foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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27 de junho de 2010

REGRESSAR DE NOVO

Foto de Tonspi (Angola)


Partir no rio de Kalungangombe*
e, depois, quando voltar de novo,
hei-de vir montado na garupa
viva das boiadas andarilhas
pele a cantar ngomangombe**
levantando no peito do ar
um mar de poeiras a festejar
e eu, calçando meus nonkakos,***
serei um pastor Ovakuvale****
conduzindo meus bois
na árida oferta da terra Namibe.


Namibiano Ferreira




* Aglutinação de duas palavras: kalunga + ngombe (boi). Neste sentido é um ente espiritual que acolhe o espírito dos mortos no outro mundo.
** Ngoma (tambor) e ngombe (boi), aglutinacao feita pelo autor.
*** Sandálias feitas com pneus de automóveis e usadas pelo povo mukubal e outros do deserto.
**** Povo (mucubal, kuvale) do deserto do Namibe do grupo etno-linguístico dos Hereros/Helelos, idioma Tchiherero.

23 de junho de 2010

VER O COMBOIO-MALA CHEGAR




Comboio-mala CFB (foto Mukandas do Monte Estoril)

Trapos de vento falam no ar
lembranças do antigamente,
tempo antigo de moleque
quando todo o domingo
era um dia de festa
na estação esperar o comboio-mala chegar
a Vila Teixeira de Sousa*.
Era tudo sempre igual, sempre igual...
kama-kove, kama-kove, kama-kove, úuu...
uma triste monotonia de um fúnji sem muamba
mas se não fosse esperar o comboio-mala chegar
para mim, moleque de outro tempo,
domingo jamais seria esse dia!

Namibiano Ferreira
 
* Actualmente: Luau.

Poema publicado no livro Rumo ás Terras que Brilham: Lundas, roteiro que acompanha o 5 Raid TT Kwanza Sul.
 
 

15 de junho de 2010

1975 - MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DO MPLA



A Revolucao murchou, o POVO continua minguado e nunca ordenou coisa nenhuma. Desses tempos em que se construiam nobres ideais ficaram muitas coisas... Umas más outras belas, como estas duas cancoes que andavam na boca de toda a gente. E temos que ser sinceros, a música revolucionária do MPLA, para além de uma excelente qualidade musical e intelectual, eram armas que chegavam a por os partidários da UNITA e da FNLA a cantar estas mesmas cantigas. Estes dois movimentos nao conseguiam nem chegar aos calcanhares da propaganda musical do MPLA. Deixo-vos com saudades dos meus 15 anos estes dois vídeos.


Ngola Ritimos e a voz de Santocas, em 1975 - Poder Popular


Novamente a voz de Santocas, homenagem ao Comandante Valódia (Herói do Massacre de Kifangondo)

14 de junho de 2010

NAVEGAR

Kissanje

Os dedos dedilham
harpas ou kissanjes 
espírito eterno e palavras.
Eu não sei realmente
quem os comanda
e a poesia navega
por entre velames de mim
e dos muitos barcos
distintos onde aportei
naveguei o mesmo mar
antigo mas de périplos
sempre distintos.


Depois de cada desembarque
escolho um outro barco
para nele voltar a navegar
por entre velames de mim
-dedilhando harpas ou kissanges-
solto dedos eternos e poesia...


Namibiano Ferreira

9 de junho de 2010

QUINTO RAID TT KWANZA SUL

Uma edição da Pangeia Editora (Portugal) e Chá de Caxinde (Angola)



Mais um Raid TT Kwanza Sul, trata-se da sua quinta edição e como já vem sendo hábito nas duas últimas edições sai, antes do raid ter início, o livro que vai dar a conhecer o trajecto que os entusiatas do TT vão ter que percorrer. Este ano intitulado: “Rumo às Terras que brilham: Lundas”. Não se trata de um mero roteiro de estradas e picadas. Ele é, antes de tudo, um excelente veiculador de informações históricas, económicas, culturais e humanas. Um excelente manual para quem quiser saber estórias da História e também outros textos de índole literária.
Segundo me informaram da organização vou, mais uma vez, participar com um poema.
O Raid vai ter início no dia 24 de Junho e prolonga-se até 4 de Julho do corrente, bem na época do cacimbo para fugir às chuvas.

