23 de outubro de 2013
A MÃO DO VENTO NA SAVANA
Mais de três décadas depois de surgirem Vinte Canções para Ximinha, (1971) e Caderno dum Guerrilheiro, chegou a hora da republicação desta poesia de João-Maria Vilanova. Um acto de justiça elementar a um injustiçado poeta angolano da modernidade. A poesia de Vilanova pela mão de Luandino Vieira.
Poesia - João-Maria Vilanova
Edição/reimpressão: 2007
Editor: Editorial Caminho
ISBN: 9789722116220
10,90€

Que voz perpassa
em teu dorso
quando
a noite
passos-de-onça
se aproxima?
Memória de areais
Negras falésias?
Se te escutando
paciente é o
trabalhar
de onda.
Eflúvios frémito
um deus muíla que
subisse
monandengue
só da raiz do
sangue.
João-Maria
Vilanova
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João-Maria Vilanova,
Livros,
Luandino Vieira
22 de outubro de 2013
QUEM MATOU SOFIA ROSA - ÁFRICA TENTACAO
Homenagem ao Sofia Rosa (assassinado em 1975, no Lobito) dos África Tentacao.
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África Tentacao,
Sofia Rosa
NO ÓVULO DAS CIDADES

Começaram as
chuvas.
O dia caminha
mole e cinzento
dentro da tromba do elefante.
Nosso rio
estruturou no céu
seu caudal pleno
de batuques e ferreiros.
Mais altas que o
vento voam as mulheres
de seios sangrando
o sono azul dos pássaros.
A cabeça da
terra irriga os lábios da infância.
As madeiras
suspensas da fala estão húmidas.
Amanhã vamos
levar nossas enxadas e depor
uma lágrima de
esperma no óvulo das cidades.
José Luís Mendonça
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José Luís Mendonça
21 de outubro de 2013
POEMA DE JOAO-MARIA VILANOVA

Foto: Nelson Viegas
Kimbo solitário coxilando
sob o lado oculto da Lua
Esse kimbo aí
não tem mais
gente
nem bicho
pé da porta não
Ngulu que tu não
comeu
onça ela comeu
cabrito &
sanji
que tu não
comeu
onça ela comeu
e povo do lá
e povo do lá
sem nadica do
nada
para
comer
imabamba dele
cambeza dele
surruu
aiuê
na mata
quando que
sem galinha
ciscando
sem galinha
ciscando
galo negro
todo chapado em
ferro
hela
ele chegou
João-Maria
Vilanova
Sobre Joao-Maria Vilanova (texto retirado do site da UEA-Uniao de Escritores Angolanos)
Sobre Joao-Maria Vilanova (texto retirado do site da UEA-Uniao de Escritores Angolanos)
João Maria Vilanova, poeta da geração de 70, é um nome que esconde o maior
enigma da literatura angolana, um heterónimo que encobre muito bem o seu autor
biológico-histórico, continua fictício até hoje.
Na linha do pensamento teórico que vai de Stephane Mallarmé a Jonathan
Culler “interessa reflectir sobre a teoria da textualidade: a noção de que é a
palavra que constrói a realidade, e, portanto, é responsável pela criação
daquele espaço criador que é o autor. Nesta linha de pensamento, o autor
desaparece para dar lugar a palavras, cuja acção não só cria a obra, mas também
o próprio autor. Roland Barthes identifica esse fenómeno como o “espaço
discursivo de individuação” o qual estabelece certa unidade textual que nos
permite ultrapassar as contradições, nas quais se neutralizam os dados
biográficos (Barthes, Roland, «Roland Barthes par lui-même», Paris: Seuil
(1975)”, teorização desenvolvida pela ensíata Joanna Courteau (Ames), ler o
texto intitulado «D´A varanda do frangipani à morte dos heterónimos», in
Lusorama, nr. 50 (Juni 2002).
Jorge Macedo garante que conheceu o poeta quando esteve a trabalhar no
Kuanza Norte, ou seja, suspeita que tenha sido “um juiz branco que gostava da
poesia angolana, que conhecia as diversas propostas poéticas”. Muitos são os
escritores dessa geração que lançam suspeitas para todas as direcções.
Galadoardo em 1971 com o Prémio Mota Veiga, atribuído a «Vinte canções para
Ximinha», nunca apareceu para receber o merecido prémio. Mas não deixou de
aparecer, em 1974, através da revista Ngoma, mantendo-se na mesma no meio de
uma «grande nuvem». Em 1974, edita «Cadernos de um guerrilheiro».
João - Maria Vilanova é um poeta que usa o bilinguismo como seu recurso de
escrita e por ser assim “marcadamente bilinguista, regionalista, vanguardista,
intraduzível, e, portanto, inequivocamente pré-angolana, a poesia de João
Vilanova paga o preço do desconhecimento mundial, enquanto a poesia de
Agostinho Neto, retórica, grandiloquente, alegórica, aristotélica, aspirante ao
universalismo, aufere fama de múltiplas traduções. Vilanova realiza na poesia
algo como José Luandino Vieira na prosa: retira à História da Literatura
Portuguesa poder de anexação”, são palavras do crítico Pires Laranjeira.
O ensaísta vai mais longe na sua análise estrutural quando afirma que “Não
há recorrência ao empolamento do metaforismo e da ruptura abrupta da ritmia do
discurso, como seria usual nas concepções poéticas latino-europeias. As
rupturas e empolamentos situam-se em níveis do discurso diferentes da
literatura portuguesa. A inovação é, por isso, de sinal radicalmente
anticolonialista. O discurso não pode ser apropriado pelas instâncias
colonialistas por se inscrever nos antípodas da sua boa consciência. A forma dialógica
é também inalienável da condição de herdeiro da estrutura da narrativa bantu.”.
Pires Laranjeira não deixa de realçar na sua crítica o apuramento
estilístico de Vinanova que foge do discurso directo: “A denúncia do
paternalismo, como de outras sequelas do colonialismo, quase nunca se faz em
linguagem expositiva, panfletária. A força, o propósito do discurso poético não
é do mesmo género do discurso político.”
Os quimbos quietos pensados no silêncio (...) Da Envagélica os cânticos se
derramando na voz do vento: povo
Excerto de um poema in Vinte Canções para Ximinha.
Para o professor Manuel Ferreira, o poeta anónimo "será o que mais
conscientemente prolonga e renova as experiências dos poetas da Mensagem e da
Cultura (II). Tudo leva a crer que Vilanova venha dos tempos da Mensagem,
notadamente quando o seu enunciado é a expressão de um certo quotidiano povoado
de rememorações; nelas e na narração evocativa um mundo de anseios e suspensões
significativas nos povoa a imaginação".
Ainda segundo Manuel Ferreira, em Caderno de um guerrilheiro, o poeta elege
como temática "o povo angolano crescendo na luta armada." e
considera-o como o poeta do "rigor e da elaborada interiorização da gesta
do povo angolano, com uma fala para cada tema, uma gramática pessoal na fusão
de níveis e áreas linguísticas, mesmo quando o real é momentâneo e no seu verbo
se trtansfigura e dimensiona".
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João-Maria Vilanova
17 de outubro de 2013
O SILÊNCIO DAS GENTES

