foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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1 de junho de 2007

POEMA PARA DIA FERIADO







Às estrelas
Vou falar das crianças famintas
E gritar quantas
De entre elas
Morrem de fome
Antes mesmo de terem um nome

Décio B. Mateus
In A Fúria do Mar



Dia Internacional da Criança
feriado na Banda Ngola.
Festejam-se os meninos-musseques
rotos esfarrapados de vácuos na barriga
louca inchada de sopros esfomeados.
Celebram-se os meninos-musseques com sóis
assassinados no olhar
como ontem, quando o vento Leste soprando
trazia no ventre a revolta a esperança
a indignação e a promessa...
A PROMESSA rubra-negra do vento
amanhecida na manhã de Fevereiro
e jurada na madrugada rubra de Novembro.



Promessa, hoje, falhada perdida no trilho-vento
e arrepiada nos olhos tristes dos meninos-musseques
pata rapada sem eira nem beira
minguados de amor carentes de esperança.
Meninos-musseques vendo cair a chuva
sobre as chapas negras das cubatas,
brincando nas lamas dos esgotos e lixeiras
como antigamente o neto da Ximinha
chapinhando brincando contente e nu
como se alguém fosse brincar contente
sobre a tuji lamacenta malcheirosa lixeirenta
invadindo os becos fedorentos dos musseques.


E chegando de charuto na boca em fatos gordos
engomados, os senhores globais vêm dizendo:
Ah! Mas não tenham pena destes moleques negros
porque o sol brilha e o clima tropical-paraíso aquece
e por isso andam rotos descalços esfarrapados...
Olhai olhai as belas barrigas inchadas das meninas,
crianças ainda e já grávidas, gente promíscua
esta gente este povo de musseque, olhai as orgias
bebedeiras e sexualmente lascivos pecaminosos...


Só nós vemos as barrigas das meninas parindo fartura de fome
e os Meninos-musseques nutridos de um vazio infame e doente
corroendo alma e estômago fome que não sentes e não vês.
A fome a doença as cubatas de chapa e vejam como eles ainda
sabem rir brincar sorrir... e morrer neste mundo-musseque
fétido imundo podre alienado de tanta promessa assassinada.
No entanto, ao largo e ao perto sob a beleza do céu
tropical, jorram do mar e das praias caluandacabindasoyo
farturas negras negras de petróleos
homenageando tua pele negra, negra como a noite
concentrada na brutalidade dos musseques das belas Luandas
proliferando nesta nossa Angola linda.

Os cobiçados diamantes da Lunda brilham fortunas
e corrupções que não cobrem a nudez negra de tua pele
e não acariciam de brilho os teus olhos
espelhos hialinos feitos para desejar o mundo...
petróleos diamantes e todas as outras muitas riquezas
desta terra de Angola linda não chegam ou não chovem
suave de mansinho sobre os meninos-musseques
cobrindo assim tua nudez
saciando assim tua barriga inchada
curando assim tua dor-doença
matando assim tua ignorância....


Ah! Meninosninas negros negros dos musseques negros
abarrotados de negros fétidos brutos matumbos ignaros
como ontem nos antigamentes da vida ignaros...
Onde estão onde foram as PROMESSAS
promessas feitas na manhã de Fevereiro
e juradas na madrugada rubra de Novembro?


Ah! Meninosninas monas candengues musseques
aprisionados num futuro agonizado tresmalhado:
Vós sois o futuro criminal das ruas
Vós sois o futuro kitata dos becos e esquinas
Vós sois o sol de um futuro sonhado e assassinado
Vós sois ainda os monangambas lavadeiras serviçais
turba proletária pretos matumbos, ontem e hoje,
reprimidos para além dos asfaltos da vida
do mesmo asfalto antigo e feito presente hoje mesmo.
Onde estão onde foram as PROMESSAS
promessas feitas na manhã de Fevereiro
e juradas na madrugada rubra de Novembro?


E o Sol, astro de liberdade, vem acariciar tua pele
neste e todos os dias que deviam ser teus e não são
meninosninas do musseque e só ele sabe:
Vós sois o Amanhã transbordando revoluções
sobre as ruas-praças-avenidas conjugando as promessas
feitas e não cumpridas neste komba canção de musseque.



