foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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7 de maio de 2010

COSTUMES NYANEKA-HUMBI - PENTEADOS -

Os Muílas são um povo que pertence à nação Nyaneka-Humbi. Habitam a província da Huíla no Sul de Angola. No século XVI os Nyaneka-Humbi repartiam-se por dois importantes e poderosos reinos: Reino da Huíla e Reino do Humbi e que fizeram parte do célebre “Ciclo de Mataman” que compreende a história de todos os povos angolanos que habitavam o que são hoje as províncias da Huíla e do Namibe.





OS PENTEADOS


As mulheres usam penteados de demorada e difícil execução, mas de grande duração, muitas vezes artisticamente ornamentados de missangas. O formato desses penteados é variável, estando em conformidade com a fase da vida que a mulher atravessa. Podem, assim, distinguir-se pelo menos seis formatos, que correspondem às seguintes fases: até à idade de doze anos; dos treze aos catorze, sendo este um autêntico monumento; quando está prestes a casar; quando casa; passado algum tempo depois de casar e, finalmente, depois de ter filhos. Nesta última fase, a mulher usa pedaços de caniço no penteado, consoante o número de filhos, pois cada pedaço de caniço representa um.

Pelo penteado pode, pois, distinguir-se se a rapariga é impúbere, púbere, se está para casar ou se já casou e, neste último caso, se tem filhos e quantos tem.

Nas cerimónias tradicionais as mulheres devem apresentar-se com os penteados próprios e devidamente compostos. Por vezes a arte dos penteados é melhorada através do uso de ornamentadas perucas.


Peruca

3 de maio de 2010

A REBITA

Para o meu avô, que foi um grande rebitista.


Rebita

A rebita é um género de música e dança de salão angolana que demonstra a vaidade dos cavalheiros e o adorno das damas. Dançada em pares em coreografias coordenadas pelo chefe da roda, executam gestos de generosidades gesticulando a leveza das suas damas, marcando o compasso do passo do semba. O charme dos cavalheiros e a vaidade das damas são notórios; enquanto dança se vai desenvolvendo no salão as trocas de olhares e os sorrisos entre o par são frequentes. É dançada em marcação de dois tempos, através da melodia da música e o ritmo dos instrumentos.



A rebita tem a sua origem mais directa na dança angolana que se chama semba (umbigada). Ao introduzirem o acordeão no semba surgiu a rebita, como explica Óscar Ribas, o ambiente campestre foi trocado pelo salão.
Segundo a opinião do músico angolano Liceu Vieira Dias, as origens da rebita remontam ao período das invasões francesas em Portugal quando um grande número de nobres portugueses se auto-exilaram em Luanda sem as suas mulheres e habituados a uma vida social influenciada pela cultura francesa, influenciaram os naturais do país. Por essa altura fundaram-se associações onde se organizavam bailes, tendo como base um tipo de movimentação coreográfica que é exactamente a do cotillon francês.
“Algumas figuras no desenvolvimento da dança que era colectiva eram comandadas (...) em francês: changer la dame, tourner a droite, tourner a gauche. Além disso, havia outras expressões francesas testemunhando a sua influência”. Ora, como bem sabemos, a nossa rebita possui este tipo de comandos.
Na rebita que se dançava no século XIX em Luanda, de acordo com documentos dessa época, as senhoras eram vistoriadas por uma “mais velha” do grupo. O objectivo era verificar se as damas não vinham só bonitas e luxuosas por fora, com panos garridos, mas certificar se a roupa interior também era digna de uma pessoa que frequentava um local de elite, como era a rebita.
Os cavalheiros também eram vistoriados por um “mais velho” do grupo, que observava se as peúgas dos cavalheiros estavam de facto em condições, se a camisola interior e outros utensílios de uso interno estavam em conformidade.

