foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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4 de fevereiro de 2009

FRAGMENTOS DE QUATRO POEMAS PERDIDOS EM FEVEREIRO







Monumento aos Heróis do 4 de Fevereiro 



1

...nos muros corroídos das cidades novas

– toldando pesadelos antigos –

alguém escreveu:

Onde está o Sonho Prometido?



2

Viva a Utopia!

Só é pena ela um dia virar Poder...

Abaixo o Poder!

E eu nem sou anarquista...



3

Na manhã de Fevereiro

os areais da cidade

– nos lugares onde há areia –

ainda são

o campo dos proscritos

dos malditos dos deserdados...

ah! Como tenho raiva das injustiças

continuamente

iguais e permanentes.



4

As janelas que se abriram

para o quintal da Utopia

subitamente fecharam-se...

e uma rosa-de-porcelana

– pálido cetim – murcha

sobre meu corpo inerme

enquanto lá fora tem esperas

no verdadeiro raiar do âmbar de amanhã.


Namibiano Ferreira

3 de fevereiro de 2009

CREPÚSCULO





Pitanga madura suspensa no ar


âmbar cristal a brilhar


sobre o mar suave


vitral


laranja hialino a vibrar...




Namibiano Ferreira

AVE MARINHA




Gaivotas gaivinas garajaus



são as aves dos poetas.


Abrasão alada dos céus sobre o mar


trazendo a prata, o ouro e o diamante


com que os poetas se enfeitam

em noites sublimadas de prazer.



Namibiano Ferreira

29 de janeiro de 2009

RAMINHO DE CHEIROS






Para Dinah


Há o sussurrar do bosque...



– esmeraldas que tu amas –

e na voz do teu perfume

como se fosses brisa

solta entre as agulhas

vivas e odoríferas

dos pinheiros baloiçando

murmúrio infantil de coníferas

casuarinas levemente sussurrando

teu nome: raminho de cheiros

com que me temperas a alma.


Namibiano Ferreira

28 de janeiro de 2009

VESTES




Para Dinah


Ouço a brisa crepitando


sedas, o negro perfume

cor-bailado de teus cabelos

soltos à brisa, tecido carmim,

bandeira erótica ao tempo

pergaminho de pétalas

com que visto meu corpo

de ternuras e carinhos.






Namibiano Ferreira

16 de janeiro de 2009

HOMENAGEM AOS HERÓIS DO HOLOCAUSTO

Nicholas Winton (Inglaterra)

Irena Sendlerowa (Polónia)



Aristídes de Sousa Mendes (Portugal)





Humanos, verdadeiramente humanos
foram anjos descidos dos céus
abrindo suas asas protectoras
nos momentos do medo e da demência
aflitiva dos dias de ignomínia...
Superando sua humana condição
e contra a bestialidade das ideias
impuras, irracionais, inumanas
foram raiz de toda a diferença
bonança durante a tormenta
foram o templo, onde perseguido,
gritei: santuário!
Humanos, verdadeiramente humanos
em sacrifício de suas próprias vidas
foram a vida de gerações futuras.
Humanos, verdadeiramente humanos
superando sua humana condição
foram homens e mulheres simples e justos,
audazes heróis e, qual Deuses
olímpicos, ascendem aos céus como fachos
a arder na treva escura
iluminando a selva insana e demente
desta nossa humana iníqua loucura.



Namibiano Ferreira

13 de janeiro de 2009

GEOGRAFIA






A geografia do teu corpo

sei-a de cor nas veredas da alma

e nas palmas de minhas mãos

tenho o mapa de percorrer-te,

mãos tacteando ceguinhas

a nudez dos vales, montes,

planícies glarbas e o litoral

húmido de tuas coxas promissoras

onde lanço âncora e descanso.




Namibiano Ferreira

18 de dezembro de 2008

PESCARIA NO CANJEQUE

Primo Rogério Kamusseke


Pescando baiacu (foto net)





Para o Rogério “Kamusseke”, meu primo.



Ontem fomos sorrateiros pescar

no Canjeque, só mordeu baiacu....

e a miudagem

antes de os atirar de volta ao mar

e por mera brincadeira

oferecia uma faca à boca voraz

do peixe que furioso mordia

metálico os dentes cerrados cortantes.





Hoje, também os meus sonhos

são oferecidos à boca voraz do tempo

e o tempo também morde furioso

como se fosse um baiacu

fisgado na pescaria do Canjeque...



O Sol, bailando ouro nos olhos da manhã

acorda-me do momento... sonho

perdido no frio deste granito

onde ando louco e farto de sonhos,

sonhos de dias ásperos

mascarados de saudades

no arrepio frio desta diáspora.



Namibiano Ferreira

17 de dezembro de 2008

PERFUME SEM PALAVRAS





Para Jinha, Laura, Ondina……




Aquele vento antes da chuva…
Lembras-te?!...
O vento, o vórtex a dançar
cantando assobio vestido de pó
e depois a chuva, pranto suado dos deuses,
caindo do céu em fúria na tarde quente.
Lembras-te?!...



Ah, aquele vento antes da chuva!...
Abraço quente arrepiado;
vórtex a cantar mistério
e depois… a chuva,
para depois o sol espalhar a sorrir
o aroma do amor consumado da chuva
caindo sobre o ventre-fêmea da terra vermelha
exalando telúrico e misterioso momento:
odor ardor perfumado sem verbo
poeta e poema para cantá-lo.







Namibiano Ferreira

16 de dezembro de 2008

LUAR



Pérolas soltas chovendo
à boca marítima do iodo nocturno
vêm descansar de mansinho
à flor da prata líquida a bailar
quietude perplexa e mística.







Namibiano Ferreira