foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
Click na imagem!

5 de outubro de 2009

MUKUROKA PIRIQUITO

Mukuroka Piriquito - Gravura de Mário Tendinha (Angola)


Este poema foi inspirado nesta gravura da autoria do meu conterrâneo e amigo Mário Tendinha, que inaugurou no dia 1 de Outubro do corrente, em Luanda, a exposição NgolaMirrors que podem ver aqui  http://www.ngolamirrors.com  Mukuroka Piriquito, aqui retratado é um conterraneo lá do Sul, de Tombwa. Nao é personagem inventada, nem pelo pintor nem pelo poeta. Ele existe mesmo. É um homem que foi guia de cacadores e turistas, conhece o deserto e a regiao do Parque Nacional do Iona sem precisar de uma bússula. Ele é a própria bússula e palmilha o deserto, grandes distáncias, a pé. Um grande e forte kandandu para Mukuroka Piriquito, vivam as gentes do deserto do Namibe!






MUKUROKA PIRIQUITO




Cansado, talvez de trazer nos pés o vento de pentear os dias
e o tempo das rotas esquecidas de muitas ondjiras do sul
Mukuroka Piriquito descansa no lar da fogueira acesa
no Omauha com o sol de lembrar Tchitundu-Hulu e a espiar
olho no Mukuroka Piriquito ave de voar na asa palmilhando
areias milhas e poeiras ventos e canseiras nas miragens da sede
do nosso Sul encharcado de amarelo a morrer luminoso
no afago abraço do sol derretendo welwitschias gazelas
e Tômbwa que resiste no abraço velho das casuarinas heroínas
que se cansaram de lutar contra as areias que andam sob os pés
de Mukuroka Piriquito descansando à fogueira do Omauha
naquele dia que o Mário o viu e depois, talvez, o desenhou
como se fosse uma gravura perdida de Tchitundu-Hulu.
Sentado à fogueira do Omauha, Mukuroka Piriquito, descansa
do palmilhar dos dias sol-fadiga de Namibe deixando-se cobrir
de gloriosa poeira ouro que vem, como renda preciosa e ouro sobre azul
levemente poisar sobre a nudez dos seus nonkakos a mostrar
sabedoria de quem sabe ler o sol e o brilho lúcido das estrelas do sul
sempre tão belas nas noites do deserto e os nonkakos de Mukuroka Piriquito
são luandos de cartografar mapas escritos e desenhados no céu sendeiro
sem tempo dos astrolábios presos como toninhas nos olhos vento
que se bebem nas margens sedentas do Kuroka do março da fartura.






Namibiano Ferreira (K.Lynn, 02/10/2009)


Ondjira - palavra Tchiherero que significa caminho, ela aqui está com o plural feito á maneira portuguesa.
Omauha - significa pedra, no mesmo idioma, mas refere-se a um lodge que existe no Parque Nacional do Iona, Namibe, Angola.
Tchitundu-Hulu - é um local no mesmo Parque (Iona) que possui belas gravuras rupestres, representando animais e astros, como o sol, por exemplo. O seu nome significa "Gruta Sagrada do Céu" e é um lugar de culto para os Kwisses, um outro povo do deserto.
Nonkakos - sandálias que se fazem artesanalmente, se observarem os pés de Mukuroka podem ver os seus nonkakos.
Luando - esteira.
Kuroka ou Curoca - rio do deserto, que desagua perto de Tombwa. Este rio só tem água na época chuvosa e em especial entre Fevereiro e Abril. O Kuroka é um pequeno Nilo que atravessa a aridez do município de Tombwa. 





2 de outubro de 2009

MBULUMBUMBA









O hungu, também conhecido em certas partes de Angola como mbulumbumba, é considerado pelos musicólogos do mundo inteiro como a origem pré-histórica de todos os instrumentos modernos de corda. Os escravos africanos levaram-no para o Novo Mundo, durante o infame tráfico negreiro e no Brasil, por exemplo, ele tomou o nome de berimbau (nome mais comum mas outros nomes foneticamente próximos de hungu existem). Já me disseram que este tipo de instrumento também se encontra presente em Cuba mas nada posso afirmar sobre isso.
Este interessante e apaixonante instrumento de corda, não é mais do que a transformação do arco (zagaia) do caçador-recolector da pré-história. E como todo o homo sapiens sapiens saiu de África, o hungu foi levado para fora da mãe-África logo nas primeiras migrações da humanidade, há muitos milhares de anos, para dar origem a harpas, violinos, alaúdes, cítaras, liras, guitarras....

Namibiano Ferreira



MBULUMBUMBA


As línguas
não têm nome
são teu povo
imbamba muxima
na força da alma
ondjango com boca
a falar estórias
de contar de dançar
kissanje dikanza puíta
voz de amar sangue
trama terra-vermelha
ondjira de vida
caminho aberto
na seiva do verbo
Nzambi a sagrar-te
homem de sangue
a falar a língua
nada e mais nada
porque as línguas
não têm nome
és tu humano
em tua nudez
vestida de alma
sagrada expressão
batendo as palavras
azagaia e flecha
na palma nua
mbulumbumba
do coração.


Namibiano Ferreira



Imbamba – pertences, bagagens...
Muxima – coração.
Ondjango – assembleia de homens, entre os Ovimbundu.
Kissaje (quissanje) – instrumento musical.
Dikanza – instrumento musical tipo reco-reco
Puíta – isntrumento musical que no Brasil se chama cuíca.
Ondjira – caminho
Nzambi – Deus.
Mbulumbumba – instrumento musical também conhecido por hungu e que os escravos africanos levaram para o Brasil onde lhe deram o nome onomatopaico de berimbau.

22 de setembro de 2009

AMARESIA


                                             

Para Dinah, Amor, maré, maresia...



