20 de setembro de 2010
12 de setembro de 2010
LUBANGO
Lubango - Estátua da Liberdade
No Lubango, hoje, o tempo é o que é e eu não estou no Lubango.
No Lubango, num dia de chorosa chuvada, trovoada e flashes de relâmpagos,
recordo as bátegas grossas, tão grossas como se fossem permanentes tubos transparentes ligando o céu e a terra, num místico beijo do suor divino.
O dilúvio abatia-se sobre o mundo! E os homens esperavam complacentes
vórtice de uma paciencia africana e milenar enquanto nas matas a promessa...
Para além disto, o Lubango é sempre os versos de um poema de Viriato da Cruz:
policromias, fulgências, feitios e transparências
de um pratinho de louça
de Rouen.
Namibiano Ferreira
In Frag/men/sias - Fragmensia de Lembranças . antigas .
1998
Lubango - Cristo Rei
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7 de setembro de 2010
CARTA DE MARTIN LUTHER KING A UMA ANGOLANA (Deolinda Rodrigues de Almeida)
Foto Jornal de Angola (on line)
No dia 21 de Julho de 1959, da cidade de Montgomery, no Alabama, Martin Luther King escrevia à heroína angolana:
Senhorita Deolinda Rodrigues
Muito lhe agradeço pela sua muito amável carta, de data recente. Li cada linha que me escreveu com grande interesse. É realmente encorajador saber do seu interesse na libertação do povo do seu país. Estou bastante contente em receber informação em primeira-mão sobre a situação em Angola. Tive notícias a partir de outras pessoas que vivem fora do país, mas não há nada melhor do que receber notícia em primeira-mão.
Parece que os portugueses são as pessoas mais lentas a largar mão das suas possessões em territórios estrangeiros. É lamentável que lhes falte a visão para se aperceberem do que está traçado para esses territórios. É sempre trágico ver um indivíduo ou uma nação tentando impedir ou parar uma irresistível onda.
Criar uma liderança
Não sei se posso dar-lhe alguma sugestão concreta sobre o que fazer na vossa particular situação, pois muitas vezes é necessário ver com os próprios olhos antes de poder dar uma resposta definitiva. Direi, contudo, que o primeiro passo para corrigir a situação é criar uma verdadeira liderança no seu País. Alguma entidade ou algumas poucas entidades devem posicionar-se como símbolos do vosso movimento para a independência.
Logo que tal símbolo seja encontrado não é difícil conseguir que as pessoas o sigam e quanto mais o opressor procurar deter e derrotar esse símbolo, tanto mais ele consolidará o movimento. Seria maravilhoso regressar ao seu país com esta ideia na mente A liberdade nunca é alcançada sem sofrimento e sacrifício. Só se conquista com trabalho persistente e incansáveis esforços de pessoas dedicadas.
A senhorita Deolinda Rodrigues deve também saber que aquilo que vem acontecendo noutros países de África terá inevitavelmente repercussões no seu país. Será impossível Angola permanecer em África, sem ser afectada por aquilo que acontece na Nigéria, no Quénia e na Rodésia (referia-se à Zâmbia, então chamada Rodésia do Norte). Portanto, a vossa verdadeira esperança reside no facto de que a independência será uma realidade em toda a África, dentro dos próximos anos.
Dirijo à senhorita Deolinda Rodrigues as minhas orações e os melhores votos de bênçãos de Deus, em tudo o que estiverem a fazer. Espero que os seus estudos continuem de maneira a serem frutíferos e compensadores.
Em encomenda separada envio-lhe um exemplar do meu livro “Stride Toward Freedom”. Queira aceitá-lo como oferta minha. Espero que lhe venha a ser útil este meu humilde trabalho.
Muito sinceramente, me subscrevo
Martin Luther King, Jr.
Visão política
O reverendo Martin Luther King revela nesta carta uma visão política fora do comum. Tudo o que afirmou a Deolinda Rodrigues, então ainda jovem estudante no exílio, aconteceu. As independências nas antigas colónias de África sucederam-se em alta velocidade e, na verdade, só ficaram para o fim as antigas colónias portuguesas, porque uma ditadura feroz se convenceu de que era possível travar a imparável onde de liberdade que varreu o continente africano.
