foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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28 de janeiro de 2015

27 de janeiro de 2015

ASPIRAÇÃO



África - Malangatana


Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer
E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda
O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.



 Agostinho Neto (1922 - 1979) 

26 de janeiro de 2015

IRONIAS



1-
A verdadeira morte
De Che Guevara
É
(tão pouca sorte)
Ser hoje vendido
Estampado em lucrativas
T-shirts capitalistas.

2-
A revolução
não é
a força do ideal.
É, em si mesma,
a morte do Ideal.


(D’aprés um poema de Maria Alexandre Dáskalos, A revolução/é)


NAMIBIANO FERREIRA 

MANGA, MANGUINHA



A manga é um símbolo d´África:
No seu sabor,
No seu aroma,
Na sua cor,
Na sua forma.

A manga tem o feitio de um coração!
A África também.
Tem um sabor forte, quente e doce!
A África também.
Tem um tom rubro-moreno
Como os poentes e as queimadas
Da minha Terra apaixonada.

Por isso te gosto e te saboreio,
Ó manga!
-- Coração vegetal, doce e ameno.

Tu és o amor do abacate
Porque ele guarda no seu meio
Um coração que por ti bate;
Bate, bate, que bate!
Ó manga, manguinha.


Tomás Jorge 

22 de janeiro de 2015

POEMA DE GOCIANTE PATISSA

 
Zungueira


África Mãe Zungueira


Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade
Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes
Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor
Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta
nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho
Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

Gociante Patissa

21 de janeiro de 2015

DIPANDA 1975 - 2015 - 40 ANOS ( A Baixa de Kassanje)


1975-2015

A partir de hoje e sempre que possível a Ondjira Sul vai publicar postagens que pretendem comemorar os 40 anos de Independência Nacional ocorrida como se sabe a 11/11/1975.



HOUVE UM TEMPO NA BAIXA DE KASSANJE


Na Baixa de Kassanje...
Houve um tempo
na Baixa de Kassanje
em que o algodão
branco
era roxo de fome
e sangue...
houve um tempo
de morte e revolta
na Baixa de Kassanje

as lavras
- dizem os mais-velhos -
cheiravam a kimbos queimados

e napalm...


Namibiano Ferreira



Uma breve palavra sobre o que foi a Revolta da Baixa de Kassanje (província de Malanje - Angola):
A 4 de Janeiro de 1961, mais de mil camponeses da ex-Companhia de Algodão de Angola (Cotonang), foram barbaramente assassinados pelo exército colonial português ao exigirem a isenção de pagamento de impostos e a abolição do trabalho forçado.

Os acontecimentos, que se estenderam a toda a região da Baixa de Kassanje até Março do mesmo ano, envolveram milhares de tropas e policias, que chegaram a utilizar a aviação para reprimir os manifestantes. Dizem também que napalm...

20 de janeiro de 2015

NAMIBE: TORRE DO TOMBO REVISITADA

Publicado no número 74 do Cultura, Luanda, 19/01/2015.

Namibe: Torre do Tombo
Foto antiga da Torre do Tombo - Cultura N. 74




NAMIBE: TORRE DO TOMBO REVISITA

I-
Seca de areal fino és a terra arrepiada
aos ventos frios do cacimbo e amarela
loucamente amarela nos dias quentes
penteados de sol e lavados de mar.
Terra não mais do que barro, um pedaço
um bairro da cidade menina princesa
Namibe no regaço de março sentada.
Torre do Tombo, suspiro vento vestindo
sol, do canto azougado das cigarras,
do chilrear intenso das andorinhas,
do grito candengue da miudagem,
do cheiro a peixe, fuba e maresia
a querer dizer-te terra de pescadores.


Torre do Tombo, terra Namibe, terra dos meus!
Uns resistindo, ainda, e outros que, desistindo,
partiram nos braços alados do descanso
marcerados de saudades e do fluir da vida...
tu és a terra do meu sangue, do nosso sangue,
matriarca ancestral dos primos hoje dispersos
na diáspora pelo mundo imenso dessiminados
agrilhoados a uma maldição invisível, por todo
o infinito tempo, sem porto ou hora para chegar.
Torre do Tombo terra do nosso sangue,
terra de todas as peles de todas as cores
de todos os homens irmãos em comunhão
de paz fraterna igualdade a crescer Cabinda-Cunene.
Torre do Tombo terra de gente pobre feliz e honrada!

