foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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3 de fevereiro de 2010

LUANDA, 4 DE FEVEREIRO DE 1961

Luanda: Monumento aos Heróis do 4 de Fevereiro (AngolaPress)


Luanda, madrugada de 4 de Fevereiro de 1961:



Um grupo de mulheres e homens, munidos de paus, catanas e outras armas brancas, atacaram a casa de reclusão e a cadeia de São Paulo para libertarem presos políticos, ameaçados de morte.
O regime colonial fascista reagiu brutalmente e respondeu com uma acção de repressão em todo o país, com assassinatos, torturas e detenções arbitárias. Autênticos actos de terrorismo de estado.
Essas prisões arbitrárias desencadeadas pela PIDE (polícia política portuguesa) contra os integrantes do "processo 50", os massacres da Baixa de Cassanje, Icolo e Bengo e detenção e assassinato de várias pessoas indefesas, levou alguns nacionalistas a organizarem-se para a luta de libertação.
Os preparativos da acção tiveram início em 1958, em Luanda, com a criação de dois grupos clandestinos, um abrangendo os subúrbios e outro a zona urbana, comandados por Paiva Domingos da Silva e Raúl Agostinho Deão.
O 4 de Fevereiro de 1961 pode ser ainda considerado como um marco importante da luta africana contra o colonialismo, numa tradição de resistência contra a ocupação que vinha desde os povos de Kassanje, do Ndongo e do Planalto Central.

Luanda

 
FRAGMENTOS DE QUATRO POEMAS PERDIDOS EM FEVEREIRO



1
...nos muros corroídos das cidades novas
– toldando pesadelos antigos –
alguém escreveu:
Onde está o Sonho Prometido?


2
Viva a Utopia!
Só é pena ela um dia virar Poder...
Abaixo o Poder!
E eu nem sou anarquista...


3
Na manhã de Fevereiro
os areais da cidade
– nos lugares onde há areia –
ainda são
o campo dos proscritos
dos malditos dos deserdados...
ah! Como tenho raiva das injustiças
continuamente
iguais e permanentes.


4
As janelas que se abriram
para o quintal da Utopia
subitamente fecharam-se...
e uma rosa-de-porcelana
– pálido cetim – murcha
sobre meu corpo inerme
enquanto lá fora tem esperas
no verdadeiro raiar do âmbar de amanhã.

Namibiano Ferreira, in Fragmensias
 
 

2 de fevereiro de 2010

MITO OVIMBUNDU - O PRINCÍPIO DO MUNDO

Em dezembro do ano passado participei numa rifa promovida pela Martha lá no blogue dela http://mariamuadie.blogspot.com/ e acabei ganhando. Na terceira semana de janeiro recebi o livro pelo correio. Adorei a sua leitura. O livrinho escrito de uma forma muito viva e expressiva, conta várias lendas/mitos do povo Yorubá, um povo africano que vive na actual Nigéria, Benim, Togo, Ghana. A maior parte da população afro-brasileira do Estado da Bahia. no Brasil, é de origem yorubá. Para agradecer à Martha e à sua mãe, Iray Galrão, que é a autora do livro, vou contar, para elas e também para todos vocês, uma lenda da Mitologia Ovimbundu. O povo Ovimbundu fala o idioma Umbundu. A língua nacional angolana com o maior número de falantes e vivem no centro-sul de Angola.
Benguela, Bié e Huambo são províncias de língua Umbundu. Mas também se encontram nas províncias limitrofes de Huíla e Kwanza Sul.
Tela de Arlete Marques (Angola)


