Interessantíssima matéria publicada no jornal angolano on-line O País, em março de 2010, retirei do blog Lusofonia Horizontal:
http://lusofoniahorizontal.blogspot.com/
O evento que acontecerá hoje a partir das 18 horas na sede da UEA é, na verdade, um duplo momento, pois para lá do livro “Um Ano de Vida”, vai ser também a apresentação pública de uma nova casa editora, que acaba de ser fundada pelo jornalista e editor literário Arlindo Isabel.
Avó Mayamba
Baptizada com o nome de Mayamba Editora, a entidade surge como a nova aposta do ex-director da Nzila, conhecida editora que criou há dez anos e de que se afastou, de maneira voluntária, nos finais de 2009.
“Um Ano de Vida” é, assim, o livro de estreia da Mayamba Editora, que muito em breve trará outros autores nas suas variadas colecções, que se estendem da ficção narrativa (colecção Nzadi, que significa rio em língua kikongo) a uma dezena de outros géneros (literatura infanto-juvenil, ensaio histórico, pesquisa em ciências médicas, texto de ciências sociais, dicionários, etc).
Preito de homenagem
O nome Mayamba, que passa a conferir identidade à nova casa editora, pertence à avó materna de Arlindo Isabel, e constitui uma homenagem à mulher que considera “o pilar” da sua educação e formação.
Hoje, com mais de noventa anos, e a residir num bairro de Luanda, a matriarca é iletrada e não fala português, exprimindo-se exclusivamente em kikongo. Nenhum destes factos a impediu, contudo, de compreender desde cedo a importância da escola e tem o seu passado ligado profundamente a essa visão progressista do mundo, que a levou a fazer da oferta sistemática de livros a filhos e netos uma rotina. A sua aposta firme na educação dos descendentes permite que hoje tenha na família mais de uma dezena de licenciados, entre eles o próprio Arlindo Isabel, formado em jornalismo e a irmã deste, médica especialista em oncologia.
A homenageada criou os seus filhos e netos numa aldeia do município da Damba (província do Uíge) e é lembrada pelo seu estoicismo e capacidade de fazer acontecer, que a tornou criadora de gado caprino, suíno e galinhas; produtora de ginguba, mandioca, gergelim e inhame e dextra no domínio das plantas medicinais locais para curar os seus do paludismo e outras doenças. Mas filhos e netos recordam-na com mais emoção ainda pelas suas viagens de mais de 30 km, a pé, da aldeia até à sede comunal, para vender fuba de bombó, ginguba, milho, batata-doce e outros produtos do campo, e assim conseguir os trocados tão necessários à sobrevivência da prole sob sua exclusiva responsabilidade, uma vez que tios e irmãos tinham abalado como refugiados para o vizinho Congo ex-Belga (actual RDC) para escapar da repressão do colonizador português.
http://www.opais.net/pt/opais/?id=1787&det=10548&mid=293