foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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12 de fevereiro de 2014

TEMPO BASSULADO



Conseguimos
com o vento nos cabelos
bassular o tempo
cortar as amarras
e fugir…
voar como pirilampos
por cima das montanhas
e dos vales
resplandecentes de luz…
correr pelas praias
de cinza vulcânica
com cristais de sal
brilhando nos corpos nus…
e os nossos olhos
abertos ao horizonte
buscavam perdidamente
aquilo que de nós
ficou ecoando
numa outra dimensão…
… as ondas
como tambores
faziam fluir até nós
orgias crepusculares
que nos incendiavam…
comungámos assim
dia após dia
oceânicas tristezas
diluindo o tempo
ao contacto puro
do gelado elemento…
cantámos ternura em cada abraço
e sembámos velhos ritmos
que nos deram vida…

da árvore perdida
voltámos a percorrer
os seus eumbos…
da terra largada
voltámos a ser felizes
no seu solo…


Jorge Arrimar

15 de janeiro de 2014

PASSEIOS




Conheço as canções que o deserto desconhece.
bebo nas minhas mãos a imagem do deserto.
sinto-me torturado nas curvas do  deserto
onde vejo os barcos do planeta escamoso.

todas as minhas canções crepitam nos barcos.
todas as vozes concentram-se no meu sangue.

e o sangue para lá dos oásis do deserto
lembra os passeios sensuais dos meus olhos.


João Maimona

1 de janeiro de 2014

SÁBADO NOS MUSSEQUES

Poema escrito, segundo a Fundação Agostinho Neto, em 1948, vamos lá ver o que precisa de ser actualizado.... Deixo este acto de liberdade, ao leitor angolano, especialmente.


Os musseques são bairros humildes
de gente humilde


Vem o sábado
e logo ali se confunde com a própria vida
transformada em desespero
em esperança e em mística ansiedade


Ansiedade encontrada
no significado das coisas
e dos seres


na lua cheia
acesa em vez de candeeiros
de iluminação pública
que pobreza e luar
casam bem


Ansiedade
sentida nos barulhos
e no cheiro a bebidas alcoólicas
espalhadas no ar
com gritos de dor e alegria
misturados em estranha orquestração


Ansiedade
no homem fardado
alcançando outro homem
que domina e leva aos pontapés
e depois de ter feito escorrer sangue
enche o peito de satisfação
por ter maltratado um homem


Outros evitarão passar
onde o casse-tête derrubou o homem
darão voltas
saltarão muros
pisarão espinhos
pés descalços se cortarão
sobre cacos de garrafas
quebradas por crianças inocentes
e cada mulher
suspirará de alívio
quando o seu homem entrar em casa


Ansiedade
nos soldados que se divertem
emboscados à sombra de cajueiros
à espera de incautos transeuntes


A intervalos
ais de dor
lancinam ouvidos
ferem corações tímidos
e afastam-se passos
em correia angustiante
e depois dos risos da matula
desenfreada
só silêncio mistério lágrimas e ódio
e carnes laceradas
pelas fivelas dos cinturões



Ansiedade
nos que passam
à procura do prazer fácil


Ansiedade no homem
escondido em recanto escuro
violando uma criança


Sua riqueza calará o pai
e a criança
só tarde
clamará contra o destino


Ansiedade ouvida
na contenda da taberna


Compadres discutindo
escandalosamente
velha dívida de cem mil réis
entre os murmúrios
da numerosa assistência


Ansiedade
nas mulheres
abandonaram os homens
para ouvir
a vizinha aos gritos
ralhando contra a pobreza do marido


Ouvem-se
choros histéricos
ruídos de cadeiras caídas
respirações ofegantes
tilintar doloroso
de louça de ferro esmaltado
e a multidão invade a casa
os desavindos expulsam-na
e depois vem a reconciliação
com risinhos de prazer


Ansiedade
nos alto-falantes do cinema
de bocas escancaradas
a gritar swing
ao pé das bilheteiras
enquanto um carrocel
arrasta em turbilhões de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
e também
a troco de dois mil e quinhentos
namorados e crianças


Ansiedade
nos batuques saudosos
dos kiocos contratados
o fundo de todo o ruído


Lunda sem fronteiras
A derrubar o sussuro
Da ânsia tumultante


Ansiedade
na humilde criança
que foge amedrontada do polícia
de serviço


Ansiedade
no som da viola
acompanhado uma voz
que canta sambas indefinidos
deliciosamente preguiçosos
pejando o ar
do desejo de romper em pranto