Lendas Africanas contadas por Iray Galrao



O PRINCÍPIO DO MUNDO

Suku (Deus), criou o homem e colocou-o num paraíso terreste, nas margens de um grande rio, o rio Kunene (ou Cunene). Suku, chamou a esse primeiro homem FÉTI, isto é, O Princípio.
Féti vivia sozinho na imensa floresta-paraíso que Deus lhe deu para viver. Caçava e comia dos frutos abundantes mas com o fluir dos tempos tornou-se um ser triste e rodeado por uma solidão atroz que nem os bichos da floresta e nem Ombwa, o cão, seu fiel amigo de caçadas conseguiam minimizar. Ele era o único ser racional na imensa floresta. Suku, espreitando do Céu, viu a tristeza inconsulável de Féti.
Um dia, quando Féti se preparava para sair em mais uma de suas solitárias caçadas, ouviu uma estranha e suave melodia. A melodia alertou todos os seus sentidos e imediatamente convergiu para o local.
Dirigiu-se para a margem do grande rio, pois era de lá que provinha a melodia que enfeitiçava os seus ouvidos. Quando lá chegou, Féti não pode esconder o seu espanto, o que se lhe deparou, naquele mágico momento, fez brotar em seu peito uma grande alegria e desenhar em seus lábios um iluminado sorriso. Saindo das águas mansas do Kunene, vinha um ser igual a ele e era tanta a beleza e formosura que esse ser irradiava que, logo alí, Féti se apaixonou, e dando-lhe a mão a levou para viver consigo. Féti, encontrou a primeira mulher, que Suku lhe ofereceu para amenizar a sua tristeza e solidão. Féti, a chamou de TCHÓIA, A Perfeição.
Os ventos sopraram, as chuvas cairam e, depois, vieram os cacimbos... o tempo fluiu e Suku abençoou a união de Féti e Tchóia, dando-lhes um filho – Galangue e, mais tarde, uma filha – Vihé.
Dos filhos de Féti – O Princípio e Tchóia – A Perfeição, descendem os povos do Huambu, Sambu, Galangue, Vihé...

*Nota: Na realidade, o povo Ovimbundu, encontra-se dividido nos seguintes sub-grupos (conheço dezoito):
Va-Mbalundu (Bailundos), Va-Vihé (Bienos), Va-Wambu (Huambos), Va- Ngalangi (Galangues), Va-Kimbulu (Quíbolos), Va-Ndulu (Andulos), Va-Kingolo (Quingolos), Va-Kalukembe (Caluquembes), Va-Sambu (Sambos), Va-Kakonda (Cacondas), Va-Kitatu (Quitatos), Va-Sele (Seles), Va-Mbuí (Amboins), Va-Hanya (Hanhas), Va-Nganda (Gandas), Va-Tchikuma (Chicumas), Va-Dombe (Dombes) e Va-Lumbu (Lumbos).
Máscara angolana


Há quem não considere os Va-Sele (Seles) e os Va-Mbuí (Amboins) Ovimbundu nem Ambundu por considerarem que eles se localizam numa zona de confluência de isoglosas, fronteira linguística entre Umbundu e Kimbundo, muitas vezes citados à parte mas eu não sou autoridade linguística para me pronunciar quanto a este assunto, apresento-vos o que sei de ouvir falar e de ouvir contar de outros mais-velhos.
Alguns dos nomes destes sub-grupos Ovimbundu, resultaram o nome de províncias (Huambo e Bié**) e localidades (Bailundo, Andulo, Huambo, Caconda, Ganda, Porto Amboim).


*Entre parêntisses são os nomes aportuguesados.

**Em português, Vihé resultou Bié porque os primeiros colonos portugueses eram do Norte de Portugal onde, a letra v vale b. Creio que se tentou restaurar o nome da província após a independência mas o uso já tinha tomado conta da boca de toda a gente.




Mito Ovimbundu, recontado por Namibiano Ferreira

Mapa da distribuicao geográfica do idioma Umbundu.

MALANJE OU MALANGE?


