foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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26 de outubro de 2009

TELAS


Gazelas



Tilintar telas
esgazeadas de sonhos
fechar os olhos
e voar gazela
vento nu
a roçar espinheira
cavalgar guelengue
pégaso que me pede
no traço palanca
dos pincéis
rebuscar a cor onírica
sobre paletas iridiscentes
perfumes e pratas
cacimbos e luares
pintando horizontes
místicos de nada
no vôo asa
garajau a gritar
o azul turquesa
mar de Namibe.

Guelengue

 E...



se Eternidade existe
ela começa no pedaço
minúsculo
do azul marinho
Namibe guardado
dentro de mim
a marulhar
beijo e maré
carícia de Kianda
vestindo tômbwas
cacimbo e missangas.


Namibiano Ferreira


Palanca Negra Gigante, um símbolo de Angola.

A WELWITSCHIA MIRABILIS



Na língua local, a Welwitschia, chama-se Tômbwa e dá nome à cidade onde nasci. Este foi também o nome científico (latinizado) que o naturalista austríaco, Frederich Welwitsch, lhe deu: Tomboa Angolensis. Só mais tarde viria a chamar-se Welwitschia Mirabilis, em sua homenagem.




Que posso vos dizer sobre esta planta que conheço desde que me sei gente? É uma planta que sempre me fascinou e que se reveste de um halo muito especial na minha poesia. Evolta em mistério ela será um eterno símbolo para mim, um coração que resiste ligado-me à terra Namibe e é, também, um símbolo da terra angolense. Deixo-vos um texto da Enciclopédia Livre para que possam apreciar em termos científicos esta raridade fitológica do Namibe e que me recorda uma história que meu avô me contou: quando Frederich Welwitsch viu esta estranha planta, pela primeira vez, ajoelhou-se no chão quente do deserto num misto de espanto e religiosidade, totalmente maravilhado por tão singular planta. Ficam também estes poemas.


WELWITSCHIA


Aridez suprema
e o mistério levanta-se do chão:


                                       tombwelwitschianamibilis!


Braços dispersos
corpo
gretando aridez
alma
gritando vida!




Namibiano Ferreira




Flor feminina



Flor masculina






TENACIDADE

Aberta ao infinito
árido
sem tempo,
a Welwitschia
é um poeta ermo
e solitário
aspirando a Vida
escassa em cada
missanga húmida
pérola minúscula
de cacimbo
luz e cristal.


Namibiano Ferreira




MAIS SOBRE A WELWITSCHIA



(Artigo retirado de wikipedia, ligeiramente adaptado)


É uma planta rasteira, formada por um caule lenhoso que não cresce, uma enorme raiz aprumada e duas folhas apenas, provenientes dos cotilédones da semente; as folhas, em forma de fita larga, continuam a crescer durante toda a vida da planta, uma vez que possuem meristemas basais. Com o tempo, as folhas podem atingir mais de dois metros de comprimento e tornam-se esfarrapadas nas extremidades. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos.
A Welwitschia Mirabilis é uma planta dióica, ou seja, os cones masculinos e femininos nascem em plantas diferentes.
Apesar do clima em que vive, a Welwitschia consegue absorver a água do orvalho através das folhas (o tal cacimbo de que já vos falei na postagem sobre o Deserto do Namibe). Esta espécie tem ainda uma característica fisiológica em comum com as crassuláceas (as plantas com folhas carnudas ou suculentas, como os cactos): o metabolismo ácido - durante o dia, as folhas mantêm os estomas fechados, para impedir a transpiração, mas à noite eles abrem-se, deixam entrar o dióxido de carbono necessário à fotossíntese e armazenam-no, na forma dos ácidos málico e isocítrico nos vacúolos das suas células; durante o dia, estes ácidos libertam o CO2 e convertem-no em glicose através das reacções conhecidas como ciclo de Calvin.
Esta espécie foi baptizada a partir do nome do Dr. Friedrich Welwitsch, que contribuiu para o conhecimento desta e de muitas outras plantas de Angola.
Devido às suas características únicas, incluindo o seu lento crescimento, a Welwitschia é considerada uma espécie ameaçada. No entanto, pensa-se que as plantas que vivem em Angola estão mais protegidas que as da Namíbia, devido às minas terrestres que protegem o seu habitat.

25 de outubro de 2009

A MÁSCARA MWANA PWÓ


Dançarino Mwana Pwo (foto da Net)
As máscaras Mwana Pwó sempre me fascinaram. Fazem lembrar as máscaras da tragédia grega. O que me agrada apreciar nelas são a sua expressão, o sentido que encerram e sobretudo a sua beleza plástica.