Com a voz
possa o grito de saudade
que a multidão tem dos dias não vividos
dos dias de liberdade
e a noite
bebe-lhes os anseios de vida


Ansiedade
nos bêbedos caídos nas ruas
alta noite


Ansiedade
nas mãos aos gritos
à procura de filhos desaparecidos


nas mulheres que passam embriagadas


no homem
que consulta o kimbanda
para conservar o emprego


na mulher
que pede drogas ao feiticeiro
para conservar o marido


na mãe
que pergunta ao advinho
se a filhinha se salvará
da pneumonia
na cubata
de velhas latas esburacadas


nas mulheres implorando
compaixão
as nossas senhoras
nas famílias rezando


enquanto oram
bêbedos urinam na rua
encostadas à parede
afastando-se depois
a ridicularizar as vezes
que perceberam
através das persianas das janelas


Ansiedade na kazukuta
dançada à luz do acetileno
ou do candeeiro Petromax
em sala pintada de azul
cheia de pó
e do cheiro a suor dos corpos
e de maneios de ancas
e de contactos de sexos


Ansiedade
nos que riem e nos que choram


nos que entendem
e nos que respiram sem compreender


Ansiedade
nas salas de dança
regurgitantes de gente
onde daí a instantes
o namorado repreende a noiva
insultos são atirados para o ar
enchendo o recinto de questões
que extravasam para a rua
acudindo polícias aos assobios


Ansiedade
no esqueleto de pau a pique
ameaçadoramente inclinado
a sustentar pesado tecto de zinco
e nos quintais
semeados de dejectos e maus cheiros
nas mobílias sujas de gordura
nos lençóis esburacados
e nas camas sem colchão


Ansiedade
nos que descobrem multidões passivas
esperando a hora


Nos homens
ferve o desejo de fazer o esforço supremo
para que o Homem
e a esperança
não mais se torne
em lamentos da multidão


A própria vida
faz desabrochar mais vontades
nos olhares ansiosos dos que passam


O sábado misturou a noite
nos musseques
com mística ansiedade

e implacavelmente
vai desfraldando heróicas bandeiras
nas almas escravizadas.


 Agostinho Neto, in Sagrada Esperança

1948 

12 de dezembro de 2013

Soweto, Mandela e uma Lição para Angola

Durante a minha adolescência, as imagens da repressão policial contra manifestantes negros, no Soweto, na África do Sul, tinham um profundo impacto sobre mim. Cogitava sempre sobre como aquela população, indefesa, continuava a enfrentar – com danças, marchas e cânticos – o ódio mortal dos racistas do apartheid.

Essas imagens justapunham-se às de Nelson Mandela, o símbolo maior da resistência que o regime do apartheid mantinha encarcerado na prisão de máxima segurança de Robben Island.

Havia ainda uma terceira imagem, mais aterradora: a guerra em Angola. O exército sul-africano era uma força invasora no país e apoiava a guerrilha da UNITA. O governo de Angola, com o essencial engajamento das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, afirmava-se na linha de fogo contra o apartheid. Era o tempo da guerra fria, de alianças complexas, da divisão mortal dos angolanos. Para um adolescente, a questão era mais simples. Era a perspectiva do serviço militar obrigatório e a participação directa na luta, de armas na mão.

No funeral do Manuel Hilberto Ganga, o activista político assassinado pela guarda presidencial de José Eduardo dos Santos, a 22 de Novembro deste ano, vi um momento de Soweto. Às duas primeiras granadas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia de Intervenção Rápida (PIR) contra a procissão fúnebre, realizada a pé, houve pânico e dispersão. À terceira granada, a maioria tinha regressado para junto da viatura que transportava o morto e da família que havia permanecido ali, resistente. Por muitos anos guardarei a fotografia do motorista do carro funerário, firme ao volante, protegendo-se dos efeitos da intoxicação, tapando o nariz e a boca com um lenço branco.

