foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

11 de abril de 2012

MONANGAMBA - POEMA & MÚSICA -



António Jacinto, (1924 - 1991) nasceu em Luanda, entre outros cargos foi Ministro da Cultura. O poeta é autor deste belo poema cantado e musicado por Ruy Mingas, um outro grande senhor da cultura angolana. 

Monangamba


Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

  O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:


Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
                      - "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

                         - "Monangambééé..."


ANTÓNIO JACINTO, in Poemas

5 de abril de 2012

DÉCADA DE PAZ 4 de Abril de 2002/2012


Na asa branca do ndele a PAZ anda voando década e, no entanto, nem todas as pazes foram feitas. Ainda há muitas reconciliações por fazer... Vamos fazer essas nossas pazes, reabilitar a memória de Viriato da Cruz e esclarecer o 27 de Maio de 1977, por exemplo.





PARA NUNCA MAIS A GUERRA


Viajando pelo vento dos tamarindeiros
procuro o secreto caminho
que há-de conduzir nossos passos
trôpegos e cansados
à glória de um Futuro brilhante.



Mas, ainda à sola dos nossos pés,
sujos e gretados
gruda-se o lodo informe dos mortos,
um lodo fétido gruda-se
também às nossas almas
rotas e cansadas.
Inda se ouvem os gritos
dos meninos amputados
das mulheres desventradas
e o lodo traz os tanques fantasmas,
cicatrizes disformes,
abandonados e queimados.
Caminhamos... devagar ainda
e os cemitérios de guerra
florescendo no altar dos nossos olhos
bordados de cruzes
no calcanhar triste da picada.
Vamos, irmão, esquecer o passado triste
mas num grito que não se cale nunca
para não fazer esquecer:


PARA NUNCA MAIS A GUERRA!


Namibiano Ferreira

2 de abril de 2012

PROVÉRBIO OVIMBUNDU

Indele visoneha olondaka v’amikanda, etu tuvisonehela v’olukolo. 



Bastao Cerimonial Ovimbundu


(Os brancos escrevem as questões nos livros, nós escrevemo-las no    
peito.)  





Provérbio Ovimbundu (Centro-Sul  de Angola)

21 de março de 2012

PAULO FLORES & CARLOS BURITY - POEMA DO SEMBA -

 
 
 
 


POEMA DO SEMBA
 
Hum... HumO semba semba é canto de AvenidaÉ chuva de primavera!!Semba é morte semba é vida
Hum... Hum
O semba semba é meu choro dolenteOlhar nossa vida de frenteSemba é suor semba é gente
O canto do sembaO canto do semba ele é nobreO canto do semba ele rico O canto do semba ele pobreO canto do semba ele rico O canto do semba ele pobre
O semba no morro O semba no morro é fogueiraO semba que trás liberdadeO semba da nossa bandeiraO semba que trás liberdadeO semba da nossa bandeira
Hum.. Hum...
O semba semba é canuco de ruaNa escola da vida ele cresceDe tanto apanhar se habituaNa escola da vida ele cresceDe tanto apanhar se habitua
A voz do meu semba A voz do meu semba urbano É a voz que me faz suportarOrgulho em ser angolanoÉ a voz que me faz suportarOrgulho em ser angolano
O semba é nossa alegria PauloO semba é a nossa bandeiraÉ esperança é amor
O Semba à tua maneira mucotaSemba é nossa bandeiraNossa forma de cantar
O Semba à tua maneira mucotaSemba é nossa bandeiraNossa forma de cantar
O semba semba é nossa alegria PauloO semba é a nossa bandeiraÉ esperança é amor




 

20 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 DE MARÇO


Aos dez anos de idade li o poema  A Mulemba Secou da autoria do poeta angolano, Aires de Almeida Santos. Foi o descobrir da Poesia de temática e raiz angolanas. Uma poesia que ecoava pela alma as vozes da terra. Mais tarde vieram Viriato da Cruz e Agostinho Neto, marcos importantes no meu “escrevinhar” poesia mas nunca consegui esquecer o dia primeiro em que li A Mulemba Secou. Quando mais tarde comecei a escrever, Aires de Almeida Santos estava, consciente e incosncientemente presente. Ele foi a minha fonte primária, a minha mais directa influência. Neste Dia Mundial da Poesia deixo aqui o poema que há mais de 40 anos me abriu o caminho da Luz e da Poesia:
Aires de Almeida Santos



A MULEMBA SECOU


No barro da rua,
Pisadas
Por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...


Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.


(De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.


De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir,
De olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feiticeiro Catimba.)


Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou também a alegria
Da miudagem do bairro:


O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.
E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.


Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...


Só o velho Camalundo
Sorri ao passar por lá!...


Aires de Almeida Santos
(Meu Amor da Rua Onze)

5 de março de 2012

O PERFUME DAS CHUVAS


Para Midori, a minha netinha!

Quase no final das chuvas e eu choro os desbarulhos da saudade das chuvas futuras que hão-de vir depois do comprido cacimbo.

Em África, as chuvas recriam a vida como se caissem no primeiro dia do Génesis.  A cada ano, quando tamborilam as primeiras chuvas, há uma musicalidade mística que habita a alma das gentes. As chuvas trazem um sentido virgem e puro como se o Mundo  acabasse de ser inventado.