Namibiano Ferreira – 31/05/2007




Banda Ngola - Terra de Angola.
Musseque - Bairro pobre, favela, bairro-de-lata.
Tuji - Merda.
Kitata - Prostituta.
Monangamba - Carregador, servical.
Matumbo - Estupido.
Komba - Cerimonias funebres tradicionais.

27 de maio de 2007

ÚLTIMAS CHUVAS



Chove. É na estação das chuvas – dizem –
que acontecem as coisas.


No sopro indelével do momento
soltam-se cazumbis do coração das árvores
povoando o vento, a brisa e o tempo
atormentando a vida dos homens.


Foi na paragem de Maio que Tudo 

e Nada aconteceu e chovia... 
(Não chovia?
então chovia no limbo da Poesia).


É na estação das chuvas – dizem –
que acontecem as coisas...
e nesse dia as chuvas quase acabaram.
- Onde foi na paragem de Maio que Tudo
e Nada aconteceu? – Onde foi?!
Onde foi, quem foi, como foi?





Namibiano Ferreira

14 de maio de 2007

ASPIRACOES DE CHUVAS





















                              Tela de Mário Tendinha




As sobras Nzoji – sonhos
que hei-de beber
e Oximalanka - a Hiena –
ainda não devorou...
São águas frescas de cacimba
que guardo no moringue
terracota velho
adormecido.


É com Nzoji – sonhos
(frescura de moringue)
que hei-de desejar
Ombela – a chuva bela –
e construir o kimbo novo;
semear massangos
de folhas verdes;
fazer meus sambos
de muito gado;
alembar minhas mukayas,
riso futuro
de meu kimbo.

 Namibiano Ferreira



Nzoji – sonho
Cacimba – poço
Moringue – vasilha de cerâmica para guardar água
Kimbo – aldeia
Massango – variedade cereal (sorgo?)
Sambos – locais onde se guarda o gado, curral
Alembar – de alembamento, dote de casamento que o noivo paga ao pai da noiva.
Mukayas - mulheres

TRES POEMAS DO MAR





DE PAR EM PAR

Abertas as janelas para a Vida
tenho, de lembrança mais antiga,
as aras planas e douradas
debruadas de bilros nevados
coroando as franjas leves
da toalha sedosa e glauca
alongada ao sabor do infinito
amenizando a quentura do Deserto.




O QUE É O MAR?


Tu perguntas, e eu não sei
eu também não sei o que é o mar
(Eugénio de Andrade)


Serenidade
leve brisa discreta
traz no regaço o perfume das esmeraldas diluidas
brilhando na placidez do vento.
Crepes tremulam em suspiros leves de espuma
e perdidos entre cetins luminosos
vêm os teus lábios, pétalas rosadas,
sôfregos para me beijar.




MAR


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim
(...)
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim



(Sophia Mello Breyner Adresen)



Brilham pétalas cândidas de rosas encrespadas
sobre o fundo marinheiro a bailar massemba
hialino de topázios e cristais.
Há o perfume das algas desfeitas no vento
e ao longe voam asas brancas
ansiosas e saudosas na distância.



Massemba - o mesmo que semba, danca angolana que esta na origem do samba brasileiro.

Namibiano Ferreira


12 de maio de 2007

OMAUHA

Pedras Negras de Pungo Andongo - Malanje.






Uma a uma -omauha-
a pedra constrói a casa.
Pedra a pedra
a casa está ligada à terra
como a alma do poeta
se liga ao Povo
sem saber exactamente
porquê?!...



Namibiano Ferreira



Omauha – pedra em língua Tchiherero (Mukubal).

16 de abril de 2007

AFLUENTE/AFLUENCIA


Quedas de Kalandula - Angola


Menino ainda
sonhei
e era rio
perdido no labirinto de malaquites
ansioso por chegar à foz
mas como quem regressa ao berço.


Estranho Fado!
No sonho quente
eu era Lucala
serpenteando
lançando-me das altas
escarpas ruidosas
-Kalandula algodão-
no ímpeto desejoso de me encontrar
nos braços do teu corpo de Kwanza.


Lucala e Cuanza - rios de Angola.


Namibiano Ferreira

TEMPO DO CONTRATO







Body language by Jowo.