Mas afinal como se escreve, Malanje ou Malange? Neste fim de ano estive metido numa amigável discussão entre angolanos como seria a ortografia desta cidade e província angolana. Uns escrevem com “g” outros com “j”. As opiniões dividiram-se entre as duas letras e como havia malanjinos na sala a discussão esteve mesmo animada. Há falta, na altura, de um dicionário fomos à Net e encontrámos a mesma divisão, nuns lugares Malange noutros Malanje e noutros ainda uma mistura das duas ortografias.
Defendi a grafia com “j”, conforme escrevo habitualmente e foi assim que, posteriormente, encontrei no dicionário. Tanto em Angola como em Portugal proliferam com regularidade as duas ortografias.
Porque defendo o “J”? Primeiro, como palavra que deriva do kimbundu ela será, penso eu que não estou errado, pronunciada “dj”, logo ortografada com a letra jota. Segundo, o nome da cidade e da província derivam de um encontro muito caricato entre comerciantes portugueses e mulheres locais que estariam preparando mandioca. Trago-vos a versão que vem proferida no livro “Do Kunene a Cabinda”.
Comerciantes portugueses, no século XIX, “atravessavam o rio Malanje, na altura Kadianga ou Carianga, em Kapopa e depararam-se com um grande grupo de mulheres que estavam a esmagar mandioca para preparar fuba. Face a isto, os comerciantes portugueses perguntaram: “O que é que estão a fazer?” As mulheres teriam respondido em kimbundu: “Twamuzuka anji o mikamba yetu um ndangi” que quereria dizer: “estamos, ainda, a moer mandioca”.
Os europeus, que se admiravam do facto de encontrarem uma multidão de mulheres sentadas naquelas pedras, teriam perguntado: “Então não há homens nesta terra?” As mulheres, de novo em kimbundu, teriam respondido: “Mala hanji”, que significa literalmente em português: “Também há homens”.
E assim se deu o nome a uma localidade e que se alastrou à província. Se alguém souber de outra versão, deixe aqui o registo como comentário ou link, por favor.


Namibiano Ferreira

Nota: Malanje, capital da província com o mesmo nome, foi fundada em 1852 e elevada a cidade em 1932.

Fotos da cidade de Malanje

12 de janeiro de 2010

VOLTAREI EM BREVE...

Caros amigos, leitores e seguidores de Ondjira Sul, encontro-me sem acesso á Internet desde 30/12/2009, uma guerra tem sido travada com a provedora de broadband. Rescendi o contracto unilateralmente (a novela é longa...) e agora espero a conexao a uma outra companhia mas só a partir de 21/01/2010 se nao houver mais atrasos.
O inverno ingles está a ser muito frio, temperaturas negativas que no norte da Escócia chegaram a -22 graus centígrados... por aqui ficámos pelos 7 negativos. Nunca senti tanto frio na minha vida, quero ir pró meu Namibe.... Desde o primeiro do ano tudo é um vasto imaculado lencol. Mas a neve e o gelo comecaram antes do Natal, na noite de 17 para 18 de Dezembro, caiu um grande nevao e foi nessa sexta-feira, 18/12, que escorreguei no gelo e fracturei o pulso. Escrevo, desde entao, com uma só mao. Espero voltar brevemente ao vosso convívio pois tenho aproveitado o tempo para vos trazer mais estórias, poemas e artigos sobre a cultura angolana.

Kandandu mwangolé para todos!!!
Voltarei brevemente e deixo-vos um poema para reforcar esse kandandu. 
Namibiano Ferreira


Quedas Kalandula (foto Alex. Correia)