Entre os Tchokwé de Angola estas máscaras são utilizadas por dançarinos que representam um bailado durante o período de iniciação dos rapazes na sua passgem para a vida adulta e que tem como ritual a circuncisão.


Mwana Pwó significa “mulher jovem” e representa um antepassado feminino que morreu em idade jovem. É uma lembrança da morte como experiência iniciática,  morte e renascimento.



Foto: Nossoskimbos

A máscara representa a cara de uma mulher falecida, de olhos encovados. Os dentes pontiagudos e as escoriações, demonstram o seu falecimento precoce, ainda com as marcas da recente iniciação. As lágrimas esculpidas sobre as faces são a dor da perda que se experiencia através da morte.


Mwana Pwó idealiza valores femininos e é uma personagem feminina. No entanto, é um homem que executa o bailado (as máscaras estao vedadas às mulheres e aos não iniciados), dançando graciosamente ensina boas maneiras aos espectadores. O poder e a elegância da actuação do dançarino é suposto trazer fertilidade às mulheres.

Namibiano Ferreira




Foto: NossosKimbos
 
 
 
 
Nota: A cultura Tchokwé, nao é exclusiva de Angola, ela reparte-se por mais dois países, Congo-Kinshasa e Zambia.

21 de outubro de 2009

OLHOS

 

Tela de Toia Neuparth (Angola)
   
                                                                                   Para Dinah


Melíferos ambarinos translúcidos
– acariciando minha nudez –
são os teus olhos avelãs
dançando cristal iluminado
no prelúdio dos dias incendiados
e dedilhando fagueiros
as orquídeas que te ofereço num beijo
florido na boca púbica a clamar
o nosso inteiro desejo.


Namibiano Ferreira

20 de outubro de 2009

O DESERTO DO NAMIBE

Litoral do Namibe.

Hoje vamos visitar o sul de Angola, província do Namibe de que tanto ouvem falar aqui neste blogue.

As dunas.


O Deserto do Namibe é partilhado por Angola e a Namíbia. Estas fotos são todas em território angolano, província do Namibe, onde nasci.

A região é considerada como sendo o mais antigo deserto do mundo, tendo permanecido em condições áridas ou semi-áridas há pelo menos 80 milhões de anos. A sua aridez é causada pela descida de ar seco arrefecido pela corrente fria de Benguela que passa na costa. Menos de 1 cm de chuva cai anualmente e o comum dos mortais poderá pensar: esta terra desértica é completamente estéril. Mas não, não é estéril, animais e plantas fazem dele há milhões de anos o seu lar e ecosistema favorito tanto que não existem plantas, como por exemplo, a Welwitschia Mirabilis, em mais outro local do planeta. O encontro do ar seco e quente do deserto com o ar frio e húmido da corrente fria de Benguela, junto à costa, trazem uma névoa matinal que localmente chamamos cacimbo, esse orvalho é a água que alimenta plantas e animais e penetra até 50 km a partir do litoral.




Homens Mukubais/Ovakuvale (foto de Alex. Correia).

Os homens também aqui habitam há milhares de anos. As gravuras rupestres de Tchitundu-Hulu, são disso um exemplo e para os especialistas elas foram executadas, provavelmente, há 20.000 anos por um misterioso povo talvez os ancestrais dos Ovasekele (vulgo Bosquímanos).


O litoral do deserto é riquíssimo em peixe e ao longo dos rios de enxurrada (só trazem água no período chuvoso, nomeadamente entre fevereiro e abril) pratica-se a agricultura de subsistência. Essa água não provém de chuvas caídas no deserto mas a centenas de quilómetros, nas terras altas da Huíla. Durante o período colonial os portugueses trouxeram culturas europeias que se adaptaram muito bem. Sobretudo culturas mediterrânicas como a vinha, a oliveira e frutas diversas, como pêssegos, melões, maçãs e ameixas.

Vários povos habitam o deserto. A maioria são bantus, pertencentes ao grupo etnolinguístico dos Hereros ou Helelos, cujos principais subgrupos são Dimbas (Ovandimba), Himbas (Ovahimba), Mukubais (Ovakuvale), Cuanhocas/Curocas/Mukurocas (Ovakwanhoka) e Guendelengos (Ovangendelengu). Nas áreas urbanas, das cidades do Namibe e Tômbwa, vivem os Kimbares, uma mistura de vários povos vindos do centro e norte de Angola porque os Hereros nunca deixaram a sua maneira tradicional de viver, nascem pastores e morrem pastores.




Arco do Carvalhao, onde existe uma lagoa.


Guelengues (Orix), quase nao necessitam de água.



Perto da Lagoa do Arco

Mulheres Himba/Ovahimba, pintam-se de vermelho.


