foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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4 de agosto de 2010

E AINDA O COMBOIO-MALA...

Em postagem neste blog (http://poesiangolana.blogspot.com/2010/06/ver-o-comboio-mala-chegar.html) sobre o poema “Ver o Comboio-Mala Chegar” o poeta angolano, Décio Bettencourt Mateus, fez o seguinte comentário: Essas pinturas poéticas desses tempos, mano, semi-nostálgicas e semi-alegres são d'encantamentos poéticos.

Pois concerteza que são, meu amigo e poeta, concerteza que são... mas o comboio-mala também inspirou outras situações menos alegres, mais duras e de uma realidade que me mostrou, desde muito cedo, que eu nasci e vivia em um país cativo. Aqui fica um outro poema para um outro dia de domingo, embora hoje não seja domingo, todos os dias são, infelizmente, dias em que se estrangula a LIBERDADE.


Luau em 1963 - foto do blog: joanfuba.blogspot.com


DIFERENÇAS DE DOMINGO



Eu vi a luz em um país cativo
muito cedo dei por isso
e não o soube explicar
quando pedi
remeteram-me para o mar:
silêncio mortal sem boca a marulhar...

Na suave verdura do tempo, oito eram as brisas soando sobre meu corpo.
Desse tempo antigo, ternura de mulemba e moleque, hei-de sempre lembrar
os olhos brancos assustados do homem atirado na gare ao pontapé, ao encontrão,
a tropeçar de mãos agrilhoadas. Não lembro a sua fisionomia, a sua estatura,
nem o que trazia vestido e muito menos sei o seu nome. Jamais o saberei!
No entanto, triste paradoxo, sei que era Domingo. E desse Domingo sei unicamente
o homem negro algemado e assustado nos olhos todos brancos, atirado como Cristo, sobre o chão da gare quando a grazine chegou naquela tarde de Domingo e antes da entrada triunfal do comboio-mala na estação do que era o Luau do outro tempo.
Vozes ciciadas murmuravam: Um turra! Um turra! E atrás, no pontapé, no encontrão,
na brutalidade gratuíta, três, quatro, cinco já não sei quantos soldados portugueses satisfeitos. Nesse Domingo, num ano qualquer da graça, houve um Domingo
de todas as diferenças, na memória das lembranças, só me ficaram os olhos verdadeiramente brancos de um homem simplesmente um homem anónimo
fazendo pensar minha cabeça ainda sem saber pensar e distinguir a razão
de existirem domingos diferentes, ciciados e algemados na flor dos dias
num grito azul desejo Liberdade e anseios de plena Igualdade.

Namibiano Ferreira,
in FRAG/MEN/SIAS
Fragmensia de Lembranças . antigas .

2 de agosto de 2010

KAMUSOSO


Malembe, malembelembe*
toc toc toc...
Ngana Mbaxi**
carrega o mundo nas costas
toc toc toc...
malembe, malembelembe.
E voando, Ngana Piápia,***
voando a noite ao sol,
passa só a gritar:
piá piá piá...
– Onde está a outra metade?
piá piá piá...
– Onde está a outra metade?

Ngana Mbaxi fica só a calar
e toc toc toc...
carrega o mundo nas costas
malembe, malembelembe
toc toc toc...

Namibiano Ferreira

* Devagar, devagarinho.
** Senhora Tartaruga
*** Senhora Andorinha.
Kamusoso - Pequeno conto.

(Inspirado em Parábola do Cágado Velho, de Pepetela)

14 de julho de 2010

ENCRUZILHADA


E no desmaio dos dias
lúcidos de loucura
procuro o momento
navalha que não perdi...

A lógica pútrida
que passa
é filha de um tempo
marxista
vestindo agora
nos lobbies do poder
as marcas capitalistas.