 
KALANDULA



Fruto de Menha
– a Água –
beijo do ventre
doce de Ombera
verbo e trovão,
sonho de Nzambi
na cor macia
do algodão
Lucala a morrer
no fumo
Lucala a renascer
espuma
no prumo de água
a despejar
a crescer
sonho de Nzambi
rendas e plumas
feitiço de Kianda
presa no céu
chorando Ombera
caindo líquida
no desprender
no ralhar
clamor do coração
caindo asa ndele
macio algodão
feito mesmo
só fumo da mutopa
de Ngana Zambi
água a batucar
rugido Lucala
rio nos lábios sagrados
a beijar
a prender
umbigo de Deus
Menha – a Água –
corpo sagrado de Ombera
ligando céu e terra
no sangue algodão
Kalandula sagrada
a despejar
a trovejar
o mistério sagrado
dos heróis ancestrais
a velar
a guardar
a terra vermelha
no despejar
despreguiçoso
Kalandula-Menha
– a Água sagrada –
alma de Nzambi
a crescer força
no corpo verde
sangue incolor
alma de Kwanza,
rosto de Nação
veia a crescer
Mátria
Frátria
nos caminhos
Menha – a Água –
algodão macio
bandeira da paz
fumo da mutopa
de SukuNzambi
kandandu forte
a desconseguir
a guerra
a conseguir
a terra
só no crescer
Kalandula-mar
Cabinda-Kunene.


–Ewá! Ewá!
Kikale ngó!


Namibiano Ferreira

29 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO & UM POEMA...

Para os seguidores, visitantes e habituais comentadores desta Ondjira Sul*, aos meus leitores em geral, os meus sinceros votos de uma boa passagem de ano e um excelente 2010, espero continuar a merecer as vossas leituras no próximo ano, VIVA A POESIA! Deixo-vos um poema, aquilo que vos posso oferecer...


* Alguns leitores já perguntaram o significado de Ondjira, dei a resposta na devida altura mas agora deixo tradução para todos: Ondjira, significa caminho, é uma palavra em idioma Tchiherero, falada pelos Mukubais (Ovakuvale) e Himbas (Ovahimba) do deserto do Namibe, Sul de Angola, onde já sabem, eu nasci.



Cantico - Tela de Valentim (Angola)

AD INITIUM

O vento soprava pelo simples prazer de soprar...


.............................................................................

Era no tempo em que não tinhamos tribo.
Andávamos na nudez aurora do tempo
recolhendo bagas doces de vento e rocio
caçando e pescando o pão nosso quotidiano
no espreguiçar matinal de cada dia de sol
partilhando os bens e os alimentos e nada era meu
porque essa foi a última palavra a ser inventada.


Era o tempo em que dávamos o nome primeiro
a todas as coisas e cada nome era um poema maduro
de símbolos e perfumado de metáforas luzidias.
Era, na verdade, o tempo sem os fardos preocupados
das filogéneses e ontogéneses, sem conceitos e preconceitos.
Era o tempo em que andávamos nus pintando
símbolos e riscando gravuras sobre as paredes
pedra útero das cavernas pelo mágico prazer de criar
sem estéticas e as frias racionalidades
simplesmente pintar riscar poetar e nada mais...


Namibiano Ferreira
 
Desenhos tradicionais Tchokwé (Angola)


PROJECTOS DA FUTURA CONSTITUIÇÃO (LINK)

No link abaixo terá acesso aos vários PROJECTOS DA FUTURA CONSTITUIÇÃO da República de Angola.

28 de dezembro de 2009

PORQUE HÁ COISAS QUE NÃO PODEMOS CALAR...

Este artigo foi retirado do blogue Alto Hama, http://altohama.blogspot.com/  com a devida permição do autor do texto e do blogue, o jornalista luso-angolano, Orlando Castro.

Ele há coisas que um homem não pode calar... porque há dias que o poeta não é um fingidor e, muito menos, quando esse homem canta a sua terra e se diz porta-voz do seu povo. Não me interessa se o poeta é, literáriamente falando, bom ou ruim, o que me interessa é esta verdade que todos vêem e ninguém fala por medo, por interesse ou por outra coisa qualquer.
Perder a futura publicação de um livro lá na minha Banda? Bem, a minha consciência é mais importante... pelos que sofrem e por tudo que lhes foi prometido! O que é preciso é mais pão, mais saúde, habitação, educação e não tanta torre na marginal, tanta obra faraónica...