- Esta carta de Martin Luther King a Deolinda Rodrigues foi “descoberta” por Loide Ana Santos e o embaixador Ismael Martins, que a fizeram chegar à família através do deputado Roberto de Almeida, vice-presidente do MPLA.
Breve nota sobre Deolinda Rodrigues de Almeida, mais conhecida por Deolinda Rodrigues:
Deolinda Rodrigues de Almeida e as suas companheiras Irene Cohen, Engrácia Paim, Lucrécia dos Santos e Teresa Afonso, na luta contra o colonialismo português foram incorporadas como combatentes do Esquadrão Kamy, coluna guerrilheira preparada e treinada em 1966 por internacionalistas cubanos e cuja arriscada missão consistia em levar reforços desde a fronteira congolesa até à Primeira Região Político-Militar do MPLA. No interior de Angola, numa longa e penosa marcha, em zona de terra queimada, o Esquadrão perdeu-se, e a fome dizimou uma grande parte dos combatentes, especialmente dos quadros.
Deolinda e as suas quatro companheiras, dirigentes da OMA (Organização da Mulher Angolana), sobreviveram à inclemência das condições climatéricas e do terreno inóspito. Empreenderam o regressando via Zaire (hoje RDC), foram presas, nos arredores da pequena vila de Kamuna, pela FNLA e posteriormente assassinadas. O dia da sua detenção – 2 de Março de 1966 – foi consagrado Dia da Mulher Angolana.
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4 de agosto de 2010
E AINDA O COMBOIO-MALA...
Em postagem neste blog (http://poesiangolana.blogspot.com/2010/06/ver-o-comboio-mala-chegar.html) sobre o poema “Ver o Comboio-Mala Chegar” o poeta angolano, Décio Bettencourt Mateus, fez o seguinte comentário: Essas pinturas poéticas desses tempos, mano, semi-nostálgicas e semi-alegres são d'encantamentos poéticos.
Pois concerteza que são, meu amigo e poeta, concerteza que são... mas o comboio-mala também inspirou outras situações menos alegres, mais duras e de uma realidade que me mostrou, desde muito cedo, que eu nasci e vivia em um país cativo. Aqui fica um outro poema para um outro dia de domingo, embora hoje não seja domingo, todos os dias são, infelizmente, dias em que se estrangula a LIBERDADE.
Luau em 1963 - foto do blog: joanfuba.blogspot.com
DIFERENÇAS DE DOMINGO
Eu vi a luz em um país cativo
muito cedo dei por isso
e não o soube explicar
quando pedi
remeteram-me para o mar:
silêncio mortal sem boca a marulhar...
Na suave verdura do tempo, oito eram as brisas soando sobre meu corpo.
Desse tempo antigo, ternura de mulemba e moleque, hei-de sempre lembrar
os olhos brancos assustados do homem atirado na gare ao pontapé, ao encontrão,
a tropeçar de mãos agrilhoadas. Não lembro a sua fisionomia, a sua estatura,
nem o que trazia vestido e muito menos sei o seu nome. Jamais o saberei!
No entanto, triste paradoxo, sei que era Domingo. E desse Domingo sei unicamente
o homem negro algemado e assustado nos olhos todos brancos, atirado como Cristo, sobre o chão da gare quando a grazine chegou naquela tarde de Domingo e antes da entrada triunfal do comboio-mala na estação do que era o Luau do outro tempo.
Vozes ciciadas murmuravam: Um turra! Um turra! E atrás, no pontapé, no encontrão,
na brutalidade gratuíta, três, quatro, cinco já não sei quantos soldados portugueses satisfeitos. Nesse Domingo, num ano qualquer da graça, houve um Domingo
de todas as diferenças, na memória das lembranças, só me ficaram os olhos verdadeiramente brancos de um homem simplesmente um homem anónimo
fazendo pensar minha cabeça ainda sem saber pensar e distinguir a razão
de existirem domingos diferentes, ciciados e algemados na flor dos dias
num grito azul desejo Liberdade e anseios de plena Igualdade.
Namibiano Ferreira,
in FRAG/MEN/SIAS
Fragmensia de Lembranças . antigas .
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2 de agosto de 2010
KAMUSOSO
Malembe, malembelembe*
toc toc toc...