Namibiano Ferreira

27 de junho de 2010

REGRESSAR DE NOVO

Foto de Tonspi (Angola)


Partir no rio de Kalungangombe*
e, depois, quando voltar de novo,
hei-de vir montado na garupa
viva das boiadas andarilhas
pele a cantar ngomangombe**
levantando no peito do ar
um mar de poeiras a festejar
e eu, calçando meus nonkakos,***
serei um pastor Ovakuvale****
conduzindo meus bois
na árida oferta da terra Namibe.


Namibiano Ferreira




* Aglutinação de duas palavras: kalunga + ngombe (boi). Neste sentido é um ente espiritual que acolhe o espírito dos mortos no outro mundo.
** Ngoma (tambor) e ngombe (boi), aglutinacao feita pelo autor.
*** Sandálias feitas com pneus de automóveis e usadas pelo povo mukubal e outros do deserto.
**** Povo (mucubal, kuvale) do deserto do Namibe do grupo etno-linguístico dos Hereros/Helelos, idioma Tchiherero.

23 de junho de 2010

VER O COMBOIO-MALA CHEGAR




Comboio-mala CFB (foto Mukandas do Monte Estoril)

Trapos de vento falam no ar
lembranças do antigamente,
tempo antigo de moleque
quando todo o domingo
era um dia de festa
na estação esperar o comboio-mala chegar
a Vila Teixeira de Sousa*.
Era tudo sempre igual, sempre igual...
kama-kove, kama-kove, kama-kove, úuu...
uma triste monotonia de um fúnji sem muamba
mas se não fosse esperar o comboio-mala chegar
para mim, moleque de outro tempo,
domingo jamais seria esse dia!

Namibiano Ferreira
 
* Actualmente: Luau.

Poema publicado no livro Rumo ás Terras que Brilham: Lundas, roteiro que acompanha o 5 Raid TT Kwanza Sul.
 
 

15 de junho de 2010

1975 - MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DO MPLA



A Revolucao murchou, o POVO continua minguado e nunca ordenou coisa nenhuma. Desses tempos em que se construiam nobres ideais ficaram muitas coisas... Umas más outras belas, como estas duas cancoes que andavam na boca de toda a gente. E temos que ser sinceros, a música revolucionária do MPLA, para além de uma excelente qualidade musical e intelectual, eram armas que chegavam a por os partidários da UNITA e da FNLA a cantar estas mesmas cantigas. Estes dois movimentos nao conseguiam nem chegar aos calcanhares da propaganda musical do MPLA. Deixo-vos com saudades dos meus 15 anos estes dois vídeos.


Ngola Ritimos e a voz de Santocas, em 1975 - Poder Popular


Novamente a voz de Santocas, homenagem ao Comandante Valódia (Herói do Massacre de Kifangondo)

14 de junho de 2010

NAVEGAR

Kissanje

Os dedos dedilham
harpas ou kissanjes 
espírito eterno e palavras.
Eu não sei realmente
quem os comanda
e a poesia navega
por entre velames de mim
e dos muitos barcos
distintos onde aportei
naveguei o mesmo mar
antigo mas de périplos
sempre distintos.


Depois de cada desembarque
escolho um outro barco
para nele voltar a navegar
por entre velames de mim
-dedilhando harpas ou kissanges-
solto dedos eternos e poesia...


Namibiano Ferreira

9 de junho de 2010

QUINTO RAID TT KWANZA SUL

Uma edição da Pangeia Editora (Portugal) e Chá de Caxinde (Angola)



Mais um Raid TT Kwanza Sul, trata-se da sua quinta edição e como já vem sendo hábito nas duas últimas edições sai, antes do raid ter início, o livro que vai dar a conhecer o trajecto que os entusiatas do TT vão ter que percorrer. Este ano intitulado: “Rumo às Terras que brilham: Lundas”. Não se trata de um mero roteiro de estradas e picadas. Ele é, antes de tudo, um excelente veiculador de informações históricas, económicas, culturais e humanas. Um excelente manual para quem quiser saber estórias da História e também outros textos de índole literária.
Segundo me informaram da organização vou, mais uma vez, participar com um poema.
O Raid vai ter início no dia 24 de Junho e prolonga-se até 4 de Julho do corrente, bem na época do cacimbo para fugir às chuvas.

