foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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2 de março de 2010

POEMA DO TEMPO DO CONTRATO

Contratados (foto terrasdoquitexe.blogs.sapo)

E às vezes, quase sempre,
havia no lusco-fusco
dos dias um grito
amargo de silêncios
chorado e soluçado
baixinho pela noite
e que ninguém
parecia escutar...
Eram vozes ciciadas
orações amordaçadas
nos dormitórios palustres
dos contratados bailundos

Namibiano Ferreira

Contratados – Eram homens retirados à força dos seus kimbos (aldeias) para prestarem trabalho contratado, segundo legislação colonial do governo português. Ou seja, em breves palavras, o trabalho executado pelos contratados era um trabalho forçado e praticamente escravo. A diferença: não era vitalício.
 
Bailundos – Povo dos ovimbundu, habitando a província do Bié. A sua resistência ao colonialismo foi amplamente punida através das levas de contratados para as roças de café, no Norte, canaviais de Benguela e pescarias do Namibe.

ELAS SAO BELAS, AS MULHERES DA MINHA TERRA

PODERIA ESCREVER UM POEMA, DOIS, TRES, MIL... MAS NAO CHEGAM AS PALAVRAS PARA DESCREVER A BELEZA DAS MULHERES DA MINHA TERRA...




(foto Alex. Correia)





(foto de Alex. Correia)




Micaela Reis (Miss Angola2007)


(foto Alex. Correia)

1 de março de 2010

MATINALESTE

Tela de Arlete Marques (Angola)

Hoje fui no Leste
quando acordei
o brilho do Sol
bebi cachipembe
mas antes ofereci
aos ancestrais
e depois
sentei com o povo
para comer o chima
na roda da fogueira.
Havia maiungo
e fartura toqueia
pescada na água
água sagrada
da Chana da Cameia.

Namibiano Ferreira


Cachipembe – Bebida alcoólica feita à base de cereais.
Chima – O mesmo que fúnji (pirão), no Leste de Angola.
Maiungo – Verme comestível.
Toqueia – Pequeno peixe que se pesca nas águas da Chana da Cameia.
Chana da Cameia – Savana alagada no Moxico, Leste de Angola

23 de fevereiro de 2010

O KANE-WIA

Como havia prometido no poste sobre Tchitundu-Hulu, hoje apresento o Kane-Wia.



Como vos prometi na postagem sobre Tchitundo-Hulu aqui estou hoje para vos falar de um outro morro do Namibe. Bem no interior, próximo da localidade do Virei, existe um morro a quem os Ovakuvale (Mukubais) chamam de Kane-Wia. É um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir.
Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais.
Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”.

Namibiano Ferreira


Há falta de imagem do Kane-Wia, ficam as Montanhas de Tchamalinde no Namibe


 Para terminar, um poema da minha autoria e inspirado no Kane-Wia mas para uma outra realidade. Este poema (anterior a 1998) faz parte de um poemário intitulado “No Vento e No Tempo”, cujos poemas não têm título mas são numerados de 0 até 46.







QUE SUBA O MWATA O KANE-WIA


O tempo arrasta garroa
como se fosse um vento fétido
expirado por deuses amnésicos.
Na noite, oximalankas e mabecos,
dão risadas sob o luar da Morte.
O tempo traz garroa no ventre
e uma aridez uterina ondula despertando
o Kazumbi ancestral que vem dizendo:


– Que suba o mwata o Kane-Wia,
Depressa-depressa!
– Que suba o mwata o Kane-Wia,
a montanha quem sobe não volta
para nunca mais impedir a chuva
sobre a terra, roseira bela!


– Que suba o mwata o Kane-Wia,
deixando açucenas florindo
nos ombros dos caminhos e sobre a terra,
roseira bela, a chuva crepitando
purgando e redimindo nosso corpo
desalmado e sem sentido.
– Que suba o mwata o Kane-Wia...




Namibiano Ferreira (in No Vento e No Tempo)




Mwata – senhor, chefe, líder.
Oximalankas – hienas.
Mabeco – cão selvagem.


20 de fevereiro de 2010

PEIXE DO NAMIBE E RECEITA DE KALULU

Este são peixes pescados no Namibe, são pungos. O mar da província do Namibe é tão rico em peixe que os naturais são conhecidos pelo epíteto de cabeças-de-peixe ou cabeças-de-pungo. Eu sou, muito orgolhasamente, um deles.
Deixo-vos uma receita angolana, porque comer é um acto cultural. Kalulu de peixe, com pungo é uma maravilha. Esta receita está devidamente testada, comprovada e provada.