Musseque Boavista (Luanda) - Foto http://caribou-angola.blogspot.com/


Enquanto os angolanos morrem à fome portugueses endeusam Isabel dos Santos

 Segundo o português Jornal de Negócios, “Portugal tem muitas mulheres importantes, algumas são ricas, poucas são poderosas. Uma é as três coisas. Tem 36 anos e não é portuguesa. É a angolana Isabel dos Santos.”
E acrescenta: “Isabel e José Eduardo construíram um poder tão ramificado em empresas portuguesas que só o Estado e Grupo Espírito Santo os ultrapassarão. Tanta concentração de poder é mais ameaçadora do que uma nacionalidade”.


O que os jornais, este como (quase) todos os outros portugueses, não dizem é que 68% (68 em cada 100) dos angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.


Não dizem que 45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos, ou que no “ranking” que analisa a corrupção em 180 países, Angola está na posição 158.


Não dizem que em Angola a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, e que o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coação e às ameaças do partido que está no poder desde 1975.


Não dizem que em Angola, a corrupção política e económica é, hoje como ontem e certamente amanhã, utilizada contra todos os que querem ser livres.

Não dizem que Angola disponibiliza apenas 3 a 6% do seu orçamento para a saúde dos seus cidadãos, e que este dinheiro não chega sequer para atender 20% da população, o que torna o Serviço Nacional de Saúde inoperante e presa fácil de interesses particulares.

Não dizem que em Angola 76% da população vive em 27% do território, que mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população de cerca de 18 milhões de angolanos.

Não dizem que em Angola o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Não dizem que enquanto a maioria (68%) dos angolanos nem fuba ou peixe seco tem, Isabel dos Santos e os restantes membros do clã adoram trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba, queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, e vinhos do tipo Château-Grillet 2005.

Texto reproduzido na íntegra daqui: http://altohama.blogspot.com/search?updated-max=2009-12-22T19%3A37%3A00Z&max-results=10  , da autoria do jornalista luso-angolano, Orlando Castro.
Musseque (bairro-de-lata, favela) de Luanda, visto de satélite. A Luanda real, dos pobres, dos famintos, dos que não vêem os benefícios do petróleo, dos diamantes e das muitas outras riquezas...

A Luanda do futuro, dos dólares, euros, dos lucros dos petróleos, dos diamantes e das outras muitas riquezas... a Luanda dos poderosos vestindo seus obesos fatos engomados e gravatas de luxo. Projecto do futuro Shopping Kinaxixi, onde o povo dos musseques irá fazer suas compras de luxo.

E para terminar um poema do autor desta Ondjira:

LUUANDA


Mu’xi ietu iá Luuanda mubita ima ikuata sonhi...*
(de um conto popular)
In Luuanda – Luandino Vieira


O vento de Luandino
deu berrida nas nuvens
e as folhas secas
todas da mulembeira
rodopiaram diásporas
pelo chão do musseque...


O vento assobiou acordando
a insustentável leveza do algodão
que trouxe a prata líquida
a cantar bagos de chuva
sobre o quotidiano pobre e sujo
das areias e vielas do musseque.
A água do céu e a lama da terra
conjugaram o vazio de políticas
amassando a pobreza esquálida
que se gruda aos olhos de quem passa:
homens, mulheres e crianças
são como seus casebres feitos de lama,
lama suja, lama triste do musseque
e a chuva-prata a cantar nos zincos
ghetto ghetto ghetto... denunciando
e a chuva gota após gota
cai sem lavar esta distância
sem purgar esta doença social
e a chuva gota após gota
cai raivosa sobre os zincos velhos
ghetto ghetto ghetto... chovendo
e a chuva passando com pressa
tem vergonha de chover aqui
cantando no seu gotejar:
ghetto gota ghetto gota ghetto!