8 de junho de 2010

DOIS LIVROS INTERESSANTES...

"A History of Postcolonial Lusophone Africa" e "The Postcolonial Literature of Lusophone Africa", são dois livros de muito interesse para quem quiser se inteirar da História e Literatura dos PALOP's (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).
Vários são os autores, mas os livros são orientados por Patrick Chabal que é professor de Estudos Lusófonos Africanos na Universidade de Londres e dirigente máximo do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros no King's College, prestigiadíssima instituição universitária londrina. Infelizmente os livros não estão, que eu saiba, traduzidos em português mas são duas obras que vivamente aconselho aos que forem capazes de os ler em inglês.
No que se relaciona com Angola, os responsáveis são, no volume de História, David Birmingham (eminente professor de História da Universidade de Kent em Canterbury) e na Literatura, Ana Mafalda Leite (professora de Literaturas Africanas da Universidade de Lisboa).
Namibiano Ferreira





NOTA: Os livros podem ser adquiridos aqui http://www.amazon.co.uk/ ou http://www.amazon.com/

2 de junho de 2010

ANIMAIS EM IDIOMA KWANHAMA

O idioma Kwanyama (leia-se cuanhama) é uma língua Bantu* usada pelo povo Ovakwanyama que vive no sul de Angola, província do Cunene (420.000 pessoas) e no norte da Namíbia, região de Ovamboland (240.000 pessoas). É conhecida também pelos nomes: cuanhama , otchikwanyama, ovambo, owambo, ambó.


Zona sombreada, área do povo kwanyama.


Os Kwanyamas:

O povo cuanhama pertence ao grupo étnico-linguístico dos Ambós (Ovambo).
Os Cuanhamas constituem, dentro do baixo Cunene, o grupo mais importante. São exímios na arte de fundir o ferro. A sua economia assenta na pecuária e na agricultura. É lendária a resistência dos seus reis contra o colonialismo europeu, nomeadamente o último rei Mandume Ya Ndemufayo, preferiu suicidar-se a render-se aos portugueses.

A origem do nome:

Segundo a tradição, vieram do sul (Ondonga). Um soba da tribo donga teria enviado alguns elementos para o norte em busca de alimentos. Esta gente, apesar do soba o haver ordenado, não regressou, por ter encontrado uma região muito rica em caça. Então o soba acabou por dizer: deixai-os lá com a carne (carne = nhama). Assim surgiu o nome Cuanhama, ova-kwa-nyama, (literalmente os da carne).


Alguns animais em Kwanyama:

Leão – Onghoxi

Leopardo – Ongwe

Elefante – Ondjaba

Avestruz – Omha

Boi – Ongobe

Cão – Ombwa

Ovelha – Oxikapa

Crocodilo – Ongadu

Coelho/Lebre – Ondiba

Escorpião – Ondje

Gato – Okambixi

Mosca – Odi

Grilo – Osenhe

– Efuma

Girafa – Onduli

Aranha – Eluviluvi

Rato – Omuku

Termita/Salalé - Ehedi

Porco – Oxingulu

Zebra – Ongolo

Marimbondo/Vespa – Omambodwe



Notas: Não me preocupei com a ortografia oficial da língua kwanhama porque preferi aproximar-me da fonética portuguesa para que todos possam reter o mais possível da língua tal como ela é falada.
Como todas as línguas, o kwanhama nao é uniforme e é possível que hajam outras formas de pronunciar e até outras palavras para designar o mesmo animal. Como em portugues, por exemplo: cordeiro, anho, borrego ou ainda cão e cachorro. Por outro lado pode haver erros de minha parte pois já não ouço falar kwanhama há muitos anos. Estes são os que me lembro.

*A principal característica das línguas Bantu é o facto do feminino, masculino, singular e plural serem feitos por meio de prefixos (em vez de sufixos, como acontece nas línguas europeias.) A letra h deve ser levemente aspirada.