ESTA PALAVRA ANGOLA

A palavra Angola provém da palavra Kimbundu ngola, cujo plural é jingola. Ngola é um pedaço de ferro que a maioria das linhagens Mbundu detinham como insígnia de autoridade. Daí também a mesma palavra (ngola) utilizada para designar o detentor dessa autoridade, ou seja, o rei. Como exemplos temos: Ngola Kiluanji, Ngola Kiluanji Kya Samba ou Nzinga Mbandi Ngola. Nesta acepção, nos primeiros tempos, o vocábulo Ngola (aportuguesamento Angola) significaria as terras governadas pelos Jingola, (nacionalidade Ambundo) em oposição ao Reino do Congo, a Norte ( nacionalidade Bakongo) e ao chamado Reino de Benguela, a Sul (nacionalidade Ovimbundu). Posteriormente o nome Angola passou a designar todo o território administrado pelas autoridades coloniais portuguesas, dando assim origem ao nome do país.

28 de abril de 2010

CHÁ DE CAXINDE - UNIR PELA CULTURA -

É uma das grandes instituiçoes culturais da Angola independente e com uma enorme projecção internacional. A Chá de Caxinde nasceu em janeiro de 1989 e passados 21 anos é uma grandiosa instituição que orgulha os angolanos.



UNIR PELA CULTURA

Em 1989, Luanda vivia num vazio cultural e sob o peso do recolher obrigatório resultante da guerra em que Angola estava mergulhada. A associação Chá de Caxinde foi criada nesse ano como resposta a este cenário. (...) Chá de Caxinde é não só um nome incontornável na cultura angolana mas também local obrigatório para quem quer respirar e fazer parte do que de melhor se faz em Luanda nos mais variados domínios das artes, do debate e da reflexão.
Hoje, recorda Jacques dos Santos, 64 anos, fundador da associação, Luanda é uma cidade com múltiplas ofertas culturais. Mas não era assim em 1989, quando, no dia 28 de Janeiro desse ano, reuniu mais oito pessoas, a quem chama de "grupo percurssor", e lançou as bases daquilo que é hoje o Chá de Caxinde.
"Não havia uma editora - hoje existe uma com o nome da associação - não havia livros nas livrarias, teatro, dança... o recolher obrigatório limitava e muito a vida das pessoas. A 28 de Janeiro de 1990, foi assinada a Acta de Proclamação da associação, subscrita por 100 pessoas", lembra Jacques dos Santos, que é escritor e deputado do MPLA.
Actualmente a associação tem 600 sócios, entre estes os escritores Pepetela, criador da frase que serve de azimute ao Chá de Caxinde, "Unir pela Cultura", e Luandino Vieira, que desenhou a "bandeira" da associação. Um dos últimos nomes a entrar para a lista foi o de Marcelo Rebelo de Sousa.
O debate e a reflexão estão também no centro das actividades do Chá de Caxinde. As discussões em torno do arrojado e luxuoso projecto arquitectónico em curso na Baía de Luanda foram ponto alto na vida da associação.
"Somos contra, fomos contra e os nossos debates tiveram importância ao ponto de o projecto inicial ter sido alterado. Para nós, tudo aquilo que descaracterize Luanda é um erro e dizemos sempre o que pensamos", garante.
Mas nem tudo são rosas, ou folhas de caxinde, a planta que permite o chá com o mesmo nome, que, além das suas propriedades relaxantes, simboliza em Angola, onde esta beberagem é consumida de Cabinda ao Cunene, a sabedoria.
E Pepetela, numa curta declaração durante a festa do 19º aniversário da associação, deixou um recado claro: "Aqueles que querem que o Chá de Caxinde acabe, esqueçam. Desistam eles antes porque nós vamos continuar".

(Texto em itálico retirado de: http://tv1.rtp.pt/noticias/)
 
Nota: o chá de caxinde (Cymbopogon citratus) é o que em Portugal se chama chá príncipe e no Brasil capim-limão ou capim-cidreira.

