foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

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9 de fevereiro de 2013

NAMORO




NAMORO



Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
VIRIATO DA CRUZ

3 de janeiro de 2012

MAKEZU - ANDRÉ MINGAS




Relembrando aqui uma das perdas da cultura angolana em 2011. André Mingas cantando um poema de Viriato da Cruz. 



Makèsú

- "Kuakié!... Makèzú..."
...............................................
O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumático
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p´ra Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

- "Kuakié!... Makèzú, Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."

- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tá fazendo isso?"

- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegô num costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...

E diz ainda pru cima
(Hum... mbundu Kene muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra véios como tu."

- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué Qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"

- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..." 


Viriato da Cruz 

3 de dezembro de 2009

ÍCONE

Poema escrito em 1998 e que faz parte de um poemário intitulado “Fragmensias”, isto é fragmentos mensais. Ícone, está inserido na fragmensia vali (2), fevereiro 1998. Face a alguns acontecimentos ocorridos em Luanda, durante o ano em curso, este poema tornou-se uma espécie de previsão. Faça clique sobre a imagem, para ler a notícia.
Foto do blog morrodamaianga

Esta noite sonhei com Viriato da Cruz. Não conheci o poeta, é evidente,
Porquê sonhar com ele? No sonho, por trás de seus óculos ansiosos, entrou e
me falou dizendo: – Parece é proibido conhecer Viriato da Cruz!


Acordei e não liguei. Só agora, horas volvidas,
me interrogo e tento perceber o enigma:
 – Quem foi o poeta, homem eternamente vivo, Viriato da Cruz?
– Quem foi o nacionalista, forjador da Liberdade, Viriato da Cruz?
– Quem foi?  E quem, quem não nos deixa saber e conhecer porquê?


Namibiano Ferreira
 
 
 
Estamos em PAZ, vamos fazer todas as pazes...
 

9 de novembro de 2009

RELENDO VIRIATO DA CRUZ NOS CAMPOS DO NORFOLK

Viriato da Cruz (poeta angolano)

Quase todos os dia chove.
O sol não se dilui na face
dos nossos desejos.
Aqui, cada dia mais a Norte,
a luz de Inglaterra
é a infinita verdura espalhada
pelos campos do Norfolk
às vezes cerceados pelo manto
das vestes outonais
e o verde do Norfolk é uma sede
na aridez do meu deserto...

E o que sei de mim
está no suspenso da tarde
- agonia cinzenta -
onde caminho relendo
os poemas do Viriato.
Os poemas choram
no assobio triste
deste vento outonal
e os poemas do Viriato
já não são em si mesmos
o Viriato na pessoa
de sua voz.
E por entre uivos
do silêncio tagarela
tudo se perde
na voracidade verde
que não satisfaz
a clorofila tropical
da minha alma.



Namibiano Ferreira

Quedas da Kalandula (Malanje - rio Lucala)