foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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29 de julho de 2009

MOXICO



Na aurora dos dedos trazias o sudário de Deus
ouro emprestado ao Sol a espreguiçar-se matinal
nas franjas digitaliformes do céu aceso a sorrir
o poema do ritual quotidiano da terra Leste cardeal
a vibrar fulgente na percussão da ngoma batida.



Muximangoma muximangoma
taquicardia de vida a falar: Ixi-Yá-Ixi-Yá
Ixi-Yá-Mavuuuuuu...
Moxicongoma Moxicongoma
a viajar abraço Luena;
a beijar lábios Cameia;
a dedilhar kissanje Luau;
a crescer carinho Cazombo;
a cantar sorriso Lumeje
Moxico do Leste Moxico da vida
a bater na pele telúrica da ngoma
só a falar: Moxico Moxico
Moxicongoma Moxicongoma
ngoma de vida a falar: Ixi-Yá-Ixi-Yá
Ixi-Yá-Moxico Moxico-Mavuuuuu...
Terra do Leste – de onde vem o Sol –
terra do ventre terra dos Deuses
umbigo de rio Ixi-Yá-Ixi-Yá... Ixi-Yá-Riooooo
Zambeze divino prece a correr nos lábios
verdes e na pressa de um hino canta
clama África num grito de zagaia a zunir
e amor intenso a sorrir ao Sol do Leste
taquicardia de vida a falar: muximangoma
Moxicongoma Áfricangoma Áfricangoma...


Namibiano Ferreira


Ngoma – Tambor.
Muximangoma – muxima+ngoma – coração+tambor.
Ixi-Yá-Mavu – Terra Vermelha.
Moxicongoma – Moxico+ngoma – Moxico (provinciadolestedeAngola).
Luena, Cazombo, Luau, Cameia, Lumeje – localidades da provincia do Moxico.

15 de julho de 2009

SENTIDOS

Mussulo (Luanda)



Para Dinah




Trazias o mar na aurora ocidental dos teus lábios
a passar ventos e salsugens de toninhas e kiandas;
chegaste do mar, kalunga a cantar meu nome
e, estranhamente, no xinguilar dos dias
mordias bagos de jinguba nos dedos do olhar
a passar brisas a beijar ventos de kifufutila
doce veludo bailando no sopro sumaúma
soprado sobre a savana-púbis dourada do vento.


Namibiano Ferreira




Toninhas – Golfinhos.
Kiandas – Divindades das águas, sereia.
Kalunga – Mar, Deus e muitos outros sentidos (morte, infinito...)
Xinguilar – Ficar possuído pelos espíritos, ficar maluco.
Jinguba – Amendoim.
Kifufutila/Quifufutila – Doce moído com jinguba, acucar, canela, etc

27 de junho de 2009

SAVATE



Foto de Alexandre Correia

                                                                                    (Para os meus pais.)

O âmbar da madrugada dançava

na labareda incendiada da fogueira...





toda a noite os elefantes

fizeram ouvir suas trombetas;

e os homens fizeram ouvir suas ngomas

coração vibrando na pele da pacassa

a batida cadente de mãos hábeis e fortes

enchendo a noite do Savate

da mais pesada e lúgubre sinfonia

espantando das lavras, futuro da fartura,

os famintos paquidermes invasores.





E a manhã acordou cansada sonolenta

no vestir mangonheiro do âmbar matutino

alinhavando perfumes de mais um dia de viagem.



Namibiano Ferreira



Savate – localidade na província angolana do Cuando-Cubango, na estrada que liga Menongue ao Cuangar (Calai, Dirico, Mucusso...)


Pacassa – Búfalo da floresta, (syncerus nanus).
Nota: Oficialmente a palavra pacassa é grafada pacaça mas eu prefiro escrevê-la com ss.

24 de junho de 2009

PRECE

Foto de Tonspi (fotógrafo angolano)





Bendito Suku-Deus-Nzambi que te sagrou homem


sem pecado original, em plena liberdade,


não te cobrando o quer que fosse.










Bendito o homem-carne; terra-espírito que criou


a Poesia dos fiapos acetinados de oníricos infinitos


vogando asas sobre a chana-ouro a bailar kissange.