A invulgar Welwitschia/Tombwa rodeada pela aridez.


Os povos não-bantus são pequenos grupos, na sua maioria ainda recolectores que se encontram espalhados pelo deserto e também por outras regiões do sul de Angola: Ovasekele, Ovakwisi, Ovakwepe e Ovakankala. Muitas vezes o mesmo povo é conhecido por diferentes nomes ou nomes deturpados, por exemplo e seguindo a mesma ordem: Camessequéis/Bosquímanes/Cassequéis, Mucuíssos/Cuísses, Cuepes e Mucancalas. A linguagem destes povos tem pequenos cliques.




Welwitschia Mirabilis, a raridade e o exotismo da flora.



Deixo-vos aqui este link de um lodge que se chama Omauha (Pedra) e que se localiza no deserto. Uma maneira de conhecer o meu Namibe é visitá-lo!









E para terminar o poema:

ETERNIDADE



É no SUL
do Sul ao sol
na aridez
de sua concha
que eu quero
fazer o meu fogo,
engordar os meus bois
e bem depois
enroscar-me
no eterno
aconchego
aridez de sua concha.



Namibiano Ferreira

13 de outubro de 2009

BOM PORTO



Foto de Dinah (Brancaster)

 Para Dinah






Gotículas ainda
de salsugem
mansa marinheira
anunciam 
calemas e garroas...



Películas de cetim
cor-de-maresia
arrepiam a nudez
do fogo e desejo
e o teu corpo dormindo
nos lábios frutados
astralinos do luar
é o porto que procuro
antes das tormentas.


 
Namibiano Ferreira

PEDRAS NEGRAS DE MPUNGO-A-NDONGO



Para quebrar os dias de poesia, o autor deste blogue decidiu intercalar imagens da sua terra e no futuro algumas pequenas considerações sobre a cultura, usos e costumes dos vários povos de Angola. Hoje iniciamos a visita às Pedras Negras de Mpungo-A-Ndongo ou Pungo Andongo. Estas belas e sugestivas formações rochosas localizam-se na província de Malanje, no norte de Angola e distam cerca de 116 km da cidade de Malanje, capital de província. A graciosidade das formas dos monolitos são autênticos poemas esculpidos por Mãe Natureza.




A cor negra deve-se a uma alga filamentosa e talvez por essa razão as Pedras Negras são mais formosas na época das chuvas. Aqui também se encontra a mítica peugada grava na rocha e que a tradição atribui à célebre rainha da Matamba, Nzinga Mbandi Ngola (1582 – 1663) uma das grandes figuras da História de Angola pela sua luta e resistência ao avanço colonial português.











Segundo fontes históricas estas foram palavras proferidas por Nzinga Mbandi Ngola a um emissário português: “Sendo eu nascida para mandar no meu Reino, não tenho que obedecer nem reconhecer um outro soberano e passar de Senhora absoluta a serva ou escrava. Se o Português quer de mim um donativo cada ano, dá-lo-ei de boa vontade, desde que ele me dê também um, e assim estaremos iguais na cortesia”



Namibiano Ferreira


(Fotos da Net)

10 de outubro de 2009

IRONIAS



Ontem foi dia de aniversário do blogue e como não queria misturar datas hoje faço outra postagem para assinalar a morte de Che Guevara, que ocorreu há 42 anos. 


Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che (Rosário, 14 de junho de 1928 — La Higuera, 9 de outubro de 1967).



1-

A verdadeira morte
de Che Guevara
É
(tão pouca sorte)
ser hoje vendido
estampado em lucrativas
T-shirts capitalistas.



2-
A revolução
não é
a força do ideal.
É, em si mesma,
a morte do Ideal.




(D’aprés um poema de Maria Alexandre Dáskalos, A revolução/é)


Namibiano Ferreira

9 de outubro de 2009

ESTE BLOG FAZ QUATRO ANOS





Hoje, o meu blog faz quarto anos. Nesta mesma data em 2005 publiquei o poema “Oráculo” http://poesiangolana.blogspot.com/2005/10/oraculo-alem-naquele-mar-de-calemas.html  passo a passo e muito timidamente fui construindo este espaço que foi, desde o seu início votado à poesia elaborada por mim.



Em Março de 2008 coloquei um contador, não garanto que tenho recebido 10.384 visitas para me lerem porque muitas das bandeirinhas que por lá militam vieram por acaso ou para ver as fotos.



Concerteza que outras bandeirinhas vieram para ler a poesia. Desses se destacam o Brasil (5.213), Portugal (3.424), Angola (319), Moçambique (29), Cabo Verde (5) e que se podem juntar o Reino Unido, França, Espanha, Estados Unidos, Alemanha devido à forte presença de comunidades de expressão lusófona.