O funeral de Manuel Ganga passou a ser a expressão máxima da segregação política, económica e social que cada vez mais divide os angolanos. Nesse contexto, a oposição política serve apenas para legitimar o certificado de democracia, que o regime adquiriu na escola das democracias de fachada. A oposição serve apenas para enfeitar o parlamento. Nesse contexto, o povo angolano é apenas aquele que, mesmo esfomeado e espoliado, vai aos comícios do MPLA, onde desfilam orgulhosos alguns dos maiores ladrões em África e, actualmente, dos mais sofisticados opressores no continente. O povo angolano são apenas aqueles grupos que apoiam e votam no MPLA. Os outros são estranhos, excluídos, quando não são perigosos e alvos a abater, como Manuel Ganga, pela ousadia de colar uns cartazes a exigir justiça!

Dias antes do funeral, de visita à África do Sul, fui ao Soweto e revisitei as minhas imagens da adolescência, através dos memoriais, sobretudo o de Hector Peterson. A 16 de Junho de 1976, a polícia do apartheid abriu fogo contra centenas de estudantes que protestavam. Há uma foto de um adolescente a levar o corpo de Hector, de 13 anos, nos seus braços, e a irmã deste atrás. A polícia matou-o a tiro.

No funeral de Manuel Ganga vi, naquele momento, um ajuntamento de pessoas dispostas a resistir e, com os mesmos olhos, vi uma Polícia de Intervenção Rápida disposta a matar cidadãos indefesos que, pacificamente, entoavam cânticos de protesto contra o presidente, o responsável moral pela morte de Ganga.

Depois de tudo o que os angolanos passaram, incluindo a sua participação sangrenta na luta contra o apartheid, e a trajectória actual da África do Sul, pensei como a opressão continua a dominar a relação entre o governo e o povo angolano.

No memorial dedicado a Hector Peterson, no Soweto, inaugurado por Nelson Mandela, há uma inscrição “em memória de Hector Peterson e todos os outros jovens heróis e heroínas da nossa luta, que deram as suas vidas pela paz, liberdade e democracia”.

Na sua mensagem de condolências pela morte de Mandela, o presidente José Eduardo dos Santos descreveu-como como aquele que “foi e é ainda símbolo carismático de todos os povos amantes da Paz, da Liberdade e da Democracia”.

Num momento em que o mundo inteiro presta homenagem a Nelson Mandela, e celebra a sua vida e obra, devemos aproveitar o momento para reflectir sobre o legado deste ícone da humanidade.

Pude entender as inscrições, no memorial de Hector Peterson, sobre a paz, a liberdade e a democracia, na África do Sul. O povo negro sul-africano sempre manifestou um grande sentido de esperança e, independente dos movimentos de libertação, sempre se manifestou nas ruas para transformar essa esperança em realidade.

Mandela, com os seus actos de resistência, antes e durante a sua detenção, foi o símbolo maior da esperança dos sul-africanos pela liberdade. Com a sua libertação, Mandela serviu como o maior catalisador para o perdão, a unidade, a reconciliação, a humildade política, a democracia e a liberdade. Acima de tudo, Mandela empoderou o seu povo com ideais e valores políticos e morais que sobreviverão aos tempos e aos políticos predadores.

Os angolanos nunca tiveram esse grande sentido de esperança, para além da sua militância em torno dos movimentos de libertação que, por sua vez, eram monolíticos e exclusivistas. O regime do MPLA mantém, em 38 anos de poder, essa cultura monolítica e de exclusão. José Eduardo dos Santos, nos seus 34 anos como presidente, apenas exigiu e sacrificou o povo. Despojou-o do poder da cidadania, de valores políticos e morais, e corrompeu profundamente a sociedade. Hoje, o angolano não consegue contemplar uma vida melhor sem ser corrupto. Dos Santos tornou-se o símbolo maior, o exemplo a seguir nos caminhos obscuros e destrutivos da corrupção e da violência política. Os políticos e intelectuais que o seguem são formatados, unidimensionais, desligados da realidade do povo, resignados e contentes por estarem do lado do opressor e das riquezas. Pior ainda é a promoção e a celebração da mediocridade, como métodos populistas de mostrar à população que não precisam de boa educação e de valores. Qualquer um pode ser dirigente, rico e poderoso como Bento Kangamba e Bento Bento, figuras extraordinárias do MPLA de hoje. É assim que se aniquila a inteligência de todo um povo, o crime maior da actual liderança angolana, que continua o seu trabalho de inferiorização do povo, a mesma estratégia usada pelos então colonialistas portugueses. Hoje, os discursos nacionais cingem-se a números, estatísticas e edifícios. A insensibilidade dos dirigentes há muito que os cegou na sua visão sobre o que é liderar e educar um povo. Por isso temem o povo e julgam poder controlá-lo apenas através da divisão e da violência.