Namibiano Ferreira


23 de junho de 2009

IV RAID TT DO KWANZA SUL








O ano passado participei com um poema no livro do III Raid TT Kwanza Sul que publiquei aqui http://poesiangolana.blogspot.com/2008/09/rumo-ao-cunene-iii-raid-kwanza-sul.html Não tive a oportunidade de adquirir um exemplar mas consegui algumas páginas digitalizadas através de conterrâneos.
Este ano aconteceu o IV Raid, não participo no livro mas acabei de receber um e aproveito para o divulgar bem como este evento desportivo que une Portugal e Angola através da cooperação entre o Município de Almada (Portugal) e a Província angolana do Kwanza Sul. Esta cooperação iniciou-se há 12 anos entre Almada e Porto Amboim, cidades geminadas e face aos frutos alcançados, rapidamente se alargou a todo o Kwanza Sul.
Esta amizade e cooperação é anualmente expressa através deste Raid que pretende mostrar os locais por onde ele passa. O ano passado foram até à Foz do Kunene e este ano alargaram o abraço até ao topo norte de Angola, atingindo Cabinda.
Usando as palavras do coordenador do livro (Eng. Miguel Anacoreta Correia) damos uma verdadeira explicação deste livro: Ao escolher-se para subtítulo deste livro “História e estórias de Angola” pretendeu-se dar exactamente uma ideia dos seus objectivos: penetrar na noite dos tempos, dando a conhecer a História riquíssima da região percorrida pelo IV Raid TT do Kwanza Sul e, ao mesmo tempo, divulgar episódios, poesias, elementos sobre geografia, economia e demografia..., coexistindo a informação com fotografias, mapas, desenhos, que possam dar uma ideia tão correcta quanto possível, do oeste de Angola, do Sumbe até Cabinda, e do litoral até às terras do Uíge e Malanje.
Resumindo, há no livro uma visita ao passado, falando do presente e pondo os olhos no horizonte futuro.
Este ano quem participa com um pequeno extracto do seu poema “Os Meus Pés Descalços” é o meu amigo e poeta Décio Bettencourt Mateus, extracto que vem publicado na página 163, dedicado à província de Malanje e quando se fala nas Quedas de Kalandula (as segundas maiores de África) e da muito angolana Palanca Real ou Palanca Negra Gigante ( Hippotragus niger variani) um dos muitos ex-libris de Angola..


Namibiano Ferreira

22 de junho de 2009

PRÉMIO - ESTE BLOG É LUZ


Este é um presente da Rosa em http://nacolmeia.blogspot.com/ muito obrigado!
É um convite para reflexão sobre sua própria luz, que também será a primeira regra para postagem do selo.


1 - Completar a frase "EU SOU LUZ E QUERO ILUMINAR...

A minha: Eu sou luz e quero iluminar de Poesia e mais Justica este mundo tao imundo.

2 - Linkar o blog de onde o selo partiu e deixar um recado avisando que o recebeu.
3 - Linkar e repassar o selo para cinco blogs que, na sua opinião, sejam blogs de luz.

Repasso para:
Poesia Lilaz-Carmim http://poesialilazcarmim.blogspot.com/
Recalcitrante http://recalcitrantemor.blogspot.com/
Judo e Poesia http://judoepoesia.blogspot.com/
Brisapoética http://brisapoetica.blogspot.com/
Hukalilile http://cangue.blogspot.com/

19 de junho de 2009

O POEMA, O VÍDEO E A DECLAMAÇÃO

Recebi este comentário da minha querida amiga e poeta Sílvia Câmara, do blog Brisapoética http://brisapoetica.blogspot.com/ e pela natureza da resposta que tenho de fazer achei por bem fazê-lo através desta postagem.




“Caro Namibiano, o seu texto foi postado e editado em voz, na minha modesta opinião, lindamente, pela gestora dos Blog e site Plataforma para a poesia. Infelizmente, alguem intitulada Maria, dizendo-se sua filha, está tumultuando a edição do Plataforma.
Por faavor, gostaria que vc se manifestasse no Blog do Plata, confirmando a autorização para postar seus poemas, ou então teremos que retira-lo.
Eu, na qualidade de colaboradora, tenho a obrigação de alimentar os poetas que indiquei e, se for desautorizada por vc, não mais publicarei seus poemas.
Penso que deve ser algum equivoco, mas gostaria que vc nos orientasse.
um abraço, Poeta”



