foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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28 de julho de 2013

COLAR DE MISSANGAS

 Tela de Neves e Sousa



naquela rua da praça…

foi ali que a encontrei
e conheci
e gostei
de a ver passar
com a quinda na cabeça…

não notei as cores dos panos,
não notei o que levava
para vender.
só reparei
e gostei
do seu colar de missangas.

soube depois
que era recordação
dum homem com quem vivera…

um dia
- quantos já passados –
estava ela na baía
quando o guerreiro,
fogueiro
ou marinheiro
de cabotagem,
apareceu por ali.

encontrou-a
convidou-a,
ela foi
e ofereceu-lhe o colar.

depois seguiu a viagem
e a vida seguiu também.

meses passados
nasceu-lhe o filho.
gostou,
ficou contente.
Depois
morreu-lhe o filho.
chorou,
enlouqueceu de repente.

e agora
todas as manhãs
quem quiser a vê passar
a caminho da quitanda
com a quinda na cabeça.

e conta os dias
passados á espera do filho,
pelas missangas
rubras, da cor das pitangas,
que vai pondo,
dia a dia,
no fio do seu colar.
ontem
quando a vi passar
o colar
tinha dez voltas…


Aires de Almeida Santos  

SUBPOESIA



Subsaarianos somos
sujeitos subentendidos
subespécies do submundo

subalimentados somos
surtos de subepidemias
sumariamente submortos

do subdólar somos
subdesenvolvidos assuntos
de um sul subserviente


José Luís Mendonça


(Chuva Novembrina)

MORINGUE




No silêncio-claridade
da manhã das noites
escrevo a luz da poesia
moldada em versos
vermelhos de terracota
como se fossem moringues
de água fresca e pura
e, no entanto, sabem
os deuses eu sou um filho
espúrio da terra que amo,
negra na raiz vermelha
do corpo e da alma
sangue molhado a gritar
na força kazumbi-kwanza.


Namibiano Ferreira

23 de julho de 2013

ALINE FRAZÃO - A VOZ




Primeiro Mundo

Eu não sei porquê
Hum incêndio dentro de cada janela e se vê
Eu não sei porquê
Este incêndio que arde dentro
Come o corpo todo e a gente finge que não vê

Mas por dentro arde,
como não vai arder?
Se na minha terra não tem pra comer
Já quase creio que não tenho o direito de ser alguém
E por isso arde
Ter de dizer adeus
Sem saber se o deserto me vai vencer
Juntar os últimos sonhos com a roupa do corpo
Partir por mim e pelos meus
E afinal... tem que haver algum deus.

Eu não sei porquê
Hum incêndio dentro de cada janela e se vê
Eu não sei porquê
Este incêndio que arde dentro
Come o corpo todo e a gente finge que não vê

Mas por dentro arde, como não vai arder?
Se chegando no primeiro mundo
me sinto mais esquecido do que era no segundo
Arde o carimbo de ilegal
Preconceito racial
Só por ter nascido mais ao sul

Xê, gente do primeiro mundo
Pais da civilização
Por não ter um papel acabei numa prisão
Xê gente da terra inteira
Queima o fogo da desilusão
Este primeiro mundo só de brincadeira

Tens que entender
Que não há diferença entre nós
É a mesma essência
E se a minha liberdade não existe
A tua é só aparência


 (Música e Letra: Aline Frazão)

PARA ALDA LARA



Alda Lara - Poetisa 



Entardecer em Benguela


Em Benguela, ao entardecer,

quando o sol – pitanga rútila –

se suspende sobre o mar

e a praia morena

se espreguiça

ansiando o luar

Alda Lara vem,

coroada de buganvílias vermelhas,

semear múcuas de sonhos

sobre a terra tão amada...

sonhos que são veludo negro

pintados de estrelas:

olhos-diamantes-leopardos...



Namibiano Ferreira

21 de julho de 2013

A HORA DAS CIGARRAS de 28 Abr 2013 - RTP Play - RTP




A HORA DAS CIGARRAS de 28 Abr 2013 - RTP Play - RTP

A HORA DAS CIGARRAS

Poesia de Nok Nogueira. Música de Lilly Tchiumba, Teta lando, Carlos Burity, Banda Maravilha, Paulo Flores e Bonga.