Frente à minha casa de adobe
e telhado de zinco
estendia-se um areal sujo, já de muito uso,
onde passavam negros contratados,
negros de tristeza, negros de alienação.
Negros contratados de exploração
do Grémio de Pesca, da Conserveira...
que cantavam, que tocavam seus batuques
nas noites quentes de sábado,
embriagando seus sentidos e saudades...
mas impossível, impossível era esquecer o sonho,
o sonho de não mais vir no contrato,
de não mais ser negro contratado
xingado por toda a gente:
-Ó preto, ó preto, seu contratado!
-Trabalha preto malandro!
-Ó seu preto matumbo, faz isto, faz aquilo...
Frente à minha casa de adobe
e telhado de zinco
havia o Grémio e a Conserveira
viveiros de contratados
dormindo, comendo em negros fétidos quartos
repousando por breves momentos
seu corpo sugado e mirrado
em tarimbas de aduelas de barril
envolvendo sua negra miséria
em trapos rotos e serapilheiras.
Negros contratados como eu gostava deles!
E nas noites quentes de sábado,
entre cânticos e batucadas
choravam a olhos enxutos sua terra longe:
o kimbo, a família, a saudade...
e na condição de homens transaccionados, forçados
gritavam, ainda que baixinho:
-Aiuê, aiuê! liberdade, liberdade p’ra todo o gentêêee
e soprando, o vento Leste,
prometia e prometia um futuro diferente,
DIFERENTE..............................................................

Kimbo - aldeia
Matumbo - estupido

Namibiano Ferreira

FIM DE TARDE

Foto Sanzalangola/Rio Cubango







Pela tardinha da tarde
sereno vai o Cuanza
e a piroga atravessando
quando o sol já se expande
para lá do horizonte...


Nada mexe, nada vibra.
Tudo é prata, tudo é folha.


Deus, como é belo o meu Rio!


Tudo é sereno silêncio
só a piroga ondula, negra,
na prata lisa da água.





Namibiano Ferreira

15 de abril de 2007

HOJE O NOSSO KIMBO





Ontem aqui era um kimbo…
Quando os pés amassavam
a terra e os homens,
o kimbo foi arrasado,
espezinhado por pés irados
e cegos.


Ontem aqui era um kimbo…
Não era o teu nem o meu,
era o nosso kimbo embebido em sonhos
e o que resta, hoje, do nosso kimbo,
amor, são só as cinzas vagas
do Onjango sem língua para falar.
E o que resta, hoje, do nosso kimbo,
amor, são só os buraquinhos calcinados
do wela-na-kulilya
ja sem pedrinhas
e homens para jogá-lo.




Kimbo – aldeia, pequena povoação.
Onjango – local de reunião só para homens, assembleia.
Wela-na-kulilya – jogo tradicional angolano, nome em lingua Umbundu.



Namibiano Ferreira

3 de abril de 2007

HOMENAGEM A VÓ MARIANA...


(Neves e Sousa - Bessangana)


Homenagem a Vó Mariana esposa do grande Soba Republicano da Cidade de Tômbwa (Porto Alexandre).



Xé, miúdos da minha cidade!
É tempo de pôr rolha...
Vó Mariana espera os meninos todos
Envolta nos seus panos compridos
Descendo sobre o corpo esguio de velha sabedoria.

Contra o makulu não há rival
Sabe todos os segredos:
erva de Santa Maria
pau de kissékua…
Se o menino tem bucho virado
Vó Mariana sabe também
E na sua casa entram os miúdos todos.

É tempo de matar o makulu
vamos só na casa de Vó Mariana
pôr rolha e tomar kissékua…

O vento parou e o tempo teimou em passar.
Vó Mariana, provavelmente, já morreu
Só eu, tão longe, sismo em lembrar:
makulu, rolha, kissékua...
e Vó Mariana aberta num sorriso de marfim
vem recebendo, à porta de casa, seus netos todos:
meninos pálidos-negros-morenos.




Namibiano Ferreira



Pau de kissékua – casca de determinada árvore que se reduz a pó e com o qual se faz um medicamento trdicional contra os vermes intestinais.
Makulu – vermes intestinais, vulgo lombrigas.
Rolha – misturas de ervas esmagadas que se introduz no ânus das crianças como terapia complementar contra o makulu
.