8 de junho de 2010

DOIS LIVROS INTERESSANTES...

"A History of Postcolonial Lusophone Africa" e "The Postcolonial Literature of Lusophone Africa", são dois livros de muito interesse para quem quiser se inteirar da História e Literatura dos PALOP's (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).
Vários são os autores, mas os livros são orientados por Patrick Chabal que é professor de Estudos Lusófonos Africanos na Universidade de Londres e dirigente máximo do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros no King's College, prestigiadíssima instituição universitária londrina. Infelizmente os livros não estão, que eu saiba, traduzidos em português mas são duas obras que vivamente aconselho aos que forem capazes de os ler em inglês.
No que se relaciona com Angola, os responsáveis são, no volume de História, David Birmingham (eminente professor de História da Universidade de Kent em Canterbury) e na Literatura, Ana Mafalda Leite (professora de Literaturas Africanas da Universidade de Lisboa).
Namibiano Ferreira





NOTA: Os livros podem ser adquiridos aqui http://www.amazon.co.uk/ ou http://www.amazon.com/

2 de junho de 2010

ANIMAIS EM IDIOMA KWANHAMA

O idioma Kwanyama (leia-se cuanhama) é uma língua Bantu* usada pelo povo Ovakwanyama que vive no sul de Angola, província do Cunene (420.000 pessoas) e no norte da Namíbia, região de Ovamboland (240.000 pessoas). É conhecida também pelos nomes: cuanhama , otchikwanyama, ovambo, owambo, ambó.


Zona sombreada, área do povo kwanyama.


Os Kwanyamas:

O povo cuanhama pertence ao grupo étnico-linguístico dos Ambós (Ovambo).
Os Cuanhamas constituem, dentro do baixo Cunene, o grupo mais importante. São exímios na arte de fundir o ferro. A sua economia assenta na pecuária e na agricultura. É lendária a resistência dos seus reis contra o colonialismo europeu, nomeadamente o último rei Mandume Ya Ndemufayo, preferiu suicidar-se a render-se aos portugueses.

A origem do nome:

Segundo a tradição, vieram do sul (Ondonga). Um soba da tribo donga teria enviado alguns elementos para o norte em busca de alimentos. Esta gente, apesar do soba o haver ordenado, não regressou, por ter encontrado uma região muito rica em caça. Então o soba acabou por dizer: deixai-os lá com a carne (carne = nhama). Assim surgiu o nome Cuanhama, ova-kwa-nyama, (literalmente os da carne).


Alguns animais em Kwanyama:

Leão – Onghoxi

Leopardo – Ongwe

Elefante – Ondjaba

Avestruz – Omha

Boi – Ongobe

Cão – Ombwa

Ovelha – Oxikapa

Crocodilo – Ongadu

Coelho/Lebre – Ondiba

Escorpião – Ondje

Gato – Okambixi

Mosca – Odi

Grilo – Osenhe

– Efuma

Girafa – Onduli

Aranha – Eluviluvi

Rato – Omuku

Termita/Salalé - Ehedi

Porco – Oxingulu

Zebra – Ongolo

Marimbondo/Vespa – Omambodwe



Notas: Não me preocupei com a ortografia oficial da língua kwanhama porque preferi aproximar-me da fonética portuguesa para que todos possam reter o mais possível da língua tal como ela é falada.
Como todas as línguas, o kwanhama nao é uniforme e é possível que hajam outras formas de pronunciar e até outras palavras para designar o mesmo animal. Como em portugues, por exemplo: cordeiro, anho, borrego ou ainda cão e cachorro. Por outro lado pode haver erros de minha parte pois já não ouço falar kwanhama há muitos anos. Estes são os que me lembro.

*A principal característica das línguas Bantu é o facto do feminino, masculino, singular e plural serem feitos por meio de prefixos (em vez de sufixos, como acontece nas línguas europeias.) A letra h deve ser levemente aspirada.

