foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

13 de outubro de 2009

BOM PORTO



Foto de Dinah (Brancaster)

 Para Dinah






Gotículas ainda
de salsugem
mansa marinheira
anunciam 
calemas e garroas...



Películas de cetim
cor-de-maresia
arrepiam a nudez
do fogo e desejo
e o teu corpo dormindo
nos lábios frutados
astralinos do luar
é o porto que procuro
antes das tormentas.


 
Namibiano Ferreira

PEDRAS NEGRAS DE MPUNGO-A-NDONGO



Para quebrar os dias de poesia, o autor deste blogue decidiu intercalar imagens da sua terra e no futuro algumas pequenas considerações sobre a cultura, usos e costumes dos vários povos de Angola. Hoje iniciamos a visita às Pedras Negras de Mpungo-A-Ndongo ou Pungo Andongo. Estas belas e sugestivas formações rochosas localizam-se na província de Malanje, no norte de Angola e distam cerca de 116 km da cidade de Malanje, capital de província. A graciosidade das formas dos monolitos são autênticos poemas esculpidos por Mãe Natureza.




A cor negra deve-se a uma alga filamentosa e talvez por essa razão as Pedras Negras são mais formosas na época das chuvas. Aqui também se encontra a mítica peugada grava na rocha e que a tradição atribui à célebre rainha da Matamba, Nzinga Mbandi Ngola (1582 – 1663) uma das grandes figuras da História de Angola pela sua luta e resistência ao avanço colonial português.











Segundo fontes históricas estas foram palavras proferidas por Nzinga Mbandi Ngola a um emissário português: “Sendo eu nascida para mandar no meu Reino, não tenho que obedecer nem reconhecer um outro soberano e passar de Senhora absoluta a serva ou escrava. Se o Português quer de mim um donativo cada ano, dá-lo-ei de boa vontade, desde que ele me dê também um, e assim estaremos iguais na cortesia”



Namibiano Ferreira


(Fotos da Net)

10 de outubro de 2009

IRONIAS



Ontem foi dia de aniversário do blogue e como não queria misturar datas hoje faço outra postagem para assinalar a morte de Che Guevara, que ocorreu há 42 anos. 


Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che (Rosário, 14 de junho de 1928 — La Higuera, 9 de outubro de 1967).



1-

A verdadeira morte
de Che Guevara
É
(tão pouca sorte)
ser hoje vendido
estampado em lucrativas
T-shirts capitalistas.



2-
A revolução
não é
a força do ideal.
É, em si mesma,
a morte do Ideal.




(D’aprés um poema de Maria Alexandre Dáskalos, A revolução/é)


Namibiano Ferreira

9 de outubro de 2009

ESTE BLOG FAZ QUATRO ANOS





Hoje, o meu blog faz quarto anos. Nesta mesma data em 2005 publiquei o poema “Oráculo” http://poesiangolana.blogspot.com/2005/10/oraculo-alem-naquele-mar-de-calemas.html  passo a passo e muito timidamente fui construindo este espaço que foi, desde o seu início votado à poesia elaborada por mim.



Em Março de 2008 coloquei um contador, não garanto que tenho recebido 10.384 visitas para me lerem porque muitas das bandeirinhas que por lá militam vieram por acaso ou para ver as fotos.



Concerteza que outras bandeirinhas vieram para ler a poesia. Desses se destacam o Brasil (5.213), Portugal (3.424), Angola (319), Moçambique (29), Cabo Verde (5) e que se podem juntar o Reino Unido, França, Espanha, Estados Unidos, Alemanha devido à forte presença de comunidades de expressão lusófona.



Para bolo de aniversário trago-vos um poema já aqui publicado anteriormente mas que é um dos meus preferidos. Inspirado no poema de Álvaro de Campos “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo” trata-se de uma pequena vingança porque não gosto de belezas matemáticas.



Para quem não conhece é assim o poema de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa):



O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.


óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó


(O vento lá fora.)




Álvaro de Campos, 15-1-1928






ADULTERANDO ÁLVARO DE CAMPOS


Uma mulher Mukubal é tão bela como a Vénus de Milo
o que há é pouca gente para dar por isso.
Depois de onze girassóis florindo Novembro
ainda há pouca gente para dar por isso
e uma mulher Mukubal é mais bela que a Vénus de Milo.


ÓOOO - ÓOOOOOO - ÓOOOOOOOOOOOOOOO


(O vento no deserto.)

Namibiano Ferreira
In Resist(ir) Assim - Poesia a Doze
Editorial Minerva (1999)

OBRIGADO A TODOS OS QUE AQUI PASSAM LENDO E COMENTANDO OU SIMPLESMENTE OLHANDO...