Por isso, as palavras de paz, liberdade e democracia, no tributo de Dos Santos, não reflectem o seu comportamento ou os valores em que acredita. São apenas palavras diplomáticas.

Na África do Sul, a esperança tem estado a dar lugar a uma crescente frustração por causa do aumento das injustiças económicas e do distanciamento da elite negra governante do povo em geral. Infelizmente, muitos políticos sul-africanos seguem agora os exemplos das lideranças corruptas africanas. Hoje, na cerimónia fúnebre de Mandela, os milhares de cidadãos presentes ovacionaram, com grande emoção, vários líderes mundiais, mas vaiaram o seu próprio presidente. Todavia, os profundos alicerces da paz, da liberdade e da democracia garantem aos sectores descontentes da população a tradição e o direito de se exprimirem e de continuarem a manifestar-se sem medo.

Em Angola, os excluídos e os descontentes, que são a maioria, carecem de sentido de esperança e solidariedade colectiva. Remetem-se à sobrevivência individual, à margem da sociedade, perpetuando os ciclos da exclusão, do medo e da corrupção. Acima de tudo é uma questão de liderança.

Mandela foi uma inspiração para a bondade entre os homens. Como bem disse Barack Obama, “nós perdemos um dos mais influentes, corajosos e profundamente bondosos seres humanos”.

Angola, no seu espectro social e político, é um deserto no que toca a homens corajosos e bondosos, capazes de corporizarem o sofrimento da maioria dos angolanos e mostrar-lhes outros caminhos que não os da corrupção e das políticas de exclusão e do medo.

Todavia, situações extremas como a de Angola e a do povo angolano tendem a produzir também soluções extremas e inesperadas.

Que a vida de Nelson Mandela seja um apelo aos homens e mulheres, em Angola –
tocados pelos espíritos da bondade e da coragem – para que se levantem na defesa de uma Angola onde os cidadãos sejam humanizados e educados para o bem comum. Só assim os conceitos de paz, liberdade e democracia terão significado real e prático na vida de todos os angolanos e Nelson Mandela viverá entre nós, feliz.


By Rafael Marques de Morais - December 10, 2013 
Retirado de Maka Angola, com a devida permissao dos responsáveis do site.

11 de dezembro de 2013

TUNDAVALA



Tundavala - Angola 


Tundavala

é a vagina da Huíla

fértil

que o Namibe fálico fecunda

ejaculando

ventos, cacimbos e tempos.


Namibiano Ferreira

6 de dezembro de 2013

O LEÃO DORME – NELSON MANDELA FALECEU

Canção Zulu, da África do Sul, "Mbube" (Leão), em inglês tem o nome "The Lion Sleeps Tonight" mas é mais do que isso, é uma profunda espiritualidade que só se encontra em África.

Hoje, o Leão partiu, o  Leão Dorme esta Noite, foi para Casa, ele voltará!!

Voltará para de novo lutar pela Liberdade onde ela estiver amordaçada. 

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses

a Constelação nova

a Constelação Mandela

a única que viaja no céu dos Hemisférios…

Namibiano Ferreira

 

Viva Nelson Mandela, O Madiba!

(1918 - 2013)

RIP!

Amandla
Ngawethu!






O homem que tira a liberdade de outro homem, é um prisioneiro do ódio, está aprisionado atrás das barras do preconceito e da estreiteza de espírito. Não sou completamente livre se tirar a liberdade de outrém e, concerteza, também não sou livre quando a minha liberdade me é retirada. Tanto o oprimido quanto o opressor são roubados da sua humanidade... Para ser livre não basta apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que se respeite e melhore a liberdade dos outros.
NELSON MANDELA

4 de dezembro de 2013

SALFABETIZANDO

Foto: Kindala Manuel 



Sentado no chão

rabiscando no pó

um grupo escutando

sentado no chão

um grupo escutando

rabiscando

com o dedo

com um pau

sem papel, e sem lápis

um grupo

salfabetizando



Carlos Pimentel

(Nasceu no Namibe em 1944) 

2 de dezembro de 2013

O QUE É A POESIA?