II-
Torre do Tombo, vento loquaz varrendo
memórias e saudades na mescla do pó:
Tio Álvaro construindo a mais bela joeira, estrela de um sonho, para voar cantando
ao vento de um tempo, ao vento de um sonho disfarçado entre um riso e um choro.
Tia Maria abrindo porta de sua casa, mulher alta, seca de carnes, semblante esguio
e dizendo sempre com a mesma e infinita surpresa primordial dos tempos:
– Olha só meu sobrinho! (como se fosse sempre, sempre a vez primeira).
Torre do Tombo expressão na risada franca, alegre e canora da tia Alzira, trazendo no vento
a frescura das tardes amenas e lânguidas que se espreguiçam no abraço incendiado
de um pôr-do-sol a morrer pitanga por trás do Pau do Sul,
trazendo a noite a um dia cansado do canto frenético das cigarras.
Tio Zé, meu xará, caminhando de mãos atrás das costas e curvado, carregando
o mundo inteiro na cacunda e vai fumando um cigarro sem filtro até queimar os lábios,
até não mais caber entre dedos de mãos ásperas laboriosas.
E de sua boca saem estórias entremeadas de masculinas risadas...
Tia Júlia, esguia e ossuda. Múcua seca, muxoxando por tudo e por nada,
muxoxo a cada frase dita, um hábito ou pensando talvez nas vindouras saudades...
O riso cândido da tia negra, tia Eliza, um sorriso meigo de aquecer o sol nas tardes-noites
de cacimbo agreste e sempre, sempre seu jeito bonito gostoso de louvar e abençoar a gente...
Quem dera que pudesses ainda cozinhar cachucho ou mariquita seca...
Ah, minha tia, quantas saudades!!!
Do tio João, meu xará também, homem de muitos dons (dizem) e que não conheci,
ficou a tia mulata dos beijos rechonchudos, sonoros e adocicados de fazer vibrar as bochechas.
Nome de rainha, tia Beatriz, baloiçando a bunda no vagar quente e gordo dos dias passados numa eterna viuvez matriarcal.
Isto sim é Torre do Tombo, pedaço barro, chão Namibe
coração vida que resiste mas que morre também a cada pedaço perdido.
Ah, isto sim é minha terra alma e meu sangue!

III-

Torre do Tombo o vento loquaz varrendo memórias e momentos:
Meu tio Álvaro fumando Francesinhos até à raiz dos lábios
E construindo a mais bela joeira
– estrela de um sonho – para voar cantando no vento de um tempo,
vento de um choro ou bramido do mar fala de calema.
Joeira voando, joeira cantando solta nas tardes ventania suave.
Cá em baixo no chão, tresmalhados sobre a poeira do tempo,
estendemos o sonho, luando de brincar, lançando no céu a joeira
no céu muito azul, tão azul, sobre o dourado da terra seca da Torre do Tombo
e a joeira voando-voando perde-se no infinito para te beijar meu tio.


Namibiano Ferreira

Torre do Tombo - bairro da cidade do Namibe.
Joeira – No Namibe, estrela de papel, papagaio, pipa.


19 de janeiro de 2015

PAULO KUSSY - ANATOMILIAS

Em “Anatomilias”, Paulo Kussy vai buscar inspiração à perfeição anatómica das obras dos grandes mestres, da Vinci, Rafael e, sobretudo, Michelangelo, transportando-nos para a Itália dos tempos áureos do Renascimento. Kussy coloca o homem no centro do seu trabalho, tudo começa e termina num antropocentrismo declarado. Porém, este homem já não é o simples homem perfeito daquele período da história da humanidade: o homem das telas de Kussy é o homem do nosso tempo, tempo do automóvel, do avião, da internet, dos ecrãs digitais, o tempo das grandes máquinas e das novas tecnologias e da comunicação.

anatomalias, foto de malocha
anatomalias, foto de malocha



anatomalias, foto de malocha

Telas de Paulo Kussy (fotos de Malocha)


Texto e imagens retirados de: http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/anatomilias-de-paulo-kussy

16 de janeiro de 2015

SAUDAÇÃO MATINAL



Olaripo’tivelêeee…*
-Eh!
-Nainduka! -Eh!
-Matxiririka! -Eh!


E palavras
mãos batidas ao luar do peito
entrelaçam cumprimentos
saudações matinais.


Dias de sol
espargem do céu
o presente matinal de luz
gazelas cirandam
e no trilho das boiadas
os pastores Kuanhamas
vêm cantando
enquanto o chão levanta
sem canseiras
omufitos de seios ao vento
e ao mesmo tempo
sobre a anhara luzidia
uma voz vem perguntando
lá do fundo imtemporal do Tempo:


- Quem matou o rei do Kuanhama?