8 de outubro de 2009

A LIBERDADE


Tombwa, vista de satélite

Foto de Eugénio Vicedo


A lua cheia chegava, por fim, iluminando
o suave marulhar no crespo nocturno
carapinha da noite-Tômbwa cidade.
E a noite, vestida de luar, trazia até mim
a baía a tremeluzir a cantar a dançar o mar
místico semba carregado de mistérios
e desejos proibidos de Santa Liberdade.
Nas batucadas choradas dos contratados
floriam açucenas no lóbulo verde do sol
e sob as peugadas incendiadas do vento
dormiam sonhos carmesim sorrindo
no ventre claro azul futuro de Novembro.


Namibiano Ferreira

5 de outubro de 2009

MUKUROKA PIRIQUITO

Mukuroka Piriquito - Gravura de Mário Tendinha (Angola)


Este poema foi inspirado nesta gravura da autoria do meu conterrâneo e amigo Mário Tendinha, que inaugurou no dia 1 de Outubro do corrente, em Luanda, a exposição NgolaMirrors que podem ver aqui  http://www.ngolamirrors.com  Mukuroka Piriquito, aqui retratado é um conterraneo lá do Sul, de Tombwa. Nao é personagem inventada, nem pelo pintor nem pelo poeta. Ele existe mesmo. É um homem que foi guia de cacadores e turistas, conhece o deserto e a regiao do Parque Nacional do Iona sem precisar de uma bússula. Ele é a própria bússula e palmilha o deserto, grandes distáncias, a pé. Um grande e forte kandandu para Mukuroka Piriquito, vivam as gentes do deserto do Namibe!






MUKUROKA PIRIQUITO




Cansado, talvez de trazer nos pés o vento de pentear os dias
e o tempo das rotas esquecidas de muitas ondjiras do sul
Mukuroka Piriquito descansa no lar da fogueira acesa
no Omauha com o sol de lembrar Tchitundu-Hulu e a espiar
olho no Mukuroka Piriquito ave de voar na asa palmilhando
areias milhas e poeiras ventos e canseiras nas miragens da sede
do nosso Sul encharcado de amarelo a morrer luminoso
no afago abraço do sol derretendo welwitschias gazelas
e Tômbwa que resiste no abraço velho das casuarinas heroínas
que se cansaram de lutar contra as areias que andam sob os pés
de Mukuroka Piriquito descansando à fogueira do Omauha
naquele dia que o Mário o viu e depois, talvez, o desenhou
como se fosse uma gravura perdida de Tchitundu-Hulu.
Sentado à fogueira do Omauha, Mukuroka Piriquito, descansa
do palmilhar dos dias sol-fadiga de Namibe deixando-se cobrir
de gloriosa poeira ouro que vem, como renda preciosa e ouro sobre azul
levemente poisar sobre a nudez dos seus nonkakos a mostrar
sabedoria de quem sabe ler o sol e o brilho lúcido das estrelas do sul
sempre tão belas nas noites do deserto e os nonkakos de Mukuroka Piriquito
são luandos de cartografar mapas escritos e desenhados no céu sendeiro
sem tempo dos astrolábios presos como toninhas nos olhos vento
que se bebem nas margens sedentas do Kuroka do março da fartura.






Namibiano Ferreira (K.Lynn, 02/10/2009)


Ondjira - palavra Tchiherero que significa caminho, ela aqui está com o plural feito á maneira portuguesa.
Omauha - significa pedra, no mesmo idioma, mas refere-se a um lodge que existe no Parque Nacional do Iona, Namibe, Angola.
Tchitundu-Hulu - é um local no mesmo Parque (Iona) que possui belas gravuras rupestres, representando animais e astros, como o sol, por exemplo. O seu nome significa "Gruta Sagrada do Céu" e é um lugar de culto para os Kwisses, um outro povo do deserto.
Nonkakos - sandálias que se fazem artesanalmente, se observarem os pés de Mukuroka podem ver os seus nonkakos.
Luando - esteira.
Kuroka ou Curoca - rio do deserto, que desagua perto de Tombwa. Este rio só tem água na época chuvosa e em especial entre Fevereiro e Abril. O Kuroka é um pequeno Nilo que atravessa a aridez do município de Tombwa. 