O que é a poesia?

A poesia é um espanto!


 

Ouço o vento, esse mesmo vento que assobia no deserto e não sabe o que nos pede.

Perguntas-me o que é a poesia, esperas ávido a resposta e, como o vento no deserto, eu também assobio e não sei o que me pedes, perguntando. Ao fim de todo este tempo eu ainda não sei que mistério é este que se entranha, como o vento, invisível pelos sulcos de todas as coisas, de todos os sentimentos, de todas as palavras. É a poesia este mistério profundo como a aurora do mundo. Está em todo o lado como se fosse uma centelha que um deus soprou e é dado ao homem captar, não na totalidade, mas em pequenas e misteriosas gotas que, do invisível ou do Logos, constrói o poeta, o poema que lhe acontece, num acontecimento também ele carregado de vetusto mistério, como se fosse uma casa erguida com tijolos de palavras, símbolos, metáforas e todas essoutras particularidades que conhecemos com a designação de poesia.

Mas saber, saber de concreto, de forma visível o que é a poesia, este mistério semi-revelado á nossa humana condição, eu não sei, eu ainda não sei o que é a poesia. E também não sei completamente como ela acontece, embora tenha uma certa fórmula que encontrei igual ou parecida à minha, nas palavras de um outro poeta, muito parecidas àquilo que se passa comigo quando a poesia me acontece. São as palavras de Sophia na sua Arte Poética IV:

“o poeta é um escutador. É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.
Sei que o poema aparece, emerge e é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração. O meu esforço é para conseguir ouvir o «poema todo» e não apenas um fragmento. Para ouvir o «poema todo» é necessário que a atenção não se quebre ou atenue e que eu própria não intervenha. É preciso que eu deixe o poema dizer-se. Sei que quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho, a minha aplicação não conseguem continuá-lo.
Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece como já feito? A esse «como, onde e quem» os antigos chamavam Musa. É possível dar-lhe outros nomes e alguns lhe chamarão o subconsciente, um subconsciente acumulado, enrolado sobre si próprio como um filme que de repente, movido por qualquer estimulo, se projecta na consciência como num écran. Por mim, é-me difícil nomear aquilo que não distingo bem. É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível — como a película de um filme — ao ser e ao aparecer das coisas. E a partir de uma obstinada paixão por esse ser e esse aparecer.
Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado (que ora é mais nitido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.”

E quantas, quantas vezes o poema chega aos meus sentidos como uma comunicação sensorial através de um odor, de uma memória, de um som, de uma lembrança, de uma palavra, de qualquer outra actividade, tão simples como comer, ler, sorrir, ou um sentimento  que pode ir do amor á indignação, ira ou mesmo revolta. Uma vez que esse misterioso algo se instala, numa parte de mim (que não sei onde é), de imediato se inicia um processo do fazer acontecer o poema e neste quase transe, o silêncio e a concentração são fundamentais, tal como Sophia esse fio, essa misteriosa sintonia não pode ser quebrada e tem de ser logo imediatamente registada, caso haja uma quebra na sintonia, o poema nunca mais acontece ou fica mutilado, por vezes, mais tarde é possível recuperá-lo, mas nunca é mais aquele poema de um dado e particular momento. Não é um poema acontecido mas um poema escrito, forçado (por vezes também sei fazer desses poemas). Quando um poema me acontece, posso vos dizer que me sinto um outro, eu mesmo diria que me sinto uma espécie de cavalo-de-santo, há o trespasse em mim de uma certa aura de mediúnica revelação, às vezes um êxtase ou uma pequena epifania. Quando o poema termina, é como se eu acordasse e, quantas vezes, a minha primeira leitura do poema revela-se, para mim próprio, um espanto. Creio, então, que a poesia é este espanto e que uma vez escrito e dado a ler a outros vai, de cada vez que é lido, permitir o acontecimento da poesia e dessoutro espanto para muito além do processo criativo. Os leitores, cada um a seu jeito, fazem reacontecer o poema e o espanto intemporalmente.


Namibiano Ferrreira 

1 de dezembro de 2013

OS MEUS PÉS DESCALÇOS



Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus pés ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantar voo, a embarcar abastados
Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!

Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas de alimentos!


Décio Bettencourt Mateus

in "Os Meus Pés Descalços"