foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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16 de julho de 2013

TAMBOR

foto: povodearuanda.br


A alma do poeta é um tambor. Há alguém, do outro lado do muro, que desce as mãos sobre a minha pele de tambor e repercute a mais cardíaca das vibrações: POESIA!

Esta bênção e única verdade realmente acontecida.


Namibiano Ferreira

15 de julho de 2013

MOXICO

 fotos.portalangola.com - Moxico, rio Zambeze



Na aurora dos dedos trazias o sudário de Deus
ouro emprestado ao sol a espreguiçar-se matinal
nas franjas digitaliformes do céu aceso a sorrir
o poema do ritual quotidiano da terra Leste cardeal
a vibrar fulgente na percussao da ngoma batida.


Muximangoma muximangoma
taquicardia de vida a falar: Ixi-Yá-Ixi-Yá
Ixi-Yá-Mavuuuuuu...
Moxicongoma Moxicongoma
a viajar abraço Luena;
a beijar lábios Cameia;
a dedilhar kissanje Luau;
a crescer carinho Cazombo;
a cantar sorriso Lumeje
Moxico do Leste Moxico da vida
a bater na pele telúrica da ngoma
só a falar: Moxico Moxico
Moxicongoma Moxicongoma
ngoma de vida a falar: Ixi-Yá-Ixi-Yá
Ixi-Yá-Moxico Moxico-Mavuuuuu...
Terra do Leste – de onde vem o Sol –
terra do ventre terra  dos Deuses
umbigo de rio Ixi-Yá-Ixi-Yá... Ixi-Yá-Riooooo
Zambeze divino prece a correr nos lábios 
verdes e na pressa de um hino canta
clama África num grito de zagaia a zunir
e amor intenso a sorrir ao sol do Leste
taquicardia de vida a falar: muximangoma
Moxicongoma Áfricangoma Áfricangoma...



Namibiano Ferreira 


NÓSSOMOS - EDITORA DE LITERATURA ANGOLANA

Quem Nóssomos

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Somos, simplesmente, uma micro-editora. Ou, talvez melhor, uma reeditora para a literatura angolana e sobretudo para a sua poesia – elemento fundamental da definição da identidade cultural contemporânea de Angola.

ESPUMA DO MAR


Te sinto chegar como espuma
Do mar num domingo à tarde.

Despertas a intensidade do meu voo
Sobre as asas abertas do teu sexo.

Fracturas a humana equação
da intimidade do verão.

Me lambes como quem
Lambe um prato de feijão de óleo palma.

Boca a boca, semente a semente, laranja sem gomos
Plurimaturada a tua língua
Por detrás dos joelhos rói
A cartilagem da minha alma:
Viro ninguém numa paragem de candongueiro.

Boca sem gomos, laranja a laranja
O coaxar dos sapos nos teus olhos rasos de água
E o colidir da chuva contra o insecto
Branco »cor de vinho« da tua palavra
Bebem dessa construção.


José Luís Mendonça

14 de julho de 2013

BENGUELA

 foto por: mariamia / panoramio


"obrigado por me teres dado a "Mena", a Irmã que nunca tive


Numa das longas conversas,
Que tive com minha Avó
Perguntei-lhe se conhecia Benguela.
A minha Avó respondeu-me:
Conhecer eu não conheço,
Mas já ouvi falar dela.
Perguntei-lhe, se conseguia,
Num mapa localizar.
Ou por seus olhos cansados
Ou porque o mapa era velho.
Precorreu-o de alto a baixo
Não conseguiu encontrar.
Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos, 
Com o vemelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor.
Dum lado e de outro de um morro,
Desenhou duas baías.
Que mais pareciam contorno,
De dois seios de mulata.
Com o azul pintou o mar, 
Com o amarelo fez um sol,
A uma chamou-lhe Azul.
A outra chamou-lhe Farta.
Três praias mais desenhou,
A uma chamou Caota...
E Caotinha à mais pequena.
Mais ao lado, para mim, 
A mais bonita...
Chamou-lhe praia Morena
Com o mesmo azul da praia,
Fez um rio.
A preto pintou um barco...
Com o amarelo bananas,
De resto tudo era verde...
Chamou-lhe rio Cavaco.
 


Segurou naquele desenho,
Como não sabia ao certo,
Em que lugar no mapa,
Deveria colocar!
Disse-me escuta meu neto.
Quando para o sul viajares
E chegares a uma cidade
Com praias maravilhosas,
Com acácias floridas,
E muitas mulheres bonitas,
Nas ruas ou à janela.
Pára...
Porque ou já é, ou estás perto
Dessa Cidade tão linda,
A que chamam de Benguela.



                        Olimpio C. Neves (Angola)

11 de julho de 2013

AS SOBRAS DAS SOMBRAS



Faço de contas a fingir
que no nascente
do poente
o Sol brilha para mim também
e no além
brotam migalhas de justiça a florir.

Depois sonho com sombras
debaixo dum Sol escaldante
abomino as sobras
das sombras estranhas
me envias (in)complacente:
as sombras também são minhas!

Oh!, a chuva matinal
Deus enviou-me a chuva torrencial
sou dono das cargas d´água
e minha amargura desagua
na foz dum rio qualquer
na foz dum rio a entardecer.

Faço de contas a sonhar
que as melodias das ondas do mar
numa praia linda
da ilha da minha Kianda
cantam para mim entusiásticas
melodias eufóricas.

