foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

9 de novembro de 2009

RELENDO VIRIATO DA CRUZ NOS CAMPOS DO NORFOLK

Viriato da Cruz (poeta angolano)

Quase todos os dia chove.
O sol não se dilui na face
dos nossos desejos.
Aqui, cada dia mais a Norte,
a luz de Inglaterra
é a infinita verdura espalhada
pelos campos do Norfolk
às vezes cerceados pelo manto
das vestes outonais
e o verde do Norfolk é uma sede
na aridez do meu deserto...

E o que sei de mim
está no suspenso da tarde
- agonia cinzenta -
onde caminho relendo
os poemas do Viriato.
Os poemas choram
no assobio triste
deste vento outonal
e os poemas do Viriato
já não são em si mesmos
o Viriato na pessoa
de sua voz.
E por entre uivos
do silêncio tagarela
tudo se perde
na voracidade verde
que não satisfaz
a clorofila tropical
da minha alma.



Namibiano Ferreira

Quedas da Kalandula (Malanje - rio Lucala)

3 de novembro de 2009

É NOVEMBRO NOVAMENTE...


Para a Meg, que tanto adora as acácias rubras em flor, está no tempo delas florirem ao longo das ruas e avenidas de Luanda, de Benguela... de Angola.




Naquela manhã do Sul
chovia Novembro
no falar do calendário
e os dedos dos dias todos
traziam búzios e ventos
a passar os teus braços
abertos a desejar os céus,
eram tempos incendiados
no soar místico das marimbas
disseminando a invocação
rubra das acácias ao sol
chorando pétalas
sangue de veludo
mágoas passadas
no construir hodierno
da paz ndele de voar
sobre acácias rubras
florindo Novembro
de permanentes açucenas.





Namibiano Ferreira


Ndele - garça branca/boieira.



26 de outubro de 2009

TELAS


Gazelas



Tilintar telas
esgazeadas de sonhos
fechar os olhos
e voar gazela
vento nu
a roçar espinheira
cavalgar guelengue
pégaso que me pede
no traço palanca
dos pincéis
rebuscar a cor onírica
sobre paletas iridiscentes
perfumes e pratas
cacimbos e luares
pintando horizontes
místicos de nada
no vôo asa
garajau a gritar
o azul turquesa
mar de Namibe.

Guelengue

 E...



se Eternidade existe
ela começa no pedaço
minúsculo
do azul marinho
Namibe guardado
dentro de mim
a marulhar
beijo e maré
carícia de Kianda
vestindo tômbwas
cacimbo e missangas.


Namibiano Ferreira


Palanca Negra Gigante, um símbolo de Angola.

A WELWITSCHIA MIRABILIS



Na língua local, a Welwitschia, chama-se Tômbwa e dá nome à cidade onde nasci. Este foi também o nome científico (latinizado) que o naturalista austríaco, Frederich Welwitsch, lhe deu: Tomboa Angolensis. Só mais tarde viria a chamar-se Welwitschia Mirabilis, em sua homenagem.




Que posso vos dizer sobre esta planta que conheço desde que me sei gente? É uma planta que sempre me fascinou e que se reveste de um halo muito especial na minha poesia. Evolta em mistério ela será um eterno símbolo para mim, um coração que resiste ligado-me à terra Namibe e é, também, um símbolo da terra angolense. Deixo-vos um texto da Enciclopédia Livre para que possam apreciar em termos científicos esta raridade fitológica do Namibe e que me recorda uma história que meu avô me contou: quando Frederich Welwitsch viu esta estranha planta, pela primeira vez, ajoelhou-se no chão quente do deserto num misto de espanto e religiosidade, totalmente maravilhado por tão singular planta. Ficam também estes poemas.


WELWITSCHIA


Aridez suprema
e o mistério levanta-se do chão:


                                       tombwelwitschianamibilis!


Braços dispersos
corpo
gretando aridez
alma
gritando vida!




Namibiano Ferreira




Flor feminina



Flor masculina






TENACIDADE

Aberta ao infinito
árido
sem tempo,
a Welwitschia
é um poeta ermo
e solitário
aspirando a Vida
escassa em cada
missanga húmida
pérola minúscula
de cacimbo
luz e cristal.


Namibiano Ferreira




MAIS SOBRE A WELWITSCHIA



(Artigo retirado de wikipedia, ligeiramente adaptado)


