foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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8 de março de 2010

DEFEITO ANATÓMICO

Há duas grandes espécies de seres humanos: os homens propriamente ditos e os outros, os políticos*, os lobos disfarçados de ovelhas ou mesmo as hienas e chacais agindo desumanamente e sem disfarces.
Os homens, os propriamente ditos, para além das suas muitas subdivisões socio-culturais e económicas, são, em geral, os que enchem as praças nos dias de revoluções; são a carne para os canhões; o pavio de alimentar as guerras; o alvo de falsas promessas; o alvo preferencial das mentiras com que submetem, a maioria, isto é, os homens propriamente ditos, que em ditadura são algemados e alimentados com a medo e terror e, em democracia, são enganados com falsas e vis retóricas, vazias e bacocas e, mesmo assim vão, cidadãos eleitores, confiantes e cheios de virtuosas esperanças cumprir o dever cívico de eleger os que lhes roubam o direito ao Progresso, à Dignidade Humana e os mantêm alimentados de ignorância, incapazes de livremente discernirem.
* Entenda-se que, por políticos se incluem, não só os muatas que nos governam (ou desgovernam) mas também aqueles que, directa ou indirectamente, influenciam os governantes na sua falta de carácter, na sua ganância e avidez. Estou-me referindo às multinacionais e à sua famigerada globalização que nada mais é do que uma nova nomenclatura para colonialismo e subserviência dos mais pobres. A verdadeira Globalização, deverá pressupor Igualdade, Solidariedade e Partilha entre toda a Humanidade.

Namibiano Ferreira


DEFEITO ANATÓMICO

Os muatas
são homens
(homens?)
com graves
e anatómicos
problemas.
Na boca
têm a bunda
cloaca
pútrido
por onde
defecam
obscenidades
ignorâncias
bestialidades
e mentiras...

Namibiano Ferreira



A LAGOA DO ARCO DO CARVALHÃO

A Lagoa do Arco do Carvalhão fica perto da cidade de Tômbwa, província do Namibe no sul de Angola. É um maravilhoso oásis na aridez do deserto. As suas águas provêm do rio Kuroka, um rio seco que só transporta água no período das chuvas, que ocorrem de outubro a maio. É um típico rio de enxurrada e que normalmente revive entre fevereiro e abril. As chuvas, que o fazem transbordar com águas barrentas e furiosas, não caem no deserto mas a centenas de quilómetros nas terras altas da Huíla. O rio Kuroka é um pequeno Nilo que permite a agricultura nas suas margens.







5 de março de 2010

NARCISOS AMARELOS

Lá fora, o frio verde do Norfolk
não faz transbordar o riacho azul
a correr no corrimão da paisagem.
O gelo apoderou-se da varanda
e o lamento que pretendo gritar
esmorece no azimute impreciso
tela espúria pintada nos sentidos
sentados da alma roxa aprisionada
e eu sei, o Norfolk é uma prisão
aberta de grades ao áspero silêncio
ruidoso e no vento seco da diáspora
florescem amarelos os narcisos ingleses...

Namibiano Ferreira

3 de março de 2010

À LAIA DE FILOSOFIA OU MAGRA PROFECIA...

Tela de Abias Kayenga Ukuma (Angola)



                                       Oiço a hipocrisia duma gravata a mentir!
                                                Décio B. Mateus, in Xé Candongueiro.


Filosofando baixinho nas paredes do chão
racimos afloram no presságio nu do vento.
Um telhado de zinco, bátegas de água e chovia.
Forte, a chuva, caía fortaleza de barulhos
e foi então que aconteceu este poema pensado
pensamento à laia de filosofia ou magra profecia:

      makutu – a mentira –
      pode, a todos, nos engolir
      lembre-se, no entanto, há um dia
      a mentira vai é só explodir...


na podridão dos dias
algo está para acontecer
amanhã ou depois, não sei!
então vai ser p’ra valer
e virá (mais) injustiça ou Lei?
Olhem aqui – Eu também não sei!


Namibiano Ferreira


2 de março de 2010

POEMA DO TEMPO DO CONTRATO

Contratados (foto terrasdoquitexe.blogs.sapo)

E às vezes, quase sempre,
havia no lusco-fusco
dos dias um grito
amargo de silêncios
chorado e soluçado
baixinho pela noite
e que ninguém
parecia escutar...
Eram vozes ciciadas
orações amordaçadas
nos dormitórios palustres
dos contratados bailundos

Namibiano Ferreira

Contratados – Eram homens retirados à força dos seus kimbos (aldeias) para prestarem trabalho contratado, segundo legislação colonial do governo português. Ou seja, em breves palavras, o trabalho executado pelos contratados era um trabalho forçado e praticamente escravo. A diferença: não era vitalício.
 
Bailundos – Povo dos ovimbundu, habitando a província do Bié. A sua resistência ao colonialismo foi amplamente punida através das levas de contratados para as roças de café, no Norte, canaviais de Benguela e pescarias do Namibe.

ELAS SAO BELAS, AS MULHERES DA MINHA TERRA

PODERIA ESCREVER UM POEMA, DOIS, TRES, MIL... MAS NAO CHEGAM AS PALAVRAS PARA DESCREVER A BELEZA DAS MULHERES DA MINHA TERRA...




(foto Alex. Correia)





(foto de Alex. Correia)




Micaela Reis (Miss Angola2007)


(foto Alex. Correia)

1 de março de 2010

MATINALESTE

Tela de Arlete Marques (Angola)

Hoje fui no Leste
quando acordei
o brilho do Sol
bebi cachipembe
mas antes ofereci
aos ancestrais
e depois
sentei com o povo
para comer o chima
na roda da fogueira.
Havia maiungo
e fartura toqueia
pescada na água
água sagrada
da Chana da Cameia.