Cara Amiga Sílvia,


Quero antes de tudo o mais lhe dizer o quanto fico feliz por você gostar da minha poesia e por a ter levado (com minha permissão) para o site Plataforma Para a Poesia, podendo assim ser apreciada por outras pessoas que não têm acesso ao meu blog. Quando me foi pedida autorização para levar o poema “Nascer em Namibe Tombua Mirabilis” nunca ninguém me solicitou, me pediu ou me informou que este poderia vir a ser declamado e editado em vídeo. Neste segundo caso eu teria pedido que gostaria de ver/ouvir o trabalho antes de publicado. Devo dizer que é para mim uma honra ser o primeiro poeta africano na Plataforma e é por certo também uma honra que alguém se interesse em declamar um poema de minha autoria. Agora quando vamos a público e mostramos nossos trabalhos estamos nos expondo à crítica daqueles que têm espírito crítico. E aqui não há nada a fazer porque vai haver sempre quem gosta, quem não gosta e quem fica nas meias tintas ou então aparecem aqueles que para bajular e etc e tal dizem baboseiras da boca para fora só para agradar e ficar bem com o autor, o amigo, ou o que seja.
Eu nao sei bajular, ou gosto ou não gosto e, muito honestamente não gostei NADA da maneira como o poema foi dito e se não reagi de imediato foi por consideração a quem levou de boa fé e de sincera amizade (ainda que virtual) o poema em questão para o dito site, isto é, a minha querida amiga Sílvia Câmara, que por acaso é das mais antigas pessoas a colocarem comentários neste lugar. Por sua amizade que já vai durando a idade deste blog eu resolvi não comentar de imediato. Quando o decidi, já não era possível comentar, tinham, democraticamente, retirado a opção de qualquer cidadão se manifestar e opinar. Acto marcadamente anti-democrático e contra a livre expressão do pensamento. Portanto, o site Plataforma, tem um elevado deficit de verdadeira Democracia.
De facto, Sílvia, a Maria que você fala, e que ainda teve a oportunidade de postar um comentário, é minha filha, uma adolescente de 14 anos com um sentido muito crítico e com muita maturidade, uma mocinha muito responsável e excelente estudante. Foi por ventura ela malcriada ou abusiva? Bem, eu li o comentário e não me pareceu, simplesmente manifestou o seu desagrado pela forma como o poema foi dito. E por este acto de livre expressão de pensamento o site Plataforma acha que a minha filha está tumultuando a edição do Plataforma (isto para usar palavras textuais). Tumultuar? Vocês sabem o que isso quer dizer? Vou ao dicionário e transcrevo de lá o que se segue: Tumultuar – iniciar à desordem; agitar; amotinar; rebelar-se; fazer grande barulho; insurgir-se. Não me digam que ela fez isto tudo com um único comentário?
Não me vou alongar muito mais sobre o que eu penso desta reacção do Plataforma....


E quanto à declamação?


Agora, amiga Sílvia, quanto à declamação do poema: é óbvio que não gostei!
As minhas sinceras desculpas para contigo mas não creio que a declamadora, pelo menos neste caso particular, tenha sido feliz e não partilho contigo a opinião que tenha sido lindamente declamado pela gestora do Plataforma. Não sei silenciar as minhas ideias, por isso meus poemas nem sempre agradam e também não sei esconder minhas emoções por isso escrevo. E a você, Sílvia, que é minha leitora, sobretudo AMIGA e pessoa que muito estimo tenho que lhe dizer: eu não poderia ser falso esboçando um sorriso de crocodilo quando a minha Alma diz NÃO!



E porque não gosto como foi dito o poema?


Vários são os motivos:
1 – Não há sentimento no modo de dizer, há uma imensa linearidade, um poema da terra africana que ficou sem a força da terra-mãe. África, Angola e o grandioso Deserto do Namibe ficaram castrados, sem a força telúrica que os caracteriza.

2 – Nascer em Namibe Tombua Mirabilis, é um poema (e eu detesto analizar os meus poemas) que está dividido em duas partes, a saber: as primeiras 11 estrofes são de morte ou de quase morte e não existe, por parte da declamadora, uma diferenciação de tonalidade entre a primeira parte e a segunda que se inicia com o abraço fraterno que sela esse pacto anímico (eterno) entre o poeta e a sua terra-mãe, acabado de sair “de uma quase morte”. Do momento de quase morte passa-se para um renascimento, há Vida, há Futuro e a exaltação que se segue do amor do poeta pela sua terra natal é expressa, pela declamadora, com a mesma tristeza com que inicia o poema, não existe VIDA não existe ALMA no modo como o poema é dito.

3 – Resultado, ao escutar este poema assim declamado, perde-se todo o interesse por ele. O que transparece é que a senhora nao SENTIU, nao interiorizou o poema, ou não entendeu, o que até é normal, pois África não é fácil de se entender mas tão fácil de amar. Talvez eu tenha minha quota de culpa porque nao traduzi as palavras do português de Angola.

