foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

20 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 DE MARÇO


Aos dez anos de idade li o poema  A Mulemba Secou da autoria do poeta angolano, Aires de Almeida Santos. Foi o descobrir da Poesia de temática e raiz angolanas. Uma poesia que ecoava pela alma as vozes da terra. Mais tarde vieram Viriato da Cruz e Agostinho Neto, marcos importantes no meu “escrevinhar” poesia mas nunca consegui esquecer o dia primeiro em que li A Mulemba Secou. Quando mais tarde comecei a escrever, Aires de Almeida Santos estava, consciente e incosncientemente presente. Ele foi a minha fonte primária, a minha mais directa influência. Neste Dia Mundial da Poesia deixo aqui o poema que há mais de 40 anos me abriu o caminho da Luz e da Poesia:
Aires de Almeida Santos



A MULEMBA SECOU


No barro da rua,
Pisadas
Por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...


Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.


(De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.


De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir,
De olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feiticeiro Catimba.)


Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou também a alegria
Da miudagem do bairro:


O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.
E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.


Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...


Só o velho Camalundo
Sorri ao passar por lá!...


Aires de Almeida Santos
(Meu Amor da Rua Onze)

5 de março de 2012

O PERFUME DAS CHUVAS


Para Midori, a minha netinha!

Quase no final das chuvas e eu choro os desbarulhos da saudade das chuvas futuras que hão-de vir depois do comprido cacimbo.

Em África, as chuvas recriam a vida como se caissem no primeiro dia do Génesis.  A cada ano, quando tamborilam as primeiras chuvas, há uma musicalidade mística que habita a alma das gentes. As chuvas trazem um sentido virgem e puro como se o Mundo  acabasse de ser inventado.

Aqui, na Europa, as chuvas são simplesmente chuvas, água sem alma, caindo morta e sem um sentido profético de renovação. Não há aquele odor vivo, incaracterístico das chuvas a beijar o chão seco e quente no início de cada estação. A chuva não casa com a terra.

Em África, quando o sémen  dos Deuses chove sobre a terra,  liberta-se um perfume fresco e telúrico de fartura cozinhada que se come, que se bebe e se respira como se cada pessoa fosse moldada no barro húmido da terra.

Namibiano Ferreira
Março 2012

22 de fevereiro de 2012

HOUVE UM TEMPO NA BAIXA DE KASSANJE


Na Baixa de Kassanje...
Houve um tempo
na Baixa de Kassanje
em que o algodão
branco
era roxo de fome
e sangue...
houve um tempo
de morte e revolta
na Baixa de Kassanje

as lavras
- dizem os mais-velhos -
cheiravam a kimbos queimados

e napalm....

Namibiano Ferreira

Colheita do algodao

Uma breve palavra sobre o que foi a Revolta da Baixa de Kassanje (província de Malanje - Angola):

A 4 de Janeiro de 1961, mais de mil camponeses da ex-Companhia de Algodão de Angola (Cotonang), foram barbaramente assassinados pelo exército colonial português ao exigirem a isenção de pagamento de impostos e a abolição do trabalho forçado.
Os acontecimentos, que se estenderam a toda a região da Baixa de Kassanje até Março do mesmo ano, envolveram milhares de tropas e policias, que chegaram a utilizar a aviação para reprimir os manifestantes. Dizem também que napalm...

15 de fevereiro de 2012

MUXIMA - DON KIKAS & TITO PARIS

Santuário de Nossa  Senhora da Muxima - Angola


Esta música é um hino no coracao (muxima) dos angolanos.

29 de janeiro de 2012

OS NYANEKA-HUMBI



Os Nyaneka-Humbi  

Essencialmente criadores e pastores de gado mas também agricultores, os nyaneka-humbi encontram-se confinados à província da Huíla. Embora ligados aos Ovimbundu, contrariamente a estes, os Nyaneka-Humbi são fechados e pouco flexíveis. O tipo de alimentação destas populações pastoris é a base de leite e de farinha duma variedade de cereal designada massango. Tal como os agricultores do norte do país, os terrenos de cultivo não constituem propriedade individual. “O mesmo, aliás, se observa nos restantes povos criadores. Também os pastos são comuns. Averiguamos, no entanto, entre os Humbes, uma organização do espaço verdadeiramente notável”, diz-nos José Redinha.
Segundo Fernando Neves, em 1960, os Nyaneka-Humbi aproximavam-se dos 129 mil habitantes, dos quais 100 mil eram Nyaneka. Considera-se que os Nyaneka sejam dos mais antigos ocupantes da região, seguindo-se os Humbi. “A região dos Humbes foi atingida pela invasão dos Hotentotes do Sudoeste Africano (actual Namíbia), que levou as suas incursões até às margens do Cunene, a partir do ano de 1881”.  O esquema sociopolítico dos Humbi apresenta um tipo de autoridade difundida no grupo que é orientada pelos chefes simples ou por alguns seculo (mais idosos) e ainda por criadores de gado mais importantes, segundo o princípio do primus inter pares. 
Redinha refere também que “no plano cultural expressam, à semelhança dos Ambos e dos Hereros, influências da cultura camita oriental, levada até ao Cunene pelas migrações dos pastores camíticos do Nordeste Africano. A essa tradição se liga a instituição do ‘gado sagrado’ nela incluída o cortejo do “boi sagrado”, tido como reminiscência do culto do boi Ápis dos velhos altares do Nilo, anualmente praticado entre Nhanhecas”. 
Do ponto de vista artístico, os Humbi cultivam o adorno do corpo e curiosos penteados, produzindo vestuários e ornatos de natureza diversa, incluindo a confecção de pulseiras metálicas cuidadosamente gravadas.
Na vida social dos Nyaneka-Humbi realizam-se ritos de puberdade feminina e nos actos divinatórios praticam o aruspício. “Os arúspices eram sacerdotes romanos que faziam prognósticos consultando as entranhas das vítimas”. Ainda de acordo com José Redinha, na sua obra de investigação intitulada “Etnias e Culturas de Angola”, editada, em Luanda, em 1974, “os Humbes revelam ao observador a existência de uma elite de tipo evoluído que se mostra dotada duma notável inteligência prática”.
Os belos penteados das senhoras Nyaneka-Humbi

