta o kimbanda
para conservar o emprego


na mulher
que pede drogas ao feiticeiro
para conservar o marido


na mãe
que pergunta ao advinho
se a filhinha se salvará
da pneumonia
na cubata
de velhas latas esburacadas


nas mulheres implorando
compaixão
as nossas senhoras
nas famílias rezando


enquanto oram
bêbedos urinam na rua
encostadas à parede
afastando-se depois
a ridicularizar as vezes
que perceberam
através das persianas das janelas


Ansiedade na kazukuta
dançada à luz do acetileno
ou do candeeiro Petromax
em sala pintada de azul
cheia de pó
e do cheiro a suor dos corpos
e de maneios de ancas
e de contactos de sexos


Ansiedade
nos que riem e nos que choram


nos que entendem
e nos que respiram sem compreender


Ansiedade
nas salas de dança
regurgitantes de gente
onde daí a instantes
o namorado repreende a noiva
insultos são atirados para o ar
enchendo o recinto de questões
que extravasam para a rua
acudindo polícias aos assobios


Ansiedade
no esqueleto de pau a pique
ameaçadoramente inclinado
a sustentar pesado tecto de zinco
e nos quintais
semeados de dejectos e maus cheiros
nas mobílias sujas de gordura
nos lençóis esburacados
e nas camas sem colchão


Ansiedade
nos que descobrem multidões passivas
esperando a hora


Nos homens
ferve o desejo de fazer o esforço supremo
para que o Homem
e a esperança
não mais se torne
em lamentos da multidão


A própria vida
faz desabrochar mais vontades
nos olhares ansiosos dos que passam


O sábado misturou a noite
nos musseques
com mística ansiedade

e implacavelmente
vai desfraldando heróicas bandeiras
nas almas escravizadas.


 Agostinho Neto, in Sagrada Esperança

1948 

12 de dezembro de 2013

Soweto, Mandela e uma Lição para Angola

Durante a minha adolescência, as imagens da repressão policial contra manifestantes negros, no Soweto, na África do Sul, tinham um profundo impacto sobre mim. Cogitava sempre sobre como aquela população, indefesa, continuava a enfrentar – com danças, marchas e cânticos – o ódio mortal dos racistas do apartheid.

Essas imagens justapunham-se às de Nelson Mandela, o símbolo maior da resistência que o regime do apartheid mantinha encarcerado na prisão de máxima segurança de Robben Island.

Havia ainda uma terceira imagem, mais aterradora: a guerra em Angola. O exército sul-africano era uma força invasora no país e apoiava a guerrilha da UNITA. O governo de Angola, com o essencial engajamento das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, afirmava-se na linha de fogo contra o apartheid. Era o tempo da guerra fria, de alianças complexas, da divisão mortal dos angolanos. Para um adolescente, a questão era mais simples. Era a perspectiva do serviço militar obrigatório e a participação directa na luta, de armas na mão.

No funeral do Manuel Hilberto Ganga, o activista político assassinado pela guarda presidencial de José Eduardo dos Santos, a 22 de Novembro deste ano, vi um momento de Soweto. Às duas primeiras granadas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia de Intervenção Rápida (PIR) contra a procissão fúnebre, realizada a pé, houve pânico e dispersão. À terceira granada, a maioria tinha regressado para junto da viatura que transportava o morto e da família que havia permanecido ali, resistente. Por muitos anos guardarei a fotografia do motorista do carro funerário, firme ao volante, protegendo-se dos efeitos da intoxicação, tapando o nariz e a boca com um lenço branco.

O funeral de Manuel Ganga passou a ser a expressão máxima da segregação política, económica e social que cada vez mais divide os angolanos. Nesse contexto, a oposição política serve apenas para legitimar o certificado de democracia, que o regime adquiriu na escola das democracias de fachada. A oposição serve apenas para enfeitar o parlamento. Nesse contexto, o povo angolano é apenas aquele que, mesmo esfomeado e espoliado, vai aos comícios do MPLA, onde desfilam orgulhosos alguns dos maiores ladrões em África e, actualmente, dos mais sofisticados opressores no continente. O povo angolano são apenas aqueles grupos que apoiam e votam no MPLA. Os outros são estranhos, excluídos, quando não são perigosos e alvos a abater, como Manuel Ganga, pela ousadia de colar uns cartazes a exigir justiça!

Dias antes do funeral, de visita à África do Sul, fui ao Soweto e revisitei as minhas imagens da adolescência, através dos memoriais, sobretudo o de Hector Peterson. A 16 de Junho de 1976, a polícia do apartheid abriu fogo contra centenas de estudantes que protestavam. Há uma foto de um adolescente a levar o corpo de Hector, de 13 anos, nos seus braços, e a irmã deste atrás. A polícia matou-o a tiro.

No funeral de Manuel Ganga vi, naquele momento, um ajuntamento de pessoas dispostas a resistir e, com os mesmos olhos, vi uma Polícia de Intervenção Rápida disposta a matar cidadãos indefesos que, pacificamente, entoavam cânticos de protesto contra o presidente, o responsável moral pela morte de Ganga.

Depois de tudo o que os angolanos passaram, incluindo a sua participação sangrenta na luta contra o apartheid, e a trajectória actual da África do Sul, pensei como a opressão continua a dominar a relação entre o governo e o povo angolano.