Namibiano Ferreira


Cachipembe – Bebida alcoólica feita à base de cereais.
Chima – O mesmo que fúnji (pirão), no Leste de Angola.
Maiungo – Verme comestível.
Toqueia – Pequeno peixe que se pesca nas águas da Chana da Cameia.
Chana da Cameia – Savana alagada no Moxico, Leste de Angola

23 de fevereiro de 2010

O KANE-WIA

Como havia prometido no poste sobre Tchitundu-Hulu, hoje apresento o Kane-Wia.



Como vos prometi na postagem sobre Tchitundo-Hulu aqui estou hoje para vos falar de um outro morro do Namibe. Bem no interior, próximo da localidade do Virei, existe um morro a quem os Ovakuvale (Mukubais) chamam de Kane-Wia. É um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir.
Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais.
Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”.

Namibiano Ferreira


Há falta de imagem do Kane-Wia, ficam as Montanhas de Tchamalinde no Namibe


 Para terminar, um poema da minha autoria e inspirado no Kane-Wia mas para uma outra realidade. Este poema (anterior a 1998) faz parte de um poemário intitulado “No Vento e No Tempo”, cujos poemas não têm título mas são numerados de 0 até 46.







QUE SUBA O MWATA O KANE-WIA


O tempo arrasta garroa
como se fosse um vento fétido
expirado por deuses amnésicos.
Na noite, oximalankas e mabecos,
dão risadas sob o luar da Morte.
O tempo traz garroa no ventre
e uma aridez uterina ondula despertando
o Kazumbi ancestral que vem dizendo:


– Que suba o mwata o Kane-Wia,
Depressa-depressa!
– Que suba o mwata o Kane-Wia,
a montanha quem sobe não volta
para nunca mais impedir a chuva
sobre a terra, roseira bela!


– Que suba o mwata o Kane-Wia,
deixando açucenas florindo
nos ombros dos caminhos e sobre a terra,
roseira bela, a chuva crepitando
purgando e redimindo nosso corpo
desalmado e sem sentido.
– Que suba o mwata o Kane-Wia...




Namibiano Ferreira (in No Vento e No Tempo)




Mwata – senhor, chefe, líder.
Oximalankas – hienas.
Mabeco – cão selvagem.


20 de fevereiro de 2010

PEIXE DO NAMIBE E RECEITA DE KALULU

Este são peixes pescados no Namibe, são pungos. O mar da província do Namibe é tão rico em peixe que os naturais são conhecidos pelo epíteto de cabeças-de-peixe ou cabeças-de-pungo. Eu sou, muito orgolhasamente, um deles.
Deixo-vos uma receita angolana, porque comer é um acto cultural. Kalulu de peixe, com pungo é uma maravilha. Esta receita está devidamente testada, comprovada e provada.

Namibe - Angola

KALULU DE PEIXE



INGREDIENTES:
1 Kg DE PEIXE SECO
1 Kg DE PEIXE FRESCO
3 CEBOLAS
3 TOMATES GRANDES
1/2 Kg DE QUIABOS
1 Kg. RAMA DE BATATA DOCE (OU ESPINAFRES)
3 DENTES DE ALHO
2 COPOS DE ÓLEO DE DENDÊ/PALMA E 2 JINDUNGOS (PIRI-PIRI ou MALAGUETA)


PREPARAÇÃO:
Deita-se a demolhar o peixe seco, mas sem sair o sal todo.
Tempera-se o peixe fresco com sal, alho, vinagre ou limão de preferência. Começamos a preparar um refogado com o óleo de palma e os dentes de alho. Seguidamente, começamos a colocar em camadas, os peixe seco, o peixe fresco, a cebola em rodelas, o tomate em pedaços e limpo, os quiabos, as folhas de batata doce, o jindungo e o resto do óleo de palma.
Verificamos o tempero de sal e deixamos cozinhar em lume brando.
Este prato, costuma ser acompanhado com fúnji e feijão de óleo de palma.


Bom Apetite!!


Namibe - Angola

19 de fevereiro de 2010

MPUNGU-A-NDONGO

Na Baixa de Kassanje, Malanje, não muito distante das Quedas de Kalandula, http://poesiangolana.blogspot.com/2009/12/quedas-de-kalandula.html existem umas formações rochosas de rara beleza e que aqui já foram mostradas http://poesiangolana.blogspot.com/search/label/Pungo%20Andongo .
São as Pedras Negras de Pungo Andongo, em kimbundu: Mpungu-A-Ndongo.



MPUNGU-A-NDONGO

Vermelha como veia de sangue
a estrada jibóia langorosa
na paisagem e ao longe,
na distância, amanhecem gigantes
 na anhara plana de Kassanje.





São lapidescentes personificações
de força, ngola mística de telúricos
paquidermes, líticas manadas
arrastando paradas a terra viva
de mistérios, mitos, lendas e feitiços
ou, então, como se fossem negros
deuses colossais repousando
sobre o corpo verde escuro das lápides
e do tempo onde, ainda, se sente
marcado no peito-chão, o passo
ancestral dos divinos heróis
velando ontem, hoje e sempre
este berço mátria, grito de nação.

Namibiano Ferreira

 Pedras Negras de Pungo Andongo - Malanje - Angola (fotos Net)
 
Anhara- Savana.