2 de outubro de 2009

MBULUMBUMBA









O hungu, também conhecido em certas partes de Angola como mbulumbumba, é considerado pelos musicólogos do mundo inteiro como a origem pré-histórica de todos os instrumentos modernos de corda. Os escravos africanos levaram-no para o Novo Mundo, durante o infame tráfico negreiro e no Brasil, por exemplo, ele tomou o nome de berimbau (nome mais comum mas outros nomes foneticamente próximos de hungu existem). Já me disseram que este tipo de instrumento também se encontra presente em Cuba mas nada posso afirmar sobre isso.
Este interessante e apaixonante instrumento de corda, não é mais do que a transformação do arco (zagaia) do caçador-recolector da pré-história. E como todo o homo sapiens sapiens saiu de África, o hungu foi levado para fora da mãe-África logo nas primeiras migrações da humanidade, há muitos milhares de anos, para dar origem a harpas, violinos, alaúdes, cítaras, liras, guitarras....

Namibiano Ferreira



MBULUMBUMBA


As línguas
não têm nome
são teu povo
imbamba muxima
na força da alma
ondjango com boca
a falar estórias
de contar de dançar
kissanje dikanza puíta
voz de amar sangue
trama terra-vermelha
ondjira de vida
caminho aberto
na seiva do verbo
Nzambi a sagrar-te
homem de sangue
a falar a língua
nada e mais nada
porque as línguas
não têm nome
és tu humano
em tua nudez
vestida de alma
sagrada expressão
batendo as palavras
azagaia e flecha
na palma nua
mbulumbumba
do coração.


Namibiano Ferreira



Imbamba – pertences, bagagens...
Muxima – coração.
Ondjango – assembleia de homens, entre os Ovimbundu.
Kissaje (quissanje) – instrumento musical.
Dikanza – instrumento musical tipo reco-reco
Puíta – isntrumento musical que no Brasil se chama cuíca.
Ondjira – caminho
Nzambi – Deus.
Mbulumbumba – instrumento musical também conhecido por hungu e que os escravos africanos levaram para o Brasil onde lhe deram o nome onomatopaico de berimbau.

22 de setembro de 2009

AMARESIA


                                             

Para Dinah, Amor, maré, maresia...



Magias e morfemas
beijam madrepérolas
no marulhar da nudez
dos teus passos nacarados
– búzio a cantar o mar –
vestindo rendas chuvas
organzas
              espumas
                            e calemas...
a cantarolar.




Namibiano Ferreira



19 de setembro de 2009

PANGEIA - MINHA QUINTA ANTOLOGIA



Enquanto não sai o livro a solo vou participando em Antologias. No próximo dia 21 de Novembro está previsto o lançamento de “Pangeia” e novamente em solo brasileiro, na cidade de Curitiba, pela mão da Editora Abrali, onde participo com três poemas.
Os livros da Abrali, podem ser adquiridos online, siga o link, por favor: http://www.abrali.com/loja/

Este é parte do texto inicial que acompanha a minha participação em “Pangeia”:

Comecei escrevendo poesia, poderia dizer, a partir de um impulso, mas não, o impulso só foi externo porque no veludo onírico da Alma já haviam vozes a falar e depois que, conscientemente, lhes dei ouvidos essas vozes escondidas têm-se manifestado até hoje.

Tenho participado de diversas antologias: Eispoesia (Coimbra, 1999); Resistir Assim – Poesia a Doze (Lisboa, 2000); II Antologia de Poestas Lusófonos (Leiria, 2009) e Poemas Versos Crônicas, laçado na I Bienal Internacional do Livro de Curitiba e com a chancela da Abrali Editora, Curitiba.


Mas o lugar priveligiado da minha actividade poética é, hoje, este meu blogue que iniciei muito timidamente em Outubro de 2005.
Obrigado a todos os meus leitores, tanto os que fazem o favor de deixar as suas opiniões mas também aos que por aqui passam silenciosamente. Sem os leitores a poesia não acontece completamente. A criação poética é um acto solitário mas sobre a poesia elaborada pelo poeta os leitores, com as suas múltiplas leituras e interpretações, fazem novamente a poesia acontecer.


Namibiano Ferreira


16 de setembro de 2009

MUSAMBWANGA




A loucura dos imbondeiros
arranhando os céus de catuíti
profetizam Ondjira-Hulu
– o caminho do céu no cacimbo –
onde Ombera está esperando
a chuva prometida de Nzoji
hoje perdida na hora e no sopro
do Vento Leste assassinado.


Namibiano Ferreira




Musambwanga – deve ler-se mussambu (oração) + uanga (feitiço).
Catuíti – pequena ave azul.
Ondjira – caminho.
Hulu – céu.
Cacimbo – a estação seca.
Ombera – chuva.
Nzoji – sonho.