Namibiano Ferreira


* Nesta nossa terra de Luanda, passam coisas de envergonhar...
(tradução livre de Namibiano Ferreira)


26 de dezembro de 2009

BANDA DESENHADA ANGOLANA

Para saber mais sobre a BD (histórias em quadrinhos) angolana, sua história e seus autores siga este link: http://www.netangola.com/mankiko/bd_angolana.asp




 



Mankiko & Fatita












Finório & Joaquinito














Estas são algumas personagens da BD angolana, da autoria de Sérgio Piçarra.

21 de dezembro de 2009

SOBRE O NATAL...


Algumas pessoas têm perguntado se se festeja o Natal em Angola ou se eu comemoro o Natal. Vai daí, resolvi fazer esta postagem.
Sim, eu comemoro o Natal, sou católico. O Natal é amplamente festejado em Angola. A maioria da população é cristã. Mas não se festeja um Natal consumista, como aqui na Europa pois a maioria da nossa gente vive, infelizmente, com muito pouco, muito pouco mesmo.
Durante o regime marxista era feriado também, com o nome de Festa da Família. Segundo dados da Embaixada de Angola a religião encontra-se assim distribuída: Católicos 51%; Protestantes 17%; Tradicional (Animista) 30%; Outras 2%.
Há que referir aqui uma Igreja Protestante de cariz essencialmente nacional, a Igreja Tocoísta, fundada por Simão Toco e que actualmente está em expansão fora de Angola. Nesta postagem vou dar-vos mais informações sobre Simão Toco, um profeta angolano, um homem de paz, ele viveu em Tômbwa, com residência fixa, no Farol da Ponta Albina.
Em Angola, em casa dos meus avós em Tômbwa, era hábito celebrarmos o Natal da seguinte forma: na véspera celebrávamos na tradição católica portuguesa, bacalhau de consoada e missa do galo. Já o dia de Natal era celebrado com uma fausta muamba de galinha acompanhada por fúndji de fuba bombó e como lá, em dezembro, é calor, comíamos a muambada debaixo de uma parreira de videiras. Para os que não sabem, no Namibe, as culturas mediterrânicas dão-se muito bem, é como se estivessem em casa, nomeadamente as videiras e oliveiras.
Actualmente, embora católico, tenho uma visão independente em relação à religião, não só sobre o catolicismo mas a religião em geral. Acredito em Deus, mas não acredito na religião. Deixo-vos um poema:





PAGANUS



Adoraria o Sol o Mar
e o murmúrio da Natureza.
O correr infinito dos rios
e toda a fremente beleza
da Vida e do luar beijando
prata nos lábios azeviche da Noite.



Morreria pagão, assim,
sem nenhum deus por definição
não fosse este acreditar
num Deus do perdão...
mas hoje, morto, assassinado
no altar profano da religião.



