foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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11 de julho de 2013

AS SOBRAS DAS SOMBRAS



Faço de contas a fingir
que no nascente
do poente
o Sol brilha para mim também
e no além
brotam migalhas de justiça a florir.

Depois sonho com sombras
debaixo dum Sol escaldante
abomino as sobras
das sombras estranhas
me envias (in)complacente:
as sombras também são minhas!

Oh!, a chuva matinal
Deus enviou-me a chuva torrencial
sou dono das cargas d´água
e minha amargura desagua
na foz dum rio qualquer
na foz dum rio a entardecer.

Faço de contas a sonhar
que as melodias das ondas do mar
numa praia linda
da ilha da minha Kianda
cantam para mim entusiásticas
melodias eufóricas.

Oh o solo é meu, recebi de herança
é minha a esperança
perdida no chão de riquezas
(riqueza? Que riquezas? Pobrezas!)
é meu o solo rico que galgo
é meu o lamento triste que rogo.

Deus enviou-me o sol também
o Sol é meu
também as sombras
abomino as sobras
que do alto teu céu
me envias arrogante. Turbilhões de justiça no além!

Abomino os restos
recuso! Protesto meus protestos
as sobras. As sobras das sombras
que tua falsidade me grita
e envia hipócrita:
recuso as sobras!

As sombras. As sobras das sombras!


Luanda, 19 de Maio de 2006.

Décio Bettencourt Mateus


In Gente de Mulher 

10 de julho de 2013

MUNDIAL HÓQUEI EM PATINS - ANGOLA 2013




O campeonato decorrerá entre 20 e 28 de setembro de 2013.

GRUPOS

GRUPO

  • A   
  • B   
  • C   
  • D   

PARA REFLEXÃO


Isomar Pedro Gomes


Não se alcança a Liberdade buscando a Liberdade, mas sim a verdade, a Liberdade é a consequência desta.


Isomar Pedro Gomes


POEMA DE GOCIANTE PATISSA

Rio Catumbela (nova ponte)

É o próprio rio

Despir-me-ia à brisa
ao nível da sua nudez
azul interior

Ao aroma deste conforto
da afonia do provérbio
tudo é cibernético
também o pudor

Se a ponte estagna
virtude única
é o próprio rio
ou a massemba
ou o tambor.

Gociante Patissa,
in «Guardanapo de Papel», livro de poesia previsto para sair em 2013

Fábulas da nossa terra: HÁ MUITO JACARÉ POR AÍ (*)

Quis o destino que a família Macaco habitasse numa árvore na margem do rio Catumbela, onde seria fácil cuidar da higiene e a comida abundava.

Estava o Macaco a fazer a barba, numa bela manhã, quando recebeu uma visita muito animada:
– Bom dia, caro Macaco! – saudou, eufórico, o Jacaré – Concluí que temos de ser amigos.
– Estás maluco ou quê? – retorquiu o Macaco – Somos vizinhos e isso BASTA!
– Está aí um ponto que tenho de discordar contigo, Sr. Macaco…
– Mas discordar como, ó Jacaré? – interrompeu – Se tu és incapaz de trepar a mais baixa das árvores, que amigo hei-de ser para ti, eu que mal sei nadar? – refilou o Macaco.

A troca de argumentos continuou. E como era já meio-dia, o Macaco chegou até a pensar que tudo não passava de truques do Jacaré só para «patar» o almoço da família do outro.
– Não vale a pena! Não é possível juntar o que a natureza quer separado – disse o anfitrião.
– Não concordo, Macaco! Não é justo culpares a natureza, quando o que falta é vontade. Ao menos tenta! Eu fico na água, tu na árvore, e construímos uma amizade forte como a vida – propôs o Jacaré.

Nasceu ali mesmo o pacto da amizade. Passavam-se os dias e fortalecia-se a relação. E num desses dias, surgiu o Jacaré com o mesmo entusiasmo e uma proposta na manga:
– Amigo Macaco, é já tempo de conheceres a nossa residência.
– Não sei se é boa a ideia, amigo Jacaré. Para mim estava melhor assim: tu lá e nós cá.
– Macaco, Macaco, não é possível negar-nos esse privilégio. Ao menos tenta! A minha casa fica lá naquela pedra, ao meio do rio, e levo-te às costas. Como vês, é de fácil acesso.
– E o Macaco aceita, pesava-lhe a consciência desagradar um fiel amigo.