Namibe - Angola

KALULU DE PEIXE



INGREDIENTES:
1 Kg DE PEIXE SECO
1 Kg DE PEIXE FRESCO
3 CEBOLAS
3 TOMATES GRANDES
1/2 Kg DE QUIABOS
1 Kg. RAMA DE BATATA DOCE (OU ESPINAFRES)
3 DENTES DE ALHO
2 COPOS DE ÓLEO DE DENDÊ/PALMA E 2 JINDUNGOS (PIRI-PIRI ou MALAGUETA)


PREPARAÇÃO:
Deita-se a demolhar o peixe seco, mas sem sair o sal todo.
Tempera-se o peixe fresco com sal, alho, vinagre ou limão de preferência. Começamos a preparar um refogado com o óleo de palma e os dentes de alho. Seguidamente, começamos a colocar em camadas, os peixe seco, o peixe fresco, a cebola em rodelas, o tomate em pedaços e limpo, os quiabos, as folhas de batata doce, o jindungo e o resto do óleo de palma.
Verificamos o tempero de sal e deixamos cozinhar em lume brando.
Este prato, costuma ser acompanhado com fúnji e feijão de óleo de palma.


Bom Apetite!!


Namibe - Angola

19 de fevereiro de 2010

MPUNGU-A-NDONGO

Na Baixa de Kassanje, Malanje, não muito distante das Quedas de Kalandula, http://poesiangolana.blogspot.com/2009/12/quedas-de-kalandula.html existem umas formações rochosas de rara beleza e que aqui já foram mostradas http://poesiangolana.blogspot.com/search/label/Pungo%20Andongo .
São as Pedras Negras de Pungo Andongo, em kimbundu: Mpungu-A-Ndongo.



MPUNGU-A-NDONGO

Vermelha como veia de sangue
a estrada jibóia langorosa
na paisagem e ao longe,
na distância, amanhecem gigantes
 na anhara plana de Kassanje.





São lapidescentes personificações
de força, ngola mística de telúricos
paquidermes, líticas manadas
arrastando paradas a terra viva
de mistérios, mitos, lendas e feitiços
ou, então, como se fossem negros
deuses colossais repousando
sobre o corpo verde escuro das lápides
e do tempo onde, ainda, se sente
marcado no peito-chão, o passo
ancestral dos divinos heróis
velando ontem, hoje e sempre
este berço mátria, grito de nação.

Namibiano Ferreira

 Pedras Negras de Pungo Andongo - Malanje - Angola (fotos Net)
 
Anhara- Savana.

15 de fevereiro de 2010

MIRADOURO DA LUA

O Miradouro da Lua é um lugar fantástico e quase irreal que existe a Sul da capital angolana, província do Bengo, no não menos fantástico Parque Nacional da Kissama. Esta obra escultórica e arquitectónica deve-se à erosão provocada pelas águas da chuva. A conjugação de solos muito brandos e de chuvas torrenciais curtas origina esta obra da Natureza, num escarpado bastante erodido e de grande beleza. Miradouro da Lua é um nome que lhe assenta bem por fazer lembrar uma paisagem lunar ou até de Marte, pela presença de solos vermelhos.
A beleza deste lugar é acentuada pela passagem abrupta de um planalto, a cerca de 100 metros de altura, para um escarpado que vai descendo até à orla do mar. Todo o conjunto é um bálsamo para os olhos, o verde da vegetação, o azul do céu e do mar conjugam-se às cores do solo que vão do vermelho-alaranjado ao branco. Vejam as imagens, que valem mais de mil palavras.

Miradouro da Lua - Parque Nacional da Kissama - Angola - Fotos Net

12 de fevereiro de 2010

O PENSADOR

O Pensador é a mais famosa estatueta de Angola. É considerada uma obra de arte fidedignamente angolana, figura emblemática, símbolo do país e que aparece, inclusive, na filigrana das notas de kwanza. Segundo algumas fontes, a origem da estatueta do Pensador está ligada aos cestos de adivinhação (ngombo) e nada têm em comum com a estátua do pensador actual. A adivinhação com cestos está ligada ao povo Tchokwé que habita a província das Lundas (Lunda Norte e Sul). Durante a época colonial, a empresa Diamang, que explorava os diamantes da Lunda, criou um Museu Etnográfico e trouxe para esse museu escultores tradicionais tchokwé incumbidos de fazer estatuetas ao gosto estético ocidental, aí teriam nascido e irradiado as actuais estatuetas do Pensador.
Caso seja verdade e assim parece, há que dizer, as estatuetas não perderam de todo o seu vínculo à escultura tradicional angolana.
Na tradição cultural, as estatuetas são usadas em ritos mágico-religiosos, desempenhando a função de amuletos que conteriam forças sobrenaturais. Mutadis mutandis poderemos mesmo afirmar que estamos perante uma espécie de “tarot” angolano.Uma das práticas utilizadas nesses ritos é a adivinhação, em consulta feita por uma pessoa interessada numa intervenção contra um mal, seja ele físico (doença) ou social. O sacerdote (nganga) utiliza vários processos de adivinhação, geralmente com objectos que simbolizam qualquer coisa, como estatuetas.
     Ngombo - cesto de adivinhação (nossoskimbos)


No nordeste de Angola, e etnia lunda-tchokwé usa o cesto de adivinhação, chamado de ngombo, do qual o sacerdote adivinhador retira pequenas figuras esculpidas em madeira, as quais irão determinar a sorte do consulente. Foram estas figuras que, como já se disse, resultaram na mais famosa estatueta angolana, “O Pensador”. Se virmos o simbolismo de qualquer uma delas, verificamos que, curiosamente, nenhuma sugere atitude introspectiva, pelo menos na acepção grega clássica.                                                                                                   
O Pensador tem a sua origem na figurinha que se chama Kalamba Ka Etho* que representa um momento de lamentação (carpideira). O aparecimento desta figura vaticina infortúnio e se ao lado dela não aparecer uma figura que amenize esse prognóstico são aconselhados o uso de amuletos.