Magias e morfemas
beijam madrepérolas
no marulhar da nudez
dos teus passos nacarados
– búzio a cantar o mar –
vestindo rendas chuvas
organzas
              espumas
                            e calemas...
a cantarolar.




Namibiano Ferreira



19 de setembro de 2009

PANGEIA - MINHA QUINTA ANTOLOGIA



Enquanto não sai o livro a solo vou participando em Antologias. No próximo dia 21 de Novembro está previsto o lançamento de “Pangeia” e novamente em solo brasileiro, na cidade de Curitiba, pela mão da Editora Abrali, onde participo com três poemas.
Os livros da Abrali, podem ser adquiridos online, siga o link, por favor: http://www.abrali.com/loja/

Este é parte do texto inicial que acompanha a minha participação em “Pangeia”:

Comecei escrevendo poesia, poderia dizer, a partir de um impulso, mas não, o impulso só foi externo porque no veludo onírico da Alma já haviam vozes a falar e depois que, conscientemente, lhes dei ouvidos essas vozes escondidas têm-se manifestado até hoje.

Tenho participado de diversas antologias: Eispoesia (Coimbra, 1999); Resistir Assim – Poesia a Doze (Lisboa, 2000); II Antologia de Poestas Lusófonos (Leiria, 2009) e Poemas Versos Crônicas, laçado na I Bienal Internacional do Livro de Curitiba e com a chancela da Abrali Editora, Curitiba.


Mas o lugar priveligiado da minha actividade poética é, hoje, este meu blogue que iniciei muito timidamente em Outubro de 2005.
Obrigado a todos os meus leitores, tanto os que fazem o favor de deixar as suas opiniões mas também aos que por aqui passam silenciosamente. Sem os leitores a poesia não acontece completamente. A criação poética é um acto solitário mas sobre a poesia elaborada pelo poeta os leitores, com as suas múltiplas leituras e interpretações, fazem novamente a poesia acontecer.


Namibiano Ferreira


16 de setembro de 2009

MUSAMBWANGA




A loucura dos imbondeiros
arranhando os céus de catuíti
profetizam Ondjira-Hulu
– o caminho do céu no cacimbo –
onde Ombera está esperando
a chuva prometida de Nzoji
hoje perdida na hora e no sopro
do Vento Leste assassinado.


Namibiano Ferreira




Musambwanga – deve ler-se mussambu (oração) + uanga (feitiço).
Catuíti – pequena ave azul.
Ondjira – caminho.
Hulu – céu.
Cacimbo – a estação seca.
Ombera – chuva.
Nzoji – sonho.

15 de setembro de 2009

METAMORFOSE

Múcuas, fruto do imbondeiro (baobá)


Hoje, nos braços suplicantes do Imbondeiro

pendurei canções... talvez orações.







...................................................... Amanhã, sei

eu serei propriamente

arvoremente

o Imbondeiro...

 
 
 
Namibiano Ferreira

12 de setembro de 2009

SÚBITO MOMENTO

Subitamente dos quintais
terminou o tempo
já secaram
goiabeiras e mangueiras...



– Quem quer correr sobre areias secas
e momentos castrados?



O tempo passa... e o vento lembra!




– Onde meteram o meu quintal
de todos os sonhos-tempo
de todos os meninos-vento?

 
 
Namibiano Ferreira

Desenhos de Neves e Sousa

MEMORIA DE INFANCIA


   (Desenho de Neves e Sousa)



Está o soba sob a sombra
que a mulemba traz sobre o chão.
Sob o soba está a esteira
estendida sobre o solo.
Dorme a sesta sob a sombra
o soba que o sol não sente
porque a sabida mulemba
ensombra o sol e sombra o soba.
Está o soba sob a sombra
da mulemba da sanzala
sob o soba está a esteira
estendida sobre o sonho
sob a sombra da mulemba.




Namibiano Ferreira



Mulemba ou mulembeira - arvore de Angola
Soba - chefe tradicional

8 de setembro de 2009

NGOMAS DO SUL




A ngoma tem a pele negra
boi, vaca ou pacassa
troando a noite antiga da tradição
às mãos negras do tocador.
Eu queria ser ngoma, kissange, dicanza...
vibrar como ngoma velha de pele negra
e como os outros, num grito universal,
proclamar aos mistérios da selva, da savana
e do mundo inteiro e imundo
a impossível renúncia que aflora à alma
como albufeira imensa do Kwanza distante.


Eu queria ser ngoma, kissange, dicanza...
na Rotandjira do Sul perdida e por achar
nas ondas da calema
e na maré louca para voltar.
Ba-tam-tam-tam; ba-tam-tam-tam
ritmo de ngomas
ngomas do mato
angolana saudade dos batuques do Sul
desse meu Sul: rota antiga imortal
vibrando-vibrando na alma ngoma
despida de sal.

Aiuê! minhas ngomas do sul da saudade.
Ba-tam-tam-tam; ba-tam-tam-tam


Namibiano Ferreira


Ngomas - instrumento de percusao, tambor.
Pacassa - genero de boi selvagem.
Kissange e dicanza - instrumentos musicais angolanos.
Rotondjira - mistura da palavra rota + ondjira, palavra mukubal que significa caminho, estrada.

7 de setembro de 2009

SECA

De espinheiras secas                                   
se constroem sambos
onde espinhos assobiam
ao vento vomitando
calemas de morte
na secura eterna
da sede das boiadas 
– cazumbis a boiar –
na insustentável aridez
do Namibe, deserto
onde Ombera vive
e não chora...




Namibiano Ferreira


Sambos - local onde se guarda o gado e é cercado por galhos secos de espinheira, como o próprio nome indica, tem espinhos.
Ombera - chuva.
(Foto Tonspi, Angola)