20 de julho de 2013

O RIO



Quem ouve o silêncio de um mundo vazio ouve enfim a voz do vento. Lamentável fora a vida antes dela se tornar como tal, pois nunca a tivera visto como sendo um instante primeiro de que me devia ainda orgulhar. O que existe entre mim e o nada das coisas é exactamente este silêncio de que me detenho submisso desde que aqui me revejo como homem, como instante de vida humana. Antes de mim existira entre os homens um contíguo de pétalas róseas ao qual nunca se fizera comparação alguma. Hoje, o que restou de um milésimo de vida são apenas reflexos dos tempos que se não apagam, pois eles estarão sempre presentes, como as flores que hoje cravo nos lábios das mulheres que vejo passar em meus sonhos. Não vejo quantos ventos ainda hei-de de colher, vejo apenas a imagem de um rio que breve se me apresenta, fosse uma manifesta declaração de amor que a qualquer instante há-de chegar aos meus ouvidos.

Nok Nogueira


Rio, in. Pensamentos 

18 de julho de 2013

PARABÉNS PARA O MADIBA




Talvez pela última vez... volto a publicar neste dia, o poema:


HAPPY BIRTHDAY MR. MANDELA




Manda a Liberdade

que eu te cante

HOMEM entre os homens,

imortal!

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses,

a Constelação da igualdade, paz,

perdão e liberdade:

Constelação Mandela

Constelação nova

do mundo que tu sonhas

bailando luz de savana

na brisa do teu riso…



Mandela, manda a Liberdade

que eu te cante…

mas perdoa a brandura do meu brado!



Mandela, na tua alma

ondula a savana loura;

na tua coragem

o rugido do leão;

nos teus olhos

a docilidade da gazela;

no teu sorriso

o sol da Igualdade.



Salvé, filho ungido da Liberdade!

Salvé, HOMEM entre homens,

imortal!

És o verdadeiro Prometeu africano!

Parabéns Mr. Mandela!

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses

a Constelação nova

a Constelação Mandela

a única que viaja no céu dos Hemisférios…



King’s Lynn, 18/07/2008


Namibiano Ferreira

Amandla!

NGAWETHU!!

17 de julho de 2013

Ó ANGOLA MEU BERÇO DO INFINITO




Ó Angola meu berço do Infinito
meu rio da aurora
minha fonte do crepúsculo
Aprendi a angolar
pelas terras obedientes de Maquela
(onde nasci)
pelas árvores negras de Samba-Caju
pelos jardins perdidos de Ndalatandu
pelos cajueiros ardentes de Catete
pelos caminhos sinuosos de Sambizanga
pelos eucaliptos das Cacilhas
Angolei contigo nas sendas do incêndio
onde os teus filhos comeram balas
e
regurgitaram sangue torturado
onde os teus filhos transformaram a epiderme
em cinzas
onde das lágrimas de crianças crucificadas
nasceram raças de cantos de vitória
raças de perfumes de alegria
E hoje pelos ruídos das armas
que ainda não se calaram pergunto-me:
Eras tu que subias montanhas de exploração?
que a miséria aterrorizava?
que a ignorância acompanhava?
que inventariavas os mortos
nos campos e aldeias arruinados
hoje reconstituídos nos escombros?
A resposta está no meu olhar
e
nos meus braços cheios de sentidos

(Angola meu fragmento de esperança)
deixai-me beber nas minha mãos
a esperança dos teus passos
nos caminhos de amanhã
e
na sombra d´árvore esplendorosa.)



João Maimona
In “Traço de união”

16 de julho de 2013

TAMBOR

foto: povodearuanda.br


A alma do poeta é um tambor. Há alguém, do outro lado do muro, que desce as mãos sobre a minha pele de tambor e repercute a mais cardíaca das vibrações: POESIA!

Esta bênção e única verdade realmente acontecida.


Namibiano Ferreira