23 de abril de 2010

FERNANDO CATERÇA VALENTIM - PINTOR




Valentim, é o nome artístico do angolano Fernando Caterça Valentim. Nasceu na Gabela, província do Kwanza Sul, no dia 5 de Maio de 1950.
Valentim foi aluno do pintor angolano Luzolano João de Deus, desenvolveu a sua arte mostrando a paixão pelos motivos angolanos. É membro da UNAP – União Nacional de Artistas Plásticos – desde 1977 e da Sociedade Portuguesa de Autores, em Portugal.
Valentim luta pelo crescimento da sua arte e da sua expressão artística, aprofundando os seus conhecimentos técnicos também, sendo referido no catálogo da IV Bienal da Arte Bantu, realizada em Libreville-Gabão pelo CICIBA, como um dos grandes pintores angolanos.
Está presente em várias exposições nacionais e internacionais, como é o caso de França, Inglaterra, Portugal, Itália, Argélia, Brasil e Egipto. Em Angola, a sua obra já viajou por Benguela, Huíla e Luanda. Em 1985, esteve presente na Exposição Internacional de Arte Bantu, organizada pela CICIBA.
As suas obras mais emblemáticas e de maior expressão mediática são “Lágrimas da Negra” e “O Sol Negro”. A primeira foi doada à galeria de pintura Naif Podgorica – ex-Titograd – e representou Angola na Exposição de Arte dos Países Não Alinhados, no Cairo - Egipto. A famosa tela, “O Sol Negro” encontra-se no Museu da Torre Nabemba, em Brazzaville, na República do Congo.

A sensibilidade artística conduziu-o à publicação do livro de poemas “Sentimentos” em 1993.
Em Julho de 1994, Valentim é o vencedor do grande prémio Presidente da República do Congo, na V Bienal de Arte Bantu Contemporânea, realizada em Brazzaville e promovida pelo CICIBA, com a sua obra “A Aurora”.
Multifacetado, o pintor frequentou também o curso de pintura de azulejos, na escola Inatel, nos anos de 97-98. A exposição “O Paraíso das Pérolas”, dedicada aos azulejos, desenhos e à pintura de Valentim, foi um êxito em Portugal, no Lagar do Azeite em 1998.
Durante vários anos, foram muitas as exposições nacionais e internacionais, que deram e dão vida à arte de Valentim, «…que é hoje um dos grandes pintores angolanos».

12 de abril de 2010

PORQUE OS RIOS...

Rio Cubango (foto net)


                                                        A partir de um comentário de Cirandeira:
"Águas não têm cabelos", dizem em minha terra.


As águas não têm cabelos
são pranto brisa canto
uma líquida clepsidra
solta arrastando tempo
corpo, mistério de Kianda.
As águas não têm cabelos
são a Kianda em si mesma
penteando a cabeleira
ao longo do rio a passar
e as águas não têm cabelos
são mosto a lançar uanda
no feitiço a fluir novelos
a boiar sortilégios e mitos
porque os rios... as águas
dos rios não têm cabelos...

Namibiano Ferreira

Kianda - divindade das águas.
Uanda - rede de pesca.

5 de abril de 2010

A PALAVRA NAMIBE



A palavra Namibe, segundo uns deriva do idioma falado pelo povo Khoi, um povo não-bantu da África Austral. Namib, significaria, na sua língua, “deserto” ou “lugar sem gente”.
Para outros, a palavra tem origem no idioma de outro povo não-bantu, os dâmaras, povo que habita a Namíbia e significaria “imenso”, “enorme”.
Seja qual for a sua origem etimológica, o Namibe é um dos mais antigos desertos do mundo e que se mantem em condições áridas ou semi-áridas há mais de 80 milhões de anos.
Namibe, é o nome da cidade angolana capital da mesma província. Foi aí, na cidade de Tômbwa, o meu local de nascimento, como já estão fartos de saber os frequentadores assíduos desta Ondjira.
Muita gente tem aqui chegado pensando que o meu pseudónimo, Namibiano, tem a haver com a República da Namíbia, país que se situa ao Sul de Angola. Não, puro engano, o nome foi escolhido quase instintivamente no primeiro poema que fiz há quase 33 anos, não sei a data certa e nem esse poema existe mais. Intitulava-se o poema: “Sou Namibiano”. Assim era por ser natural da província do Namibe. Ainda me lembro do final do poema, mais ou menos assim: “sou namibiano e trago no peito/ uma welwitschia a sangrar”. Lá por volta de 1980 ou 82 comecei a assinar todos os meus textos com o meu actual pseudónimo. Portanto, muitos anos antes da independência da Namíbia e que nessa altura se chamava Sudoeste Africano e estava sob a administração do regime raciasta da África do Sul, o Apartheid.
Pinda - Namibe (Angola)

Namibiano é uma homenagem à terra natal e ao povo mas é também uma espécie de pacto escrito no pergaminho invisível do tempo que me mantem preso a uma das maiores aventuras desta minha vida: ter nascido em África, Angola.