4 – E por último, já nem menciono a pobreza das imagens do vídeo mas não é por aí a busílis da questão... o grande problema está nas palavras ditas, na manifesta falta de timbre, falta de sentimento (falta de muito “sentir”), falta de força, falta de expressão, desculpem a sinceridade, não sou puxa-saco, a declamação está moribunda.



Nota final


Sílvia, já dei a você autorização para levar o poema em questão e essa autorização é para todo este blog, ficando somente de me avisar. Se o site Plataforma não quiser publicar mais os meus poemas não há problema, se ficaram melindrados pelo direito que me assiste de livre e democraticamente expressar a minha opinião, é problema deles eu continuarei escrevendo e publicando aqui no meu bloguezinho. Vou tumultuando por aqui, minha amiga (risos). Nós africanos estamos já habituados a certas discriminações, sabemos que somos, para certas mentes, filhos de um deus menor, mas nós, claro, não acreditamos nisso.
Sílvia, creio não ter sido, de maneira alguma rude ou inapropriado com este texto. E como é meu apanágio ficam os comentário abertos até que o blog exista e a Internet também.

Um sincero e profundo abraço de Amizade e Poesia.
Obrigado pelo seu carinho, poeta!




O poema que alude o texto (Nascer em Namibe Tombua Mirabilis) encontra-se publicado aqui
http://poesiangolana.blogspot.com/2009/05/esta-e-minha-terra-namibe-angola.html , bem como o referido comentário.




Namibiano Ferreira

K. Lynn, 16/06/2009






Video do poema declamado



31 de maio de 2009

MAIO PALUSTRE





A lagoa do meu kimbo
não reflecte a lua
mas a mágoa dos homens de maio.


À prata morta das águas
mordo as pitangas de maio
frutos túrgidos de sangue
sabor lacustre disforme palustre
de morte e esquecimento...



A lagoa do meu kimbo
não reflecte a lua
mas as máscaras gota a gota caindo
lágrimas no corpo morcego da noite
e dos ramos calcinados das árvores
libertam-se fantasmas aspros de veludo
amortalhando os meus olhos de maio
vestindo ébano coalhado de cadáveres
e perfumadas ptomaínas.



Namibiano Ferreira

25 de maio de 2009

DIA DE ÁFRICA - 25 DE MAIO

Tela de Eleutério Sanches





AVISO: ESTE POEMA É FICÇÃO



Arrastamos a nossa triste humanidade
pelos musseques da vileza e da miséria.
As dádivas do coração da nossa terra
são para nós virtuais a para alguns virtuosas...


Novos-ricos proliferam na razão directa dos musseques.
Ricos sadiamente opulentos e cada vez mais obesos
na fartança suína capitalista no acto quotidiano
e ainda há dois ou três dias, acérrimos marxistas...
defensores do povo e do poder popular.


Longe-longe e a cada luar minguado de prata
as riquezas do coração da nossa terra
vão para longes distantes, mercados globais,
estão para nós perdidas irremediavelmente perdidas
porque dólares e euros engordam mais
que gente rota famélica povo dos musseques.




Namibiano Ferreira



Musseque – Bairro de lata, favela.

23 de maio de 2009

ESTA É A MINHA TERRA: NAMIBE (ANGOLA)


NASCER EM NAMIBE TOMBWA MIRABILIS


Quando nasci em Tombwa
mirabilis flor de cacimbo
a velha casa de adobe
e telhado de zinco
não ouviu de imediato
meu primeiro vagido.
Houve um momento silente
perdido de quase morte
até que a alma cadente
cantasse chorando
a nova sorte.
E depois o abraço fraterno
um árido afago
no pacto eterno
riscado no chão de oferta
coração enorme a pulsar Namibe:


a duna queimada
foi meu berço;
o cacimbo rendado
o tule do enxoval;
o pungo do mar
foi meu sustento;
o areal dourado
a manta de brincar;
o Curoca da fartura
foi água do ritual;
a garroa e a calema
meu poema d’embalar;
o cântico das casuarinas
foi meu guizo de ninar;
o povo mukubal
meu mestre de versejar;
o guelengue elegante
–meu mágico companheiro alado–
foi pégaso de cavalgar
o dorso quente futuro de Poesia.



Namibiano Ferreira

O guelengue do deserto





A nobreza do grande povo Mukubal

A duna queimada

O exotismo da welwitschia mirabilis



Beleza da mulher Mukubal