Chegados ao meio do rio, vem a surpresa:
– Bem, Macaco, sempre achei que entre amigos não deve haver segredos… A verdade é que a minha mãe está gravemente doente e o único remédio que a pode salvar é coração de Macaco. Foi por isso que te trouxe cá… E sinto-me, como bom amigo, na obrigação de contar-te.
– Ai ééééé!? – exclamou o Macaco numa pausa de meio minuto – Só isso? Que falasses mais cedo! É que agora estou sem coração por uma questão de boas maneiras. Porque nós, macacos, quando levamos o coração brincamos muito mal em casa alheia; pulamos p’ra cá e p’ra lá… e mesmo você e a ilustre família não iriam gostar. Agora mesmo, temos de voltar à árvore para buscar o coração. RÁPIDO!
– Juras, Macaco?
– Ainda duvidas? Juro por mim e pela vida da “nossa mãe”, que pode morrer se nos atrasarmos.

O Jacaré dá meia volta e regressa em alta velocidade. Mal chegam, o Macaco pula e grita:
– Já viste um animal sem coração? MATUMBO! Eu é que bruxei a tua mãe, p’ra me matares?

O Jacaré perdia um amigo e a mãe no mesmo dia. O Sr. Macaco salvou-se graças à inteligência na hora do perigo. Por isso, em Umbundu, macaco chama-se “Sima”. “Sima wasima olondunge vio’yovola” [o macaco pensou, o juízo o salvou].

Moral da estória (lembrando música das Jingas do Maculusso): “sê prudente. Nunca se sabe, afinal, o que se esconde no peito de quem te abraça”.

(*) Adaptado naquela (2008) altura para o programa “Aiué Sábado” da Rádio Morena por Gociante Patissa (ideia original de autor desconhecido)


Retirado de: Angola Debates e Ideias- G. Patissa

8 de julho de 2013

POEMA: RUY DUARTE DE CARVALHO


 
Namibe - Angola

A terra que te ofereço




I

quando,

ansiosa,

pela primeira vez

pisares

a terra que te ofereço,

estarei presente

para auscultar,

no ar,

a viração suave do encontro

da lua que transportas

com a sólida

e materna nudez do horizonte.



quando,

ansioso,

te vir a caminhar

no chão da minha oferta,

coloco,

brandamente,

em tuas mãos,

uma quinda de mel

colhido em tardes quentes

de irreversível

votação ao sul.



II

trago

para ti

em cada mão

aberta,

os frutos mais recentes

deste outono

que te ofereço verde:

o mês mais farto de óleos

e ternura avulsa.

e dou-te a mão

para que possas

ver,

mais confiante,

a vastidão

sonora

de uma aurora

elaborada em espera

e reflectida

na rápida torrente

que se mede em cor.



III

num mapa

desdobrado para ti,

eu marcarei

as rotas

que sei já

e quero dar-te:

o deslizar de um gesto,

a esteira fumegante

de um archote

aceso,

um tracejar

vermelho

de pés nus,

um corredor aberto

na savana,

um navegável mar de plasma

quente.




Ruy Duarte de Carvalho 

29 de junho de 2013

GOIABADA




Para minha Avó.



Em Tombua, do meu quintal de goiabeiras, minha avó fazia goiabada e eu sonhava goiabada era derramada todas as tardes ao crepúsculo de um sol papaia, pitanga, cajú maduro-madurinho a fimbar por trás de um risco de areia do Namibe, prendendo o mar, líquida goiabada, num suave abraço onde toninhas vinham brincar.



Namibiano Ferreira

28 de junho de 2013

SÓ HÁ UMA ARTE E MÁSCARA MWANA PWÓ


Máscara Tchokwé - Mwana Pwó


SÓ HÁ UMA ARTE


No jardim do diário
dos dias azuis de jasmim
só há uma Arte: – A Poesia!
Toda a Arte é poética,
toda a Arte é Poesia!
falando e comunicando
por diferentes pincéis
penas ritmos materiais
cinzéis cores ditirambos
ou no telúrico e místico
momento de um par
de mãos rudes e humanas
construindo na roda
uma peça de terracota;
ou um escultor tchokwé
talhando a expressão da alma
na madeira inerte da árvore:
a máscara de Mwana Pwó.