REGRESSAR DE NOVO

Partir no rio de Kalungangombe*
e, depois, quando voltar de novo,
hei-de vir montado na garupa
viva das boiadas andarilhas
pele a cantar ngomangombe**
levantando no peito do ar
um mar de poeiras a festejar
e eu, calçando meus nonkakos,***
serei um pastor Ovakuvale****
conduzindo meus bois
na árida oferta da terra Namibe.




Namibiano Ferreira
 
* Aglutinação de duas palavras: kalunga + ngombe (boi). Neste sentido é um ente espiritual que acolhe o espírito dos mortos no outro mundo.
** Ngoma (tambor) e ngombe (boi), aglutinacao feita pelo poeta.
*** Sandálias feitas com pneus de automóveis e usadas pelo povo mukubal e outros do deserto.
**** Povo (mucubal, kuvale) do deserto do Namibe do grupo etno-linguístico dos Hereros/Helelos.

27 de março de 2010

O MAIS BELO RIO

Rio Kwanza (foto net)

O Danúbio Azul, a valsa, é muito bela, maviosa
e o Danúbio, o rio, é provavelmente belo, também...
mas o rio mais belo, mais belo que todos os outros,
é o Kwanza. O Kwanza é verde verde verde e desliza
rodopiando um semba vida que se dilui na paisagem.
O Kwanza Verde é um semba verde de beijos e palmeiras
correndo deslizando ao longo da minha alma embutida
no verdor da paisagem, simbiose de semba líquido e feitiço,
onde na magia folha do céu flutua verde-negro o meu dongo:
uanga e Kwanza uanda e uanga da Kianda do verde Kwanza.

Namibiano Ferreira
Rio Kwanza (foto net)


Dongo - Canoa, piroga.
Uanga - Feitiço.
Uanda - Rede de pescar.
Kianda - Divindadedas águas. Sereia.
(Termos de origem Kimbundu)

21 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA POESIA (21/03/2010)

Hoje é Dia Internacional da Poesia,  
  mas todos os dias sao de POESIA (ou deveriam ser).
Meia-noite algures em Angola (foto K. Luchansky)


EMPTINESS



Forjar na polpa das palavras
a sintonia suculenta do morfema
e sair nu cantando lavras
semeadas na cor do poema
ondulando liberdades e savanas
com olhos molhados de punhais
e vozes quentes de calema.


Vivemos um momento
vazio e frio de sentidos
há, como dizem os ingleses,
uma cruel emptiness, um vácuo
castrado de utopias e sonhos
suspensos, ideais na diáspora...


À varanda pálida dos lábios
sequiosos da alma, rosa aflita,
esta infame e crua certeza:

                      A POESIA
                            NÃO SERVE
                                  PARA NADA!

Os poemas, como as cartas de amor
do Campos, o tal louco de muitas pessoas,
(ou o tal Pessoa de muitos loucos)
são papéis riscados com letras...


Namibiano Ferreira

16 de março de 2010

MENINOS TOMANDO BANHO NA RUA

Meninos de Luanda tomando banho num buraco de água de uma conduta que arrebentou. Esta foto foi vencedora do top shot de Março 2007, na National Geographic Magazine.
Foto da autoria do técnico de informática, Kostadin D. Luchansky, residente em Luanda e natural da Bulgária. Um excelente fotógrafo amador com fotos publicadas na National Geographic e no seu site www.kodilu.com 

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A água rompeu os canos por debaixo da cidade e ofereceu aos meninos pobres de Luanda uma cacimba para brincarem chapinhando no banho. Pior sorte têm os meninos dos musseques que brincam chapinhando em lamacentas águas putrescentes...
 
Namibiano Ferreira