Variantes Linguísticas

Vatomene Kukanda refere-se a nove variantes linguísticas, que abrangem, sobretudo, a província da Huíla e também uma parte da província do Cunene. Na província da Huíla: o mwila, o ngambo, o humbi, o huanda (mupa), o handa (cipungu), o cipungu, o cilenge-humbi e o cilenge-muso. Na província do Cunene: o humbi, o ndongwela, o hinga e o konkwa. 

Filipe Zau, Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais
Retirado de Jornal de Angola (02 Fev. 2010)



25 de janeiro de 2012

MARCELA COSTA - PINTORA






Marcela Costa

Tecelã e pintora, Marcela Martins Costa nasceu em Setembro de 1957, em Golungo Alto, na província do Kwanza Norte, em Angola.
Depois de concluir o curso de Artes Visuais na Escola Industrial de Luanda, foi convidada por um dos seus professores, o pintor Viteix (Vítor Teixeira), para integrar um projecto de desenvolvimento cultural, que se encontrava a cargo do Conselho Nacional da Cultura. Posteriormente, trabalhou como desenhadora no Departamento Nacional de Museus e Monumentos e, em seguida, fez diversos cursos de tecelagem artística e de serigrafia na Suécia e no Brasil. Em1995, criou o Atelier de Artes Marcela Costa.
Realizou várias exposições, a nível individual e colectivo, em países como Reino Unido, Brasil, França, Zimbabwe, Estados Unidos, Zâmbia, África do Sul, entre outros. Em 2002, inaugurou uma exposição, cujo tema foi "Arte Mulher-Angola 25 anos". Nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de Artes Plásticas.
Marcela Costa utiliza, nas suas criações, materiais como tecido, areia, estampas aplicadas, texturas naturais, em formas preferencialmente curvas que traduzem uma expressão no feminino e uma proximidade à terra.

24 de janeiro de 2012

POEMAS DE AGOSTINHO NETO (LINK)


Siga este link: http://www.agostinhoneto.org/index.php?option=com_content&view=section&id=14&Itemid=202 e terá acesso a toda a poesia do grande poeta e pai da pátria angolana, Dr. Agostinho Neto.

– Eis as nossas mãos
Abertas para a fraternidade do mundo
Pelo futuro do mundo
Unidas na certeza
Pelo direito pela concórdia pela Paz.

Agostinho Neto, in Sagrada Esperança


LONG WALK TO FREEDOM - Nelson Mandela


Quase como uma Bíblia, eu diria, e sem blasfemar, retorno várias vezes ao ano a este livro: LONG WALK TO FREEDOM (Longo Caminho para a Liberdade) de  Nelson Mandela que devia ser de leitura obrigatória nas escolas do mundo inteiro. Do original em inglês eis algumas citações, ao acaso:
File:Long Walk to Freedom.jpg
No one is born hating another person because of the colour of his skin, or his background, or his religion. People must learn to hate, and if they can learn to hate, they can be taught to love, for love comes more naturally to the human heart than its opposite.
"Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto."

No one truly knows a nation until one has been inside its jails. A nation should not be judged by how it treats its highest citizens but its lowest ones.
"Ninguém verdadeiramente conhece uma nação até estar dentro das suas prisões. Uma nação não deve ser julgada como trata os seus cidadãos mais respeitados mas os de mais baixa condição."

I detest racialism because I regard it as a barbaric thing, whether it comes from a black man or a white man.
"Detesto o racialismo porque o vejo como uma coisa bárbara, venha ele de um homem negro ou de um homem branco."

A man who takes away another man’s freedom is a prisoner of hatred, he is locked behind the bars of prejudice and narrow-mindedness. I am not truly free if I am taking away someone else’s freedom, just as surely as I am not free when my freedom is taken from me. The oppressed and the oppressor alike are robbed of their humanity…. For to be free is not merely to cast off one’s chains, but to live in a way that respects and enhances the freedom of others.
"O homem que tira a liberdade de outro homem, é um prisioneiro do ódio, está aprisionado atrás das barras do preconceito e da estreiteza de espírito. Não sou completamente livre se tirar a liberdade de outrém e, concerteza, também não sou livre quando a minha liberdade me é retirada. Tanto o oprimido quanto o opressor são roubados da sua humanidade... Para ser livre não basta apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que se respeite e melhore a liberdade dos outros."

The curious beauty of African music is that it uplifts even as it tells a sad tale. You may be poor, you may have only a ramshackle house, you may have lost your job, but that song gives you hope… [African music] can ignite the political resolve of those who might otherwise be indifferent to politics.
"A curiosa beleza da música africana é que ela dignifica e ainda nos conta uma história triste. Podes ser pobre, podes viver num casebre, podes estar desempregado, contudo, essa canção dá-te esperança... [a música africana] pode inflamar a vontade política daqueles que poderiam ser indiferentes à política."


Long Walk to Freedom by Nelson Mandela, O Madiba.