No memorial dedicado a Hector Peterson, no Soweto, inaugurado por Nelson Mandela, há uma inscrição “em memória de Hector Peterson e todos os outros jovens heróis e heroínas da nossa luta, que deram as suas vidas pela paz, liberdade e democracia”.

Na sua mensagem de condolências pela morte de Mandela, o presidente José Eduardo dos Santos descreveu-como como aquele que “foi e é ainda símbolo carismático de todos os povos amantes da Paz, da Liberdade e da Democracia”.

Num momento em que o mundo inteiro presta homenagem a Nelson Mandela, e celebra a sua vida e obra, devemos aproveitar o momento para reflectir sobre o legado deste ícone da humanidade.

Pude entender as inscrições, no memorial de Hector Peterson, sobre a paz, a liberdade e a democracia, na África do Sul. O povo negro sul-africano sempre manifestou um grande sentido de esperança e, independente dos movimentos de libertação, sempre se manifestou nas ruas para transformar essa esperança em realidade.

Mandela, com os seus actos de resistência, antes e durante a sua detenção, foi o símbolo maior da esperança dos sul-africanos pela liberdade. Com a sua libertação, Mandela serviu como o maior catalisador para o perdão, a unidade, a reconciliação, a humildade política, a democracia e a liberdade. Acima de tudo, Mandela empoderou o seu povo com ideais e valores políticos e morais que sobreviverão aos tempos e aos políticos predadores.

Os angolanos nunca tiveram esse grande sentido de esperança, para além da sua militância em torno dos movimentos de libertação que, por sua vez, eram monolíticos e exclusivistas. O regime do MPLA mantém, em 38 anos de poder, essa cultura monolítica e de exclusão. José Eduardo dos Santos, nos seus 34 anos como presidente, apenas exigiu e sacrificou o povo. Despojou-o do poder da cidadania, de valores políticos e morais, e corrompeu profundamente a sociedade. Hoje, o angolano não consegue contemplar uma vida melhor sem ser corrupto. Dos Santos tornou-se o símbolo maior, o exemplo a seguir nos caminhos obscuros e destrutivos da corrupção e da violência política. Os políticos e intelectuais que o seguem são formatados, unidimensionais, desligados da realidade do povo, resignados e contentes por estarem do lado do opressor e das riquezas. Pior ainda é a promoção e a celebração da mediocridade, como métodos populistas de mostrar à população que não precisam de boa educação e de valores. Qualquer um pode ser dirigente, rico e poderoso como Bento Kangamba e Bento Bento, figuras extraordinárias do MPLA de hoje. É assim que se aniquila a inteligência de todo um povo, o crime maior da actual liderança angolana, que continua o seu trabalho de inferiorização do povo, a mesma estratégia usada pelos então colonialistas portugueses. Hoje, os discursos nacionais cingem-se a números, estatísticas e edifícios. A insensibilidade dos dirigentes há muito que os cegou na sua visão sobre o que é liderar e educar um povo. Por isso temem o povo e julgam poder controlá-lo apenas através da divisão e da violência.

Por isso, as palavras de paz, liberdade e democracia, no tributo de Dos Santos, não reflectem o seu comportamento ou os valores em que acredita. São apenas palavras diplomáticas.

Na África do Sul, a esperança tem estado a dar lugar a uma crescente frustração por causa do aumento das injustiças económicas e do distanciamento da elite negra governante do povo em geral. Infelizmente, muitos políticos sul-africanos seguem agora os exemplos das lideranças corruptas africanas. Hoje, na cerimónia fúnebre de Mandela, os milhares de cidadãos presentes ovacionaram, com grande emoção, vários líderes mundiais, mas vaiaram o seu próprio presidente. Todavia, os profundos alicerces da paz, da liberdade e da democracia garantem aos sectores descontentes da população a tradição e o direito de se exprimirem e de continuarem a manifestar-se sem medo.

Em Angola, os excluídos e os descontentes, que são a maioria, carecem de sentido de esperança e solidariedade colectiva. Remetem-se à sobrevivência individual, à margem da sociedade, perpetuando os ciclos da exclusão, do medo e da corrupção. Acima de tudo é uma questão de liderança.

Mandela foi uma inspiração para a bondade entre os homens. Como bem disse Barack Obama, “nós perdemos um dos mais influentes, corajosos e profundamente bondosos seres humanos”.

Angola, no seu espectro social e político, é um deserto no que toca a homens corajosos e bondosos, capazes de corporizarem o sofrimento da maioria dos angolanos e mostrar-lhes outros caminhos que não os da corrupção e das políticas de exclusão e do medo.

Todavia, situações extremas como a de Angola e a do povo angolano tendem a produzir também soluções extremas e inesperadas.

Que a vida de Nelson Mandela seja um apelo aos homens e mulheres, em Angola –
tocados pelos espíritos da bondade e da coragem – para que se levantem na defesa de uma Angola onde os cidadãos sejam humanizados e educados para o bem comum. Só assim os conceitos de paz, liberdade e democracia terão significado real e prático na vida de todos os angolanos e Nelson Mandela viverá entre nós, feliz.


By Rafael Marques de Morais - December 10, 2013 
Retirado de Maka Angola, com a devida permissao dos responsáveis do site.

11 de dezembro de 2013

TUNDAVALA



Tundavala - Angola 


Tundavala

é a vagina da Huíla

fértil

que o Namibe fálico fecunda

ejaculando

ventos, cacimbos e tempos.


Namibiano Ferreira