É uma planta rasteira, formada por um caule lenhoso que não cresce, uma enorme raiz aprumada e duas folhas apenas, provenientes dos cotilédones da semente; as folhas, em forma de fita larga, continuam a crescer durante toda a vida da planta, uma vez que possuem meristemas basais. Com o tempo, as folhas podem atingir mais de dois metros de comprimento e tornam-se esfarrapadas nas extremidades. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos.
A Welwitschia Mirabilis é uma planta dióica, ou seja, os cones masculinos e femininos nascem em plantas diferentes.
Apesar do clima em que vive, a Welwitschia consegue absorver a água do orvalho através das folhas (o tal cacimbo de que já vos falei na postagem sobre o Deserto do Namibe). Esta espécie tem ainda uma característica fisiológica em comum com as crassuláceas (as plantas com folhas carnudas ou suculentas, como os cactos): o metabolismo ácido - durante o dia, as folhas mantêm os estomas fechados, para impedir a transpiração, mas à noite eles abrem-se, deixam entrar o dióxido de carbono necessário à fotossíntese e armazenam-no, na forma dos ácidos málico e isocítrico nos vacúolos das suas células; durante o dia, estes ácidos libertam o CO2 e convertem-no em glicose através das reacções conhecidas como ciclo de Calvin.
Esta espécie foi baptizada a partir do nome do Dr. Friedrich Welwitsch, que contribuiu para o conhecimento desta e de muitas outras plantas de Angola.
Devido às suas características únicas, incluindo o seu lento crescimento, a Welwitschia é considerada uma espécie ameaçada. No entanto, pensa-se que as plantas que vivem em Angola estão mais protegidas que as da Namíbia, devido às minas terrestres que protegem o seu habitat.

25 de outubro de 2009

A MÁSCARA MWANA PWÓ


Dançarino Mwana Pwo (foto da Net)
As máscaras Mwana Pwó sempre me fascinaram. Fazem lembrar as máscaras da tragédia grega. O que me agrada apreciar nelas são a sua expressão, o sentido que encerram e sobretudo a sua beleza plástica.


Entre os Tchokwé de Angola estas máscaras são utilizadas por dançarinos que representam um bailado durante o período de iniciação dos rapazes na sua passgem para a vida adulta e que tem como ritual a circuncisão.


Mwana Pwó significa “mulher jovem” e representa um antepassado feminino que morreu em idade jovem. É uma lembrança da morte como experiência iniciática,  morte e renascimento.



Foto: Nossoskimbos

A máscara representa a cara de uma mulher falecida, de olhos encovados. Os dentes pontiagudos e as escoriações, demonstram o seu falecimento precoce, ainda com as marcas da recente iniciação. As lágrimas esculpidas sobre as faces são a dor da perda que se experiencia através da morte.


Mwana Pwó idealiza valores femininos e é uma personagem feminina. No entanto, é um homem que executa o bailado (as máscaras estao vedadas às mulheres e aos não iniciados), dançando graciosamente ensina boas maneiras aos espectadores. O poder e a elegância da actuação do dançarino é suposto trazer fertilidade às mulheres.

Namibiano Ferreira




Foto: NossosKimbos
 
 
 
 
Nota: A cultura Tchokwé, nao é exclusiva de Angola, ela reparte-se por mais dois países, Congo-Kinshasa e Zambia.

21 de outubro de 2009

OLHOS

 

Tela de Toia Neuparth (Angola)
   
                                                                                   Para Dinah


Melíferos ambarinos translúcidos
– acariciando minha nudez –
são os teus olhos avelãs
dançando cristal iluminado
no prelúdio dos dias incendiados
e dedilhando fagueiros
as orquídeas que te ofereço num beijo
florido na boca púbica a clamar
o nosso inteiro desejo.


Namibiano Ferreira

20 de outubro de 2009

O DESERTO DO NAMIBE

Litoral do Namibe.

Hoje vamos visitar o sul de Angola, província do Namibe de que tanto ouvem falar aqui neste blogue.

As dunas.


O Deserto do Namibe é partilhado por Angola e a Namíbia. Estas fotos são todas em território angolano, província do Namibe, onde nasci.

A região é considerada como sendo o mais antigo deserto do mundo, tendo permanecido em condições áridas ou semi-áridas há pelo menos 80 milhões de anos. A sua aridez é causada pela descida de ar seco arrefecido pela corrente fria de Benguela que passa na costa. Menos de 1 cm de chuva cai anualmente e o comum dos mortais poderá pensar: esta terra desértica é completamente estéril. Mas não, não é estéril, animais e plantas fazem dele há milhões de anos o seu lar e ecosistema favorito tanto que não existem plantas, como por exemplo, a Welwitschia Mirabilis, em mais outro local do planeta. O encontro do ar seco e quente do deserto com o ar frio e húmido da corrente fria de Benguela, junto à costa, trazem uma névoa matinal que localmente chamamos cacimbo, esse orvalho é a água que alimenta plantas e animais e penetra até 50 km a partir do litoral.




Homens Mukubais/Ovakuvale (foto de Alex. Correia).

Os homens também aqui habitam há milhares de anos. As gravuras rupestres de Tchitundu-Hulu, são disso um exemplo e para os especialistas elas foram executadas, provavelmente, há 20.000 anos por um misterioso povo talvez os ancestrais dos Ovasekele (vulgo Bosquímanos).