Namibiano Ferreira













Pensador de origem Tchokwé e do lado direito A Pensadora, estatueta menos comum mas que também aparece com alguma regularidade, embora a figura masculina seja predominante.


*“KALAMBA KA ÊTHO - Figura estilizada também designada por lemba, kachakulu e kuku wa lunda (ascendente masculino). Figura antropomórfica sentada em posição típica de sepultura (mãos segurando a cabeça e cotovelos apoiados nos joelhos); antepassado paterno ou materno que personifica o culto ancestral. Quando este espírito provoca doenças exige-se um ritual adequado para se conseguir a cura. Não pode faltar a cerveja de palmeira (maruvo) e o rufar de tambores. É bom presságio aparecer com lukano (pulseira) e outros símbolos de realeza. É usado como amuleto e lembra ao consulente que deve respeitar os parentes falecidos e as tradições.

(Créditos Multiculturas)


Figuras de Kalamba Ka Etho (Multiculturas)

10 de fevereiro de 2010

A ARTE ANGOLANA TCHOKWÉ

A Arte Kocokwe (singular, e deve ler-se Kotchokué, o plural é Tucokwe, Tutchokué, embora eu sempre diga e escreva Tchokwé) é de uma beleza e expressividade que sempre me deslumbram. Há em Angola as artes de outros povos, como os Bakongo, Ovimbundu, Ambundu, Nganguela... mas, de facto, os grandes escultores são os Tucokwe. Este povo que teve um grande império, o Império Lunda com a sua mítica rainha Lueji, reparte-se, actualmente, por três países (Angola, R. D. do Congo e Zâmbia), fruto do colonialismo europeu quando repartiu África, como se fosse um bolo, por entre as várias potências coloniais da época (Conferência de Berlim – 1885).
Não vos trago mais palavras, eis aqui alguns exemplares da bela arte Tucokwe, mas antes de sair de cena, relembro o romance do escritor angolano Pepetela, Lueji – O Nascimento de um Império.





Pintura mural Tchokwe

 
Máscara Tchokwe
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tchibinda-Ilunga & Cadeira Tchokwe
 
 
Máscara Tchokwe (Kalelwa)
 
 
 
Estatuetas Tchokwe
 
 
Bailarino Mwana Pwó
 
 
  Máscara Mwana Pwó 
 
 
O Pensador


O Pensador, hoje uma estatueta de representação e unidade nacional do povo e da cultura angolana é, de facto, inspirada na figurinha (Kalamba Ka Etho)  dos cestos de adivinhação (ngombo) dos Lunda-Tchokwe. Brevemente publicarei uma postagem sobre os Pensadores.
 
Namibiano Ferreira

9 de fevereiro de 2010

LUANDA...

Canção para Luanda


A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xé
mana Rosa peixeira
responde?

-Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

"Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee"

- E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque, m'boquinha boa
doce docinha"

- Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!

- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?

Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?

- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:
- Luanda está aqui!



Luandino Vieira  


**


SABOR DE LUANDA



Bebo kissângua...
E cheira-me a frutas maduras:
mangas goiabas
abacaxis pitangas
perfumes escondidos
enchendo quindas de quitandeiras
apregoando.


Bebo kissângua...


............................ e cheira-me a Luanda!


Namibiano Ferreira
Kissângua - bebida tradicional feita de cereais ou fruta (ananás, por exemplo).




Breve História da Cidade De Luanda

Foi em 1575 que Paulo Dias de Novais, capitão-mor das conquistas do Reino de Portugal, desembarcou na ilha do Cabo onde, para além de alguns compatriotas seus, encontrou uma população nativa bastante numerosa, tendo aí consigo cerca de 700 pessoas, 350 dos quais homens de armas, padres, mercadores e servidores.
Um ano depois, reconhecendo não ser “o lugar acomodado ideal para a capital da conquista”, avança para terra firme e funda a vila de São Paulo de Luanda, tendo logo de seguida lançado a pedra para a edificação da igreja dedicada a São Sebastião, a 25 de Janeiro de 1576, no lugar onde hoje é o Museu Central das Forças Armadas (morro de São Miguel).
A origem do nome Luanda provem de Axiluandas singular Muxiluandas que significa “homem da ilha/mar” nativos da ilha do Cabo, também conhecida por ilha de Luanda.

 Para saber mais visite:  http://www.cidadeluanda.com/Pages/Luanda_historia.asp