Um silêncio e
passos d’homens importantes
Ecoam chão de
mosaicos
Poc, poc,
poc…ecos
E fatos enfatados
E engravatados
D’homens
importantes que as gentes!
Um microfone num
discurso sábio
Regado de
palavras sábias
O silêncio
cúmplice dos dias
No silêncio do
silêncio
Das gentes
cansadas das oratórias
E discursos de
hipocrisias!
Uma torrente de
palavras rechonchudas
Um desfile de
sapiência
Em gravatas
abastadas
As minhas gentes
caminham mudas
E desesperam
paciência
Na dor do
alvorecer de madrugadas!
Quem compra os
espinhos das gentes
No suor da
caminhada?
Passos d’homens
arrogantes
Ecoam mosaico
d’estrelas
Eu rezo as velas
Das gentes
perfiladas nas estradas!
As minhas gentes
suam injustiça dos dias
E dor das noites
silenciadas
Magricelas
No palácio das
estrelas
Gravatas
abastadas
Festejam
hipocrisia de palavras sábias!
A minha noite
adormece entristecida
Na cobardia da
gente emudecida!
Décio Bettencourt
Mateus.
Luanda, 25 de
Julho de 2007.
In "Xé Candongueiro".
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16 de outubro de 2013
POEMA DE NOK NOGUEIRA
se pudesse ainda colher de teu ventre a fragrância rubra das acácias
teria ainda benevolência para digerir o compêndio das frases
douradas
que cativam a orla do tempo
se pudesse ainda sentir em deitada areia brisa em cada instante de
amor
convocaria o surrealismo de meu âmago e deixar-me-ia
sequestrado
quiçá entorpecido na silhueta de teus lábios quão belos são meus
depositando flores e suores em teu prado por ti por mim por nós
e por vós
para que nossos dias forjassem um novo edifício no sémen da
Pátria
Nok Nogueira
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Nok Nogueira
15 de outubro de 2013
A SOMBRA

[Tradição oral
Nganguela, Angola]
A sombra
não é da minha
família.
Porque será
que ela
me acompanha
sempre?
- A sombra do homem
e o próprio homem
são enterrados na
mesma cova.
Zetho Cunha Gonçalves, in Rio Sem Margem,
Poesia da Tradição Oral – Livro II
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