1 de junho de 2010

BEIJOS

O Beijo, Rodin (foto net)
                                             
  Para Dinah


O meu corpo anda caiado de luz
pelo carinho de beijos luzidios
dos teus lábios fogo carmesim
incendiado a labaredas e lírios.


O meu corpo anda caiado de luz
como se fosse um templo imaculado
onde guardo as pétalas dos teus lábios
fogo bendito carnal e sagrado...

Namibiano Ferreira

28 de maio de 2010

ENTREVISTA COM JÚLIO MENDES LOPES



Júlio Mendes Lopes lecciona História de África no ISCED em Luanda.


"Elites africanas preservam processos da administração colonial"


A pré-história é um conceito que ainda faz sentido?

É ainda um conceito que faz sentido, sim. Porque é o período em que ocorreram, em África, os processos de hominização. É no continente africano que se encontram os estádios do desenvolvimento humano de maneira continuada, desde os australopitecos até ao homo sapiens, que se vai encontrar desde o corredor que vai de Manke Makdap, na África do Sul, até ao vale do rio Omo na Etiópia.
É neste vale onde investigadores franceses, britânicos e norteamericanos trabalharam e deram com muitos achados ósseos que dão uma ideia sobre a evolução da humanidade.
Os australopitecos, por exemplo, não foram encontrados em nenhum outro continente que não no africano.
Aliás, é também em África que se deram os primeiros sinais da escrita cursiva, nomeadamente no Egipto antigo, e é também em África onde muitos dos grandes sábios da Grécia antiga estudaram. Há até trabalhos publicados por um grego, Ptolomeu Cláudio, que chegava ao ponto de afirmar que um livro de mil páginas não chega para enumerar os sábios da Grécia que estudaram no Egipto antigo, nas mais diferentes áreas: medicina, agronomia, astronomia, filosofia, etc. Como o caso de Pitágoras, por exemplo, o sábio grego que criou a teoria dos catetos, estudou matemática durante 22 anos no Egipto. Isso é prova evidente de que África é o continente que deu os primeiros fundamentos do desenvolvimento da humanidade.

O País On Line http://www.opais.co.ao/pt/opais/home.asp

27 de maio de 2010

MÚSICA DOS HEREROS DO SUL DE ANGOLA

Alguma propaganda foi feita sobre o luxuoso livro de fotografias do povo herero, do sul de Angola [e norte da Namíbia], de autoria do publicitário pernambucano Sérgio Guerra (Hereros, editora Maianga, R$ 190*), que trabalha para o governo angolano desde 1999. Seu lançamento foi há um mês, no dia 27 de abril, na Livraria Cultura da faustuosa Villa Daslu, de São Paulo. Mas os resenhistas do material não chegaram a comentar sobre uma pequena relíquia que vem contida no álbum: é o disco das músicas daquele povo seminômade e irredento que passou um tanto ao largo do colonialismo português (embora tenha sofrido durante as campanhas europeias de "pacificação"). Trata-se de uma preciosidade para aqueles que se interessam pelos cânticos tradicionais angolanos em particular, e africanos em geral. O som, naturalmente, assim como o resultado geral do trabalho, de ótima qualidade.

[Comentários pontuais sobre os hereros e outros povos da região, ler o antropólogo angolano Ruy Duarte de Carvalho. Com mais tempo, ler o ótimo Vou lá visitar pastores.]


Nota: Por falar em Villa Daslu, vai uma dica para os bebericadores de café. Quem algum dia passar ali por perto (avenida Chedid Jafet), aproveite para saborear gratuitamente o café da cafeteria Octavio, uma das melhores e mais luxuosas da capital paulista (há pelo menos dois balcões lá dentro). Pergunte pelo café turco. E leve o caderno de campo: as tribos que passeiam pelo local à procura de adornos e dádivas são muito, digamos assim, peculiares.
 
Créditos:  Lusofonia Horizontal: http://lusofoniahorizontal.blogspot.com/


E veja mais este link, sobre o livro:
Hereros (OvaHimba), foto de Sérgio Guerra

* 190 reais = 70 libras e 81 euros