Namibiano Ferreira
*Primeira estrofe saudações em idioma Kuanhama, Sul de Angola, provincia do Cunene.
Omufitos – areia fina, que voa facilmente com o vento.
Anhara – savana.

14 de janeiro de 2015

AUREA MEDIOCRITAS

Foto de Jorge Coelho Ferreira


Para o pastor Omukuvale pouco ou nada lhe interessa
se o Sol é ou não o centro do Universo,
ou se a lei da gravidade  realmente existe
e pode ser em fórmula matemática expressa.
Para estas e outras importâncias,
existem diversos mitos que lhe bastam
e que tudo sabem explicar.
O que é realmente importante para o pastor Omukuvale
são as patas andarilhas das boiadas transumantes,
a onganda, o fogo sagrado, a manteiga, a noite, o luar
e que o Cacimbo, enfim, regurgite, a cada ano, a tal
força fecundante e sagrada de Ombera – a chuva.


Namibiano Ferreira
(Publicado no Cultura nr. 72)

A SECA


Foto Tonspi


De espinheiras secas                                   
se constroem sambos
onde espinhos assobiam
ao vento vomitando
calemas de morte
na secura eterna
da sede das boiadas 
– cazumbis a boiar –
na insustentável aridez
do Namibe, deserto
onde Ombera vive
e não chora...



Namibiano Ferreira


Sambos - local onde se guarda o gado e é cercado por galhos secos de espinheira. 
Ombera - chuva.

9 de janeiro de 2015

MANTRA





Mantra
sobre o ataque terrorista
que ocorreu hoje em Paris

Que o teu coração ressoe ao ritmo do meu
e que as nossas vozes entoem cânticos à luz
que nos originou.
Que o teu ombro possa ser o meu ombro também
e que os nossos passos se encontrem quando o horror
e a treva nos ocultarem o caminho.
Que possamos caminhar sempre como humanos
e sagrar as nossas vidas com o ar, a terra, o fogo e a água
que dão a forma ao mundo.
Que nos possamos reconhecer a habitar o âmago de cada vida que tocamos.
Que em cada traço do mundo eu reconheça o teu rosto e o meu.
Cada traço do mundo é uma linha do corpo que nos trouxe à vida.
Que eu e tu possamos ser um só.
É sendo um com o outro que a luz prevalece sobre o mundo.



Samuel Pimenta

Alcanhões, 7 de Janeiro de 2015 – 19h12m 

Com a permissao do autor, retirado do blog: http://samuelpimentablog.blogspot.co.uk/ 

2 de janeiro de 2015

ABILIO VICTOR - A SAVANA


A RAINHA GINGA DE AGUALUSA




“A Rainha Ginga”

Início do primeiro capítulo do livro de José Eduardo Agualusa.

A primeira vez que a vi, a Ginga olhava o mar. Vestia ricos panos e estava ornada de belas joias de
ouro ao pescoço e de sonoras malungas de prata e de cobre nos braços e calcanhares. Era uma
mulher pequena, escorrida de carnes e, no geral, sem muita existência, não fosse pelo aparato com
que trajava e pela larga corte de mucamas e de homens de armas a abraçá-la.
Foi isto no Reino do Sonho, ou Soyo, talvez na mesma praia que lá pelos finais do século XV viu
entrar Diogo Cão e os doze frades franciscanos que com ele seguiam, ao encontro do Mani-Soyo —
o Senhor do Sonho. A mesma praia em que o Mani-Soyo se lavou com a água do batismo, sendo
seguido por muitos outros fidalgos da sua corte. Assim, cumpriu Nosso Senhor Jesus Cristo a sua
entrada nesta Etiópia ocidental, desenganando o pai das trevas. Ao menos, na época, eu assim o
cria.
Na manhã em que pela primeira vez vi a Ginga, fazia um mar liso e leve e tão cheio de luz que
parecia que dentro dele um outro sol se levantava. Dizem os marinheiros que um mar assim está sob
o domínio de Galena, uma das nereidas, ou sereias, cujo nome, em grego, tem por significado
calmaria luminosa, a calmaria do mar inundado de sol.
Aquela luz, crescendo das águas, permanece na minha lembrança, tão viva quanto as primeiras
palavras que troquei com a Ginga.
Indagou-me a Ginga, após as exaustivas frases e gestos de cortesia em que o gentio desta região é
pródigo, bem mais do que na caprichosa corte europeia, se eu achava haver no mundo portas
capazes de trancar os caminhos do mar. Antes que eu encontrasse resposta a tão esquiva questão, ela
própria contestou, dizendo que não, que não lhe parecia possível aferrolhar as praias.