Namibiano Ferreira





Simão Toco, o Profeta Angolano


Simao Toco



Simão Toco nasceu em Fevereiro de 1918, no norte de Angola, em Quisadi Quibango e é considerado um profeta africano. Iniciado muito jovem no culto baptista, numa linha de pensamento próxima de Simão Kimbangu. Ele funda um movimento religioso inicialmente denominado “Kitawala” e que persegui-a sobretudo o poder colonial Belga no Congo, onde vivia pouco antes da independência deste.
Fundação da igreja tocoísta, ocorre em 25 de julho de 1949 e o que assinala o nascimento deste movimento, é a narrativa da descida do Espírito Santo sobre Simão Toco e seus companheiros, numa noite de oração, quando estes começaram a tremer, falar em línguas desconhecidas e citar passagem da Bíblia, notadamente Actos I e II.
Uma vez presos e deportados pelo regime belga e entregues ao governo Português, em 1950, o movimento tocoísta adquiriu uma nova dimensão. Simão Toco e seus aderentes foram espalhados por diversas partes do território angolano, no intuito português de enfraquecer o movimento. Todavia, este espalhamento (que incluiu sucessivas transferências de Simão Toco para várias regiões do país) resultou na disseminação da doutrina tocoísta, tornando o movimento trans-étnico e nacional e não apenas de carácter bakongo/angolano.
As características da doutrina tocoísta eram basicamente a da recusa do regime colonial, sem no entanto estabelecer uma ruptura a nível político com este regime, adoptando uma postura de obediência às autoridades e de dedicação ao trabalho e aos estudos, com ênfase no aprendizagem da língua portuguesa. A separação (espiritual) operada pelo grupo religioso do “mundo dos brancos” foi acompanhada do rompimento com alguns valores tradicionais, sobretudo relacionados às autoridades tradicionais.
Esta atitude indica a vontade de alheamento do grupo religioso tanto do sistema burocrático colonial (mundo dos brancos) como do sistema “costumeiro” (poder tradicional).
Neste caso, a importância dada às mulheres na hierarquia da igreja, a proibição da poligamia e a adopção de algumas regras de vestimenta (à ocidental), corte de cabelo e uso de símbolos de identificação indicam esta posição refractária ao sistema tradicional e de criação de um grupo à parte.
De acordo com alguns relatos, Simão Toco, seria portador de alguns poderes sobrenaturais, o que teria motivado o Papa João XXIII a enviar um emissário para se encontrar com ele em 1962. Outro facto referido, seria a afirmação nos anos 80 de João Paulo II, de que “Cristo é Africano e vive no norte de Angola
Simão Toco morre na noite de 31 de Dezembro a 1 de Janeiro de 1984.
É de referir a implantação do movimento tocoísta no Japão.
Para saber mais ler: "Simão Toco - A Trajectória de um Homem de Paz" editor: Editorial Nzila – Angola.

Retirado do Blog: http://isafromaveiro.blogspot.com  

PONTA ALBINA



Nzambi:
–São muitos os caminhos
para te encontrar…
sendeiro longo, muita Leba,
ondjira de subir e descer,
Kalunga de muito remar
e em Tômbwa
o Farol que vivia no farol
encontrou um caminho
de afirmação, paz e liberdade


Namibiano Ferreira

 
PARA TODOS OS VISITANTES E LEITORES DE ONDJIRA SUL, OS MEUS SINCEROS VOTOS DE FELIZ NATAL & PRÓSPERO 2010.

18 de dezembro de 2009

MÁTRIA


Tela de Vanessa Lima (Mae África)
I


Minha carne é ngoma
presa na alma vestida
na goma alienígena
e o que resta no fino sabor
colorido das missangas
são os perfumes tatuados
no odor suave desenhado
sobre os poros da pele
traço de takula, barro
e terra vermelha encharcada
na sola viva do corpo
kissanje nu, hungu a vibrar
kwanzas e dikanzas
vestindo Kassai
Cubango e Kunene
Zaire e Zambeze
rios e veias húmidas
túrgidas a clamar
o cheiro, o fragor do mar
calema onde desagua
meu corpo vermelho
filho da terra-mãe-rio
pranto vermelho-sangue
a desaguar porto no corpo
Kuroka água de nascer
do colo quente do chão.


Terra-Mãe, como te esquecer?
Impossível... (é o silvo do vento)
se o meu umbigo está enterrado Lá...
Lá, no fundo Mátria do teu ventre!


II


São rios as minhas veias.
Rios correndo ao Sol vivo
sulcando florestas e savanas
serpenteando teu corpo, Mátria.
E no desalinho da hidrografia
vão desaguando em minha alma
kalunga, oferecida idolatria,
que dou à calema
ao ventre do mar
e à luz do poema
onde metade da múcua
flutua negra no sim-que-sim
kalunga, vida-prata a bailar...


Namibiano Ferreira


Ngoma – tambor.
Takula ou tacula – tinta da mesma árvore, cor vermelha.
Kissanje, dikanza – instrumentos musicais.
Hungu – Berimbau.