foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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29 de novembro de 2013

ALMAS DE PORCELANA

Painel de azulejos da Fortaleza de Luanda.


Do forno ao desejo
simétricas
almas
de porcelana

É a linha
exterior
que revela
mais que qualquer
configuração
no centro
dos azulejos

Um em si
não cabe
de quadrado
tão pequeno

Daí galgar
de costas para o chão
onde renasce
em forma de mulher
fecundos cacos de gume e
verniz.

Gociante Patissa,

 in «Guardanapo de Papel», livro de poemas com edição em curso sob chancela da NósSomos, Lisboa, Portugal. 

27 de novembro de 2013

ORGASMO

   Para Dinah                                                         


Cantei o teu nome no burburinho de pérolas
balbuciando o rufar das manhãs lascivas de prata.
Toquei o teu corpo, guitarra de curvas-enseadas,
eu pescador lançando rede no mar do teu sargaço
aberto como ventre de algas ao fluxo da maré.
Nos lábios tesos, órficos da noite, plantei a brasa
que lança a asa do meu querer a rogar teu corpo
púlpito de aras mansas e claras de um templo
consagrado a escorrer vermelhas buganvílias
com que visto o prelúdio quente do meu desejo.
Navego teu corpo, nua humidade de um búzio,
concha rosada e aberta para receber a seiva
a descer, a cair do remo fálico a remar-te
timoneiro num grito de estretor  e prazer
de nossos corpos saciados mar de calemas
marulhando o verbo amar na nudez ao luar.



Namibiano Ferreira

25 de novembro de 2013

NAMIBE - VÍDEO

Conhecer o Namibe e o povo Mukubal (Ovakuvale, da etnia Ovahelelo)

21 de novembro de 2013

CAIM


E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.
Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.

Génesis 4:3, 5


Arei o chão estéril e vazio.
Dos frutos colhidos de meu suor
fiz meu sincero sacrifício,
colocando devoto,
sobre as aras de Deus,
meus trigos, centeios e cevadas
(pão de minha boca e minha casa).
Deus, porém, me ignorou
injustamente
olvidando meu tão casto sacrifício
e despertou em mim
o crime roxo de sangue.


(O que Caim desconhecia, meus amigos,
é que Deus, afinal, não é vegetariano.)


Namibiano Ferreira 

13 de novembro de 2013

A CANTORA TCHININA



Cantora Tchinina marca uma época

Altiva e irreverente, Tchinina teve o mérito de romper com o preconceito de mulher cantora, arraigado na época colonial, fazendo ouvir a melodia da sua voz de norte ao sul de Angola, em umbundo, destacando-se num universo feminino dominado pela música da capital, interpretada em quimbundo.

Quando saiu pela primeira vez da sua terra natal, em 1952, com apenas dois anos de idade, Tchinina foi para o Lobito, onde viveu em casa de um tio, José Mangenge, irmão do pai. Depois, em 1958 entrou para o internato da Missão católica da Babaera, adstrita ao município da Bela Vista, hoje Catchiungo, a cerca de 62 quilómetros a leste da cidade do Huambo, município onde aprendeu a tradição do cancioneiro local, e frequentou o Colégio da Nossa Senhora do Carmo, até ao quarto ano do ensino liceal.

Filha de Pereira Chipenda Manjenje e de Rosária Simbaluca, separados quando a cantora tinha apenas dois anos de idade, Teresa da Cruz Manjenje, Tchinina, nasceu no Huambo, Município do Ucuma, situado a 92 quilómetros da capital provincial, a 19 de Setembro de 1950. Em consequência da separação dos pais, teve uma infância atribulada e difícil, tendo sido obrigada a ser criada por um segundo tio, Padre Jorge Mangenge, e viveu depois no internato das madres do Bairro Canhe, desta vez mais próximo da cidade do Huambo.

Em 1970, rompeu voluntariamente com um casamento precoce e efémero, engravida aos 15 anos de idade, e decide fugir do Huambo para Malange, onde se junta ao conjunto Ndimba Ngola que, na altura, estava em digressão prolongada, num espectáculo realizado no Atlético Clube de Malange.