Namibiano Ferreira

Para saber mais sobre estas máscaras veja uma antiga postagem: 

27 de junho de 2013

SHOSHOLOZA - PARA O MADIBA

Uma cancao da África do Sul. Shosholoza, uma das muitas resistencias ao Apartheid!

Para Nelson Mandela, O Madiba.

26 de junho de 2013

FILIPE MUKENGA (MÚSICA) - ERNESTO LARA FILHO (POEMA)






Picada de Marimbondo

          (Para o Pila – companheiro de infância)

Junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo
cazuza!
Vinha zunindo
cazuza!

Era uma tarde em Janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

Cazuza!
Marimbondo
mordeu tua filha no olho!

Cazuza!
Marimbondo

foi branco que inventou...

Ernesto Lara Filho 

Biografia:


Poeta angolano, Ernesto Pires Barreto de Lara Filho nasceu a 2 de novembro de 1932, em , Angola. Era irmão da escritora Alda Lara.
Depois de concluir o ensino secundário, escolheu Portugal para continuar a sua formação académica, tendo terminado, em 1952, o curso de regenteagrícola, na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra.
Deambulando por vários países da Europa, trabalhou muitas vezes em restaurantes e na construção civil, como operário, para fazer às dificuldadeseconómicas.
Depois de uma estadia mais prolongada por terras da contracosta africana, em Moçambique, regressou a Angola.
Fixando-se em Luanda, aí exerceu o jornalismo, paralelamente com a sua atividade de quadro especializado dos serviços de Agricultura e Florestas deAngola.
Jornalista prestigiado, assinou diversas reportagens e crónicas no Jornal de Angola, na página "Artes e Letras" do jornal A Província de Angola, no Diário deLuanda, no ABC, na revista Mensagem da CEI (Casa dos Estudantes do Império) e na revista Cultura(II).
Antes da independência do seu país, foi preso pela PIDE (Polícia Política de Intervenção do Estado) devido à sua atividade política e cultural de apoio aomovimento independentista, apoio esse bem patente na sua escrita jornalística e literária.
Em colaboração com Rebello de Andrade, dirigiu a Coleçcão Bailundo da qual foram publicados três livros de poesia.
Tendo sido extinta pela mão repressiva do regime colonial a revista Mensagem (1951-1952), não foi destruído, contudo, o desejo de continuar a dar voz àsmanifestações de carácter nacionalista. Então fechadas as janelas abertas pelos "mensageiros" outras se abriram, de imediato, através da criação darevista Cultura II, publicada entre 1957 e 1961 e da qual foram publicados doze números.
Na verdade, esta geração, conhecida como a "Geração da Cultura", vai retomar e aprofundar as temáticas empenhadas dos seus antecessores,continuando a denúncia da escravidão e da miséria.
Integrado nesta corrente, Ernesto Lara Filho, como muitos outros intelectuais angolanos seus contemporâneos, vai constituir-se como um importante pilarna luta contra o domínio colonial.
Preocupado e empenhado com os problemas da sua terra, cada vez mais agudizados, o autor entende ser necessário criar as condições para que todospossam, através da palavra literária, do estudo, da análise e da crítica, equacionar a realidade angolana.
Através de uma escrita eufemística e caracterizada por uma simbiose do português padrão e do português dos musseques, Ernesto Lara Filho vaiconstruindo um edifício literário, assente nas traves mestras da angolanidade, enquanto produto de uma cultura viva e que vive das tradições africanas.
O reconhecimento da sua obra é consagrado pela presença de muitos dos seus textos em diversas antologias literárias, publicadas entre 1957 e 1976,entre as quais destacamos Antologia da Poesia Angolana (1957); O Corpo da Pátria - Antologia Poética da Guerra do Ultramar,1961-1971 (1971) e No Reinode Caliban. Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa (1976).
Poeta cofundador da União dos Escritores Angolanos, escreveu os seguintes títulos: Picada de Marimbondo(1961); O Canto de Martrindinde e OutrosPoemas Feitos no Puto (1964); Seripipi na Gaiola(1970); O Canto de Martrindinde (compilação das três obras anteriores, 1974).
As suas crónicas jornalísticas foram compiladas em 1990 sob o título Crónicas da Roda Gigante.
Um brutal acidente de viação, no Huambo, roubou-lhe a vida a 7 de fevereiro de 1977.

(Biografia retirada de http://www.infopedia.pt