O litoral do deserto é riquíssimo em peixe e ao longo dos rios de enxurrada (só trazem água no período chuvoso, nomeadamente entre fevereiro e abril) pratica-se a agricultura de subsistência. Essa água não provém de chuvas caídas no deserto mas a centenas de quilómetros, nas terras altas da Huíla. Durante o período colonial os portugueses trouxeram culturas europeias que se adaptaram muito bem. Sobretudo culturas mediterrânicas como a vinha, a oliveira e frutas diversas, como pêssegos, melões, maçãs e ameixas.

Vários povos habitam o deserto. A maioria são bantus, pertencentes ao grupo etnolinguístico dos Hereros ou Helelos, cujos principais subgrupos são Dimbas (Ovandimba), Himbas (Ovahimba), Mukubais (Ovakuvale), Cuanhocas/Curocas/Mukurocas (Ovakwanhoka) e Guendelengos (Ovangendelengu). Nas áreas urbanas, das cidades do Namibe e Tômbwa, vivem os Kimbares, uma mistura de vários povos vindos do centro e norte de Angola porque os Hereros nunca deixaram a sua maneira tradicional de viver, nascem pastores e morrem pastores.




Arco do Carvalhao, onde existe uma lagoa.


Guelengues (Orix), quase nao necessitam de água.



Perto da Lagoa do Arco

Mulheres Himba/Ovahimba, pintam-se de vermelho.


A invulgar Welwitschia/Tombwa rodeada pela aridez.


Os povos não-bantus são pequenos grupos, na sua maioria ainda recolectores que se encontram espalhados pelo deserto e também por outras regiões do sul de Angola: Ovasekele, Ovakwisi, Ovakwepe e Ovakankala. Muitas vezes o mesmo povo é conhecido por diferentes nomes ou nomes deturpados, por exemplo e seguindo a mesma ordem: Camessequéis/Bosquímanes/Cassequéis, Mucuíssos/Cuísses, Cuepes e Mucancalas. A linguagem destes povos tem pequenos cliques.




Welwitschia Mirabilis, a raridade e o exotismo da flora.



Deixo-vos aqui este link de um lodge que se chama Omauha (Pedra) e que se localiza no deserto. Uma maneira de conhecer o meu Namibe é visitá-lo!









E para terminar o poema:

ETERNIDADE



É no SUL
do Sul ao sol
na aridez
de sua concha
que eu quero
fazer o meu fogo,
engordar os meus bois
e bem depois
enroscar-me
no eterno
aconchego
aridez de sua concha.



Namibiano Ferreira

13 de outubro de 2009

BOM PORTO



Foto de Dinah (Brancaster)

 Para Dinah






Gotículas ainda
de salsugem
mansa marinheira
anunciam 
calemas e garroas...



Películas de cetim
cor-de-maresia
arrepiam a nudez
do fogo e desejo
e o teu corpo dormindo
nos lábios frutados
astralinos do luar
é o porto que procuro
antes das tormentas.


 
Namibiano Ferreira

PEDRAS NEGRAS DE MPUNGO-A-NDONGO



Para quebrar os dias de poesia, o autor deste blogue decidiu intercalar imagens da sua terra e no futuro algumas pequenas considerações sobre a cultura, usos e costumes dos vários povos de Angola. Hoje iniciamos a visita às Pedras Negras de Mpungo-A-Ndongo ou Pungo Andongo. Estas belas e sugestivas formações rochosas localizam-se na província de Malanje, no norte de Angola e distam cerca de 116 km da cidade de Malanje, capital de província. A graciosidade das formas dos monolitos são autênticos poemas esculpidos por Mãe Natureza.




A cor negra deve-se a uma alga filamentosa e talvez por essa razão as Pedras Negras são mais formosas na época das chuvas. Aqui também se encontra a mítica peugada grava na rocha e que a tradição atribui à célebre rainha da Matamba, Nzinga Mbandi Ngola (1582 – 1663) uma das grandes figuras da História de Angola pela sua luta e resistência ao avanço colonial português.











Segundo fontes históricas estas foram palavras proferidas por Nzinga Mbandi Ngola a um emissário português: “Sendo eu nascida para mandar no meu Reino, não tenho que obedecer nem reconhecer um outro soberano e passar de Senhora absoluta a serva ou escrava. Se o Português quer de mim um donativo cada ano, dá-lo-ei de boa vontade, desde que ele me dê também um, e assim estaremos iguais na cortesia”



Namibiano Ferreira


(Fotos da Net)

10 de outubro de 2009

IRONIAS



Ontem foi dia de aniversário do blogue e como não queria misturar datas hoje faço outra postagem para assinalar a morte de Che Guevara, que ocorreu há 42 anos. 


Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che (Rosário, 14 de junho de 1928 — La Higuera, 9 de outubro de 1967).



1-

A verdadeira morte
de Che Guevara
É
(tão pouca sorte)
ser hoje vendido
estampado em lucrativas
T-shirts capitalistas.



2-
A revolução
não é
a força do ideal.
É, em si mesma,
a morte do Ideal.




(D’aprés um poema de Maria Alexandre Dáskalos, A revolução/é)


Namibiano Ferreira