Ngana Mbaxi**
carrega o mundo nas costas
toc toc toc...
malembe, malembelembe.
E voando, Ngana Piápia,***
voando a noite ao sol,
passa só a gritar:
piá piá piá...
– Onde está a outra metade?
piá piá piá...
– Onde está a outra metade?
Ngana Mbaxi fica só a calar
e toc toc toc...
carrega o mundo nas costas
malembe, malembelembe
toc toc toc...
Namibiano Ferreira
* Devagar, devagarinho.
** Senhora Tartaruga
*** Senhora Andorinha.
Kamusoso - Pequeno conto.
(Inspirado em Parábola do Cágado Velho, de Pepetela)
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14 de julho de 2010
27 de junho de 2010
REGRESSAR DE NOVO
Foto de Tonspi (Angola)
Partir no rio de Kalungangombe*
e, depois, quando voltar de novo,
hei-de vir montado na garupa
viva das boiadas andarilhas
pele a cantar ngomangombe**
levantando no peito do ar
um mar de poeiras a festejar
e eu, calçando meus nonkakos,***
serei um pastor Ovakuvale****
conduzindo meus bois
na árida oferta da terra Namibe.
Namibiano Ferreira
* Aglutinação de duas palavras: kalunga + ngombe (boi). Neste sentido é um ente espiritual que acolhe o espírito dos mortos no outro mundo.
** Ngoma (tambor) e ngombe (boi), aglutinacao feita pelo autor.
*** Sandálias feitas com pneus de automóveis e usadas pelo povo mukubal e outros do deserto.
**** Povo (mucubal, kuvale) do deserto do Namibe do grupo etno-linguístico dos Hereros/Helelos, idioma Tchiherero.
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23 de junho de 2010
VER O COMBOIO-MALA CHEGAR
Comboio-mala CFB (foto Mukandas do Monte Estoril)
Trapos de vento falam no ar
lembranças do antigamente,
tempo antigo de moleque
quando todo o domingo
era um dia de festana estação esperar o comboio-mala chegar
a Vila Teixeira de Sousa*.
Era tudo sempre igual, sempre igual...
kama-kove, kama-kove, kama-kove, úuu...
uma triste monotonia de um fúnji sem muamba
mas se não fosse esperar o comboio-mala chegar
para mim, moleque de outro tempo,
domingo jamais seria esse dia!
Namibiano Ferreira
* Actualmente: Luau.
Poema publicado no livro Rumo ás Terras que Brilham: Lundas, roteiro que acompanha o 5 Raid TT Kwanza Sul.
Sobre o Raid veja a postagem: http://poesiangolana.blogspot.com/2010/06/quinto-raid-tt-kwanza-sul.html
15 de junho de 2010
1975 - MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DO MPLA
A Revolucao murchou, o POVO continua minguado e nunca ordenou coisa nenhuma. Desses tempos em que se construiam nobres ideais ficaram muitas coisas... Umas más outras belas, como estas duas cancoes que andavam na boca de toda a gente. E temos que ser sinceros, a música revolucionária do MPLA, para além de uma excelente qualidade musical e intelectual, eram armas que chegavam a por os partidários da UNITA e da FNLA a cantar estas mesmas cantigas. Estes dois movimentos nao conseguiam nem chegar aos calcanhares da propaganda musical do MPLA. Deixo-vos com saudades dos meus 15 anos estes dois vídeos.
Ngola Ritimos e a voz de Santocas, em 1975 - Poder Popular
Novamente a voz de Santocas, homenagem ao Comandante Valódia (Herói do Massacre de Kifangondo)
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Música Revolucionária (MPLA)
14 de junho de 2010
NAVEGAR
Kissanje
Os dedos dedilham
harpas ou kissanjes
espírito eterno e palavras.
Eu não sei realmente
quem os comanda
e a poesia navega
por entre velames de mim
e dos muitos barcos
distintos onde aportei
naveguei o mesmo mar
antigo mas de périplos
sempre distintos.
Depois de cada desembarque
escolho um outro barco
para nele voltar a navegar
por entre velames de mim
-dedilhando harpas ou kissanges-
solto dedos eternos e poesia...
Namibiano Ferreira
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