Aqui, na Europa, as chuvas são simplesmente chuvas, água sem alma, caindo morta e sem um sentido profético de renovação. Não há aquele odor vivo, incaracterístico das chuvas a beijar o chão seco e quente no início de cada estação. A chuva não casa com a terra.

Em África, quando o sémen  dos Deuses chove sobre a terra,  liberta-se um perfume fresco e telúrico de fartura cozinhada que se come, que se bebe e se respira como se cada pessoa fosse moldada no barro húmido da terra.

Namibiano Ferreira
Março 2012

22 de fevereiro de 2012

HOUVE UM TEMPO NA BAIXA DE KASSANJE


Na Baixa de Kassanje...
Houve um tempo
na Baixa de Kassanje
em que o algodão
branco
era roxo de fome
e sangue...
houve um tempo
de morte e revolta
na Baixa de Kassanje

as lavras
- dizem os mais-velhos -
cheiravam a kimbos queimados

e napalm....

Namibiano Ferreira

Colheita do algodao

Uma breve palavra sobre o que foi a Revolta da Baixa de Kassanje (província de Malanje - Angola):

A 4 de Janeiro de 1961, mais de mil camponeses da ex-Companhia de Algodão de Angola (Cotonang), foram barbaramente assassinados pelo exército colonial português ao exigirem a isenção de pagamento de impostos e a abolição do trabalho forçado.
Os acontecimentos, que se estenderam a toda a região da Baixa de Kassanje até Março do mesmo ano, envolveram milhares de tropas e policias, que chegaram a utilizar a aviação para reprimir os manifestantes. Dizem também que napalm...

15 de fevereiro de 2012

MUXIMA - DON KIKAS & TITO PARIS

Santuário de Nossa  Senhora da Muxima - Angola


Esta música é um hino no coracao (muxima) dos angolanos.

29 de janeiro de 2012

OS NYANEKA-HUMBI



Os Nyaneka-Humbi  

Essencialmente criadores e pastores de gado mas também agricultores, os nyaneka-humbi encontram-se confinados à província da Huíla. Embora ligados aos Ovimbundu, contrariamente a estes, os Nyaneka-Humbi são fechados e pouco flexíveis. O tipo de alimentação destas populações pastoris é a base de leite e de farinha duma variedade de cereal designada massango. Tal como os agricultores do norte do país, os terrenos de cultivo não constituem propriedade individual. “O mesmo, aliás, se observa nos restantes povos criadores. Também os pastos são comuns. Averiguamos, no entanto, entre os Humbes, uma organização do espaço verdadeiramente notável”, diz-nos José Redinha.
Segundo Fernando Neves, em 1960, os Nyaneka-Humbi aproximavam-se dos 129 mil habitantes, dos quais 100 mil eram Nyaneka. Considera-se que os Nyaneka sejam dos mais antigos ocupantes da região, seguindo-se os Humbi. “A região dos Humbes foi atingida pela invasão dos Hotentotes do Sudoeste Africano (actual Namíbia), que levou as suas incursões até às margens do Cunene, a partir do ano de 1881”.  O esquema sociopolítico dos Humbi apresenta um tipo de autoridade difundida no grupo que é orientada pelos chefes simples ou por alguns seculo (mais idosos) e ainda por criadores de gado mais importantes, segundo o princípio do primus inter pares. 
Redinha refere também que “no plano cultural expressam, à semelhança dos Ambos e dos Hereros, influências da cultura camita oriental, levada até ao Cunene pelas migrações dos pastores camíticos do Nordeste Africano. A essa tradição se liga a instituição do ‘gado sagrado’ nela incluída o cortejo do “boi sagrado”, tido como reminiscência do culto do boi Ápis dos velhos altares do Nilo, anualmente praticado entre Nhanhecas”. 
Do ponto de vista artístico, os Humbi cultivam o adorno do corpo e curiosos penteados, produzindo vestuários e ornatos de natureza diversa, incluindo a confecção de pulseiras metálicas cuidadosamente gravadas.
Na vida social dos Nyaneka-Humbi realizam-se ritos de puberdade feminina e nos actos divinatórios praticam o aruspício. “Os arúspices eram sacerdotes romanos que faziam prognósticos consultando as entranhas das vítimas”. Ainda de acordo com José Redinha, na sua obra de investigação intitulada “Etnias e Culturas de Angola”, editada, em Luanda, em 1974, “os Humbes revelam ao observador a existência de uma elite de tipo evoluído que se mostra dotada duma notável inteligência prática”.
Os belos penteados das senhoras Nyaneka-Humbi

Variantes Linguísticas

Vatomene Kukanda refere-se a nove variantes linguísticas, que abrangem, sobretudo, a província da Huíla e também uma parte da província do Cunene. Na província da Huíla: o mwila, o ngambo, o humbi, o huanda (mupa), o handa (cipungu), o cipungu, o cilenge-humbi e o cilenge-muso. Na província do Cunene: o humbi, o ndongwela, o hinga e o konkwa. 

Filipe Zau, Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais
Retirado de Jornal de Angola (02 Fev. 2010)