Aí, começa a primeira grande aventura musical de Tchinina, que interpreta a canção, “Mulata é a noite”, música de Conchinha de Mascarenhas, sobre um poema de Adelino Tavares da Silva, uma forma de teste, solicitado por Dominguinhos, do conjunto Ndimba Ngola: “Como eu/ a noite nasceu mulata/na escuridão da cubata/ é pecado do subúrbio/ Mulata / é distúrbio no musseque /e a lua é pé de moleque/ que adoça a provocação/ A noite /é como pano de chita/ que foi esteira de rebita/ deixou missanga no chão/ Como eu/ a noite é bronze maciço/ liga de prata e feitiço/ gosto de açúcar/ mascavo/ A noite/ é um travo de maboque/e a mulata é um/retoque/na polpa da natureza/Mulata/ é estrela de bairro pobre/ é barro que imita o cobre/ torneado de surpresa.”

Ante a surpresa de todos, Tchinina encantou quem a ouviu, com uma belíssima interpretação de “Mulata é a noite”, tendo sido convidada, logo depois, para acompanhar a digressão do Ndimba Ngola, que durou quatro meses, desta vez para Saurimo, Lunda-Sul, Cuango, Cafunfo, Cangula, Camaxilo, Marco 27, Moxico, Camacupa, Bié, Huambo, Gabela e Dondo. Depois da digressão, Tchinina parte do Dondo para Luanda, em 1972, e conhece, através do cantor e compositor Dominguinhos, dos Ndimba Ngola, o empresário Luís Montez, promotor dos “kutonocas”, espectáculos itinerantes de rua realizados nos bairros periféricos de Luanda.

No auge do sucesso das canções: “O amor é como as rosas”, e “Utima ua teka teka”, temas do seu primeiro single, gravado em 1973, multiplicam-se os convites para cantar. É assim que passa pelo Maxinde, Marítimo da Ilha, Kudissanga kuá makamba, Salão do Braguês, Giro-giro, Festas da Feira Popular, Chá das Seis, no Cinema Restauração, e Mandarim, na Ilha de Luanda, onde dividiu o palco com Milá Melo, Teta Lando, Mário Gama, Quarteto 1111, do cantor português José Cid, Lourdes Van-Dúnem, Belita Palma, Elias diá Kimuezo, António Paulino, David Zé, Urbano de Castro, Artur Nunes, Cirineu Bastos, Zé Viola e Sofia Rosa.

Canções

Em 1973 e 1974, Tchinina cantou, enquanto compositora, a desilusão amorosa em “O amor é como as rosas”, “Otchiliochlili”, e “Utima ua teka teka” (coração partido). Sofrida, falou das ocorrências e desencantos da vida em “Lamento”, “Alundu” e “Teia teia”, das crenças e do poder das tradições em “Somaiangue” e “Ngangaté”, da nostalgia em “Saudades de mãe”, e da intervenção política em “Maia Ngola”. Ao longo da sua carreira, Tchinina gravou pela Valentim de Carvalho e Fadiang, e foi acompanhada pelos conjuntos África Ritmos, África Show, Gingas, Cabinda Ritmos e Bongos do Lobito, e a banda Black Power, com a qual gravou, em Portugal, o LP “Folclore Angola, afro folk beat África”.

Um disco com 12 faixas representativas da carreira de Tchinina, “Mana”, “Tukina”, “Yolela”, “Saudades de mãe”, “Uteque”, “Okufá”, “Somaiangue”, “Cassinha”, “Mucanda”, “Ekumbi”, “Taté”, “Hossi” e “Quidalé” fazem parte da colectânea “Angola anos d’ouro”, da série reviver.

Portugal

Com o encerramento das principais gravadoras em Angola, no período da independência, e com a intenção de prosseguir a sua carreira musical, Tchinina foi ainda secretária de Relações Públicas do Governo de transição, e parte para Portugal no dia 28 de Março de 1976, onde viveu 34 anos. Em Portugal enfrentou outros desafios, viveu na Covilhã, Lisboa, Setúbal, Portimão, Vila Nova de Mil Fontes e Águeda. Ainda em Portugal, de 1977 a 1979, foi acompanhada pela banda África Star, formação de músicos provenientes do Lubango, constituída por Victor (bateria), Octávio (saxofone), José Maria (viola ritmo), e João de Almeida (viola baixo).