Oh o solo é meu, recebi de herança
é minha a esperança
perdida no chão de riquezas
(riqueza? Que riquezas? Pobrezas!)
é meu o solo rico que galgo
é meu o lamento triste que rogo.

Deus enviou-me o sol também
o Sol é meu
também as sombras
abomino as sobras
que do alto teu céu
me envias arrogante. Turbilhões de justiça no além!

Abomino os restos
recuso! Protesto meus protestos
as sobras. As sobras das sombras
que tua falsidade me grita
e envia hipócrita:
recuso as sobras!

As sombras. As sobras das sombras!


Luanda, 19 de Maio de 2006.

Décio Bettencourt Mateus


In Gente de Mulher 

10 de julho de 2013

MUNDIAL HÓQUEI EM PATINS - ANGOLA 2013




O campeonato decorrerá entre 20 e 28 de setembro de 2013.

GRUPOS

GRUPO

  • A   
  • B   
  • C   
  • D   

PARA REFLEXÃO


Isomar Pedro Gomes


Não se alcança a Liberdade buscando a Liberdade, mas sim a verdade, a Liberdade é a consequência desta.


Isomar Pedro Gomes


POEMA DE GOCIANTE PATISSA

Rio Catumbela (nova ponte)

É o próprio rio

Despir-me-ia à brisa
ao nível da sua nudez
azul interior

Ao aroma deste conforto
da afonia do provérbio
tudo é cibernético
também o pudor

Se a ponte estagna
virtude única
é o próprio rio
ou a massemba
ou o tambor.

Gociante Patissa,
in «Guardanapo de Papel», livro de poesia previsto para sair em 2013

Fábulas da nossa terra: HÁ MUITO JACARÉ POR AÍ (*)

Quis o destino que a família Macaco habitasse numa árvore na margem do rio Catumbela, onde seria fácil cuidar da higiene e a comida abundava.

Estava o Macaco a fazer a barba, numa bela manhã, quando recebeu uma visita muito animada:
– Bom dia, caro Macaco! – saudou, eufórico, o Jacaré – Concluí que temos de ser amigos.
– Estás maluco ou quê? – retorquiu o Macaco – Somos vizinhos e isso BASTA!
– Está aí um ponto que tenho de discordar contigo, Sr. Macaco…
– Mas discordar como, ó Jacaré? – interrompeu – Se tu és incapaz de trepar a mais baixa das árvores, que amigo hei-de ser para ti, eu que mal sei nadar? – refilou o Macaco.

A troca de argumentos continuou. E como era já meio-dia, o Macaco chegou até a pensar que tudo não passava de truques do Jacaré só para «patar» o almoço da família do outro.
– Não vale a pena! Não é possível juntar o que a natureza quer separado – disse o anfitrião.
– Não concordo, Macaco! Não é justo culpares a natureza, quando o que falta é vontade. Ao menos tenta! Eu fico na água, tu na árvore, e construímos uma amizade forte como a vida – propôs o Jacaré.

Nasceu ali mesmo o pacto da amizade. Passavam-se os dias e fortalecia-se a relação. E num desses dias, surgiu o Jacaré com o mesmo entusiasmo e uma proposta na manga:
– Amigo Macaco, é já tempo de conheceres a nossa residência.
– Não sei se é boa a ideia, amigo Jacaré. Para mim estava melhor assim: tu lá e nós cá.
– Macaco, Macaco, não é possível negar-nos esse privilégio. Ao menos tenta! A minha casa fica lá naquela pedra, ao meio do rio, e levo-te às costas. Como vês, é de fácil acesso.
– E o Macaco aceita, pesava-lhe a consciência desagradar um fiel amigo.

Chegados ao meio do rio, vem a surpresa:
– Bem, Macaco, sempre achei que entre amigos não deve haver segredos… A verdade é que a minha mãe está gravemente doente e o único remédio que a pode salvar é coração de Macaco. Foi por isso que te trouxe cá… E sinto-me, como bom amigo, na obrigação de contar-te.
– Ai ééééé!? – exclamou o Macaco numa pausa de meio minuto – Só isso? Que falasses mais cedo! É que agora estou sem coração por uma questão de boas maneiras. Porque nós, macacos, quando levamos o coração brincamos muito mal em casa alheia; pulamos p’ra cá e p’ra lá… e mesmo você e a ilustre família não iriam gostar. Agora mesmo, temos de voltar à árvore para buscar o coração. RÁPIDO!
– Juras, Macaco?
– Ainda duvidas? Juro por mim e pela vida da “nossa mãe”, que pode morrer se nos atrasarmos.

O Jacaré dá meia volta e regressa em alta velocidade. Mal chegam, o Macaco pula e grita:
– Já viste um animal sem coração? MATUMBO! Eu é que bruxei a tua mãe, p’ra me matares?

O Jacaré perdia um amigo e a mãe no mesmo dia. O Sr. Macaco salvou-se graças à inteligência na hora do perigo. Por isso, em Umbundu, macaco chama-se “Sima”. “Sima wasima olondunge vio’yovola” [o macaco pensou, o juízo o salvou].

Moral da estória (lembrando música das Jingas do Maculusso): “sê prudente. Nunca se sabe, afinal, o que se esconde no peito de quem te abraça”.

(*) Adaptado naquela (2008) altura para o programa “Aiué Sábado” da Rádio Morena por Gociante Patissa (ideia original de autor desconhecido)


Retirado de: Angola Debates e Ideias- G. Patissa