Homenagem

Tchinina foi homenageada no dia 29 de Julho de 2013, no auditório da Direcção Provincial da Cultura do Huambo, pelo reconhecimento do conjunto da sua obra e pelos esforços de internacionalização da música angolana em Portugal, nos primeiros anos depois da independência de Angola.

Participaram na homenagem o poeta Chico Pobre, as cantoras Edna Mateia e Lili de Vasconcelos, os grupos de teatro Morro do Moco e Vozes d’África, o grupo de música gospel Raiar da Luz e o cantor Skil One.

Tchinina está incluída no CD “Vozes do Planalto, relíquias do passado”, a sair brevemente, com as canções, “Utima ua teka, teka” e “Quidalé”, colectânea onde figuram os cantores Bessa Teixeira, Justino Huandanga, Zé Cathiungo, e João Afonso.



Jornal de Angola, 4 de novembro de 2013 

ANGOLA: OS POETAS (BLOG)

Quero  apresentar-vos este magnífico blog ANGOLA: OS POETAS, onde tudo o que se publica são poemas de poetas angolanos, imagens de Angola e, de quando em vez, um vídeo musical. Aconselho-vos a visitá-lo. http://angolapoetas.blogspot.co.uk/
Eis alguns dos poetas recentemente publicados:


E OS HOMENS DA TERRA...

e os homens da terra
sentaram-se! frutos silvestres
emprestaram sabedoria e sombra
poeiras campestres
abençoaram papeladas
e acordos nos matos das picadas!

um vento a soprar agreste
as terras do leste
falou-me d' homens sentados
em troncos e pedras
a falarem acordos e palavras
e obuses de canhões silenciados!

a taça do sangue das armas
entornou-se! batuques e lágrimas
das gentes magricelas
a espreitar homens da terra
sentados, a falarem de paz em palavra
e sonhos e acordos d' estrelas!

a tumba dos homens apagados
em camuflados e botas
aplaudiram palmas
kazumbis e almas
dançaram alegria na matas
e homens sentaram pedras d'acordos!

e as patentes da terra
conversaram! calaram-se ruídos
e fuzis d' homens fardados
a barulhar palavras e guerras
conversam os homens nas pedras
e nos troncos dos acordos!

e os homens da terra conversaram!

Décio Bettencourt Mateus



NOVEMBRO É QUANDO

novembro é quando
o silêncio ajoelha
nos homens
o beijo de duas faces
comovido

(lágrima de
orvalho que
o cacimbo
esqueceu)

novembro é nem
saudade
pelos braços
todos
acima

David Mestre

11 de novembro de 2013

DIPANDA, UM BOM DIA PARA TODOS


1975 - 2013 - VIVA O 11 DE NOVEMBRO



REFLEXÃO PARA HOJE



Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aqueles que  o exercem e o medo do açoite do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele (...) em qualquer sociedade onde o medo é frequente, a corrupção grassa em todas as formas tornando-se profundamente enraizada.



Aung San Suu Kyi 

(Do discurso "Freedom from fear", proferido in 1991.)

5 de novembro de 2013

POEMA DE NOK NOGUEIRA


Se me vierem saudar à porta deixá-la-ei entreaberta
para que o vento a feche as mãos são por de mais
puras para que se fechem diante dos homens
não entendo como fora difícil decifrar que o tempo
é um extracto do que se considera como sendo um
preciso compor de velhos instantes
alguém me seguirá caso a porta se mantenha
entreaberta entre o corredor e o acesso dos degraus
das escadas cuja cor se confunde com o castanho
e o vermelho do barro e a secular pintura dos homens
inscritas em velhos jornais
se crescem plantas entre as avenidas é porque alguém
as jogou primeiro como vivas sementes em terreno
nacional e em praça municipal
se colho de tarde restos de brilhos do sol onde nasce
a lua continua o arquivar da luz para que as noites
nunca se esgotem em nós para que as palavras nunca
se nos pereçam e para que sejamos nós mesmos diante
de um acordeão em bailes de rebita
se me vierem saudar à porta deixá-la-ei entreaberta
para que o vento a feche pois as mãos são por demais
puras para que se fechem diante dos homens



Nok Nogueira, in Jardim de Estações.