Para bolo de aniversário trago-vos um poema já aqui publicado anteriormente mas que é um dos meus preferidos. Inspirado no poema de Álvaro de Campos “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo” trata-se de uma pequena vingança porque não gosto de belezas matemáticas.



Para quem não conhece é assim o poema de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa):



O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.


óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó


(O vento lá fora.)




Álvaro de Campos, 15-1-1928






ADULTERANDO ÁLVARO DE CAMPOS


Uma mulher Mukubal é tão bela como a Vénus de Milo
o que há é pouca gente para dar por isso.
Depois de onze girassóis florindo Novembro
ainda há pouca gente para dar por isso
e uma mulher Mukubal é mais bela que a Vénus de Milo.


ÓOOO - ÓOOOOOO - ÓOOOOOOOOOOOOOOO


(O vento no deserto.)

Namibiano Ferreira
In Resist(ir) Assim - Poesia a Doze
Editorial Minerva (1999)

OBRIGADO A TODOS OS QUE AQUI PASSAM LENDO E COMENTANDO OU SIMPLESMENTE OLHANDO...

8 de outubro de 2009

A LIBERDADE


Tombwa, vista de satélite

Foto de Eugénio Vicedo


A lua cheia chegava, por fim, iluminando
o suave marulhar no crespo nocturno
carapinha da noite-Tômbwa cidade.
E a noite, vestida de luar, trazia até mim
a baía a tremeluzir a cantar a dançar o mar
místico semba carregado de mistérios
e desejos proibidos de Santa Liberdade.
Nas batucadas choradas dos contratados
floriam açucenas no lóbulo verde do sol
e sob as peugadas incendiadas do vento
dormiam sonhos carmesim sorrindo
no ventre claro azul futuro de Novembro.


Namibiano Ferreira

5 de outubro de 2009

MUKUROKA PIRIQUITO

Mukuroka Piriquito - Gravura de Mário Tendinha (Angola)


Este poema foi inspirado nesta gravura da autoria do meu conterrâneo e amigo Mário Tendinha, que inaugurou no dia 1 de Outubro do corrente, em Luanda, a exposição NgolaMirrors que podem ver aqui  http://www.ngolamirrors.com  Mukuroka Piriquito, aqui retratado é um conterraneo lá do Sul, de Tombwa. Nao é personagem inventada, nem pelo pintor nem pelo poeta. Ele existe mesmo. É um homem que foi guia de cacadores e turistas, conhece o deserto e a regiao do Parque Nacional do Iona sem precisar de uma bússula. Ele é a própria bússula e palmilha o deserto, grandes distáncias, a pé. Um grande e forte kandandu para Mukuroka Piriquito, vivam as gentes do deserto do Namibe!






MUKUROKA PIRIQUITO




Cansado, talvez de trazer nos pés o vento de pentear os dias
e o tempo das rotas esquecidas de muitas ondjiras do sul
Mukuroka Piriquito descansa no lar da fogueira acesa
no Omauha com o sol de lembrar Tchitundu-Hulu e a espiar
olho no Mukuroka Piriquito ave de voar na asa palmilhando
areias milhas e poeiras ventos e canseiras nas miragens da sede
do nosso Sul encharcado de amarelo a morrer luminoso
no afago abraço do sol derretendo welwitschias gazelas
e Tômbwa que resiste no abraço velho das casuarinas heroínas
que se cansaram de lutar contra as areias que andam sob os pés
de Mukuroka Piriquito descansando à fogueira do Omauha
naquele dia que o Mário o viu e depois, talvez, o desenhou
como se fosse uma gravura perdida de Tchitundu-Hulu.
Sentado à fogueira do Omauha, Mukuroka Piriquito, descansa
do palmilhar dos dias sol-fadiga de Namibe deixando-se cobrir
de gloriosa poeira ouro que vem, como renda preciosa e ouro sobre azul
levemente poisar sobre a nudez dos seus nonkakos a mostrar
sabedoria de quem sabe ler o sol e o brilho lúcido das estrelas do sul
sempre tão belas nas noites do deserto e os nonkakos de Mukuroka Piriquito
são luandos de cartografar mapas escritos e desenhados no céu sendeiro
sem tempo dos astrolábios presos como toninhas nos olhos vento
que se bebem nas margens sedentas do Kuroka do março da fartura.






Namibiano Ferreira (K.Lynn, 02/10/2009)


Ondjira - palavra Tchiherero que significa caminho, ela aqui está com o plural feito á maneira portuguesa.
Omauha - significa pedra, no mesmo idioma, mas refere-se a um lodge que existe no Parque Nacional do Iona, Namibe, Angola.
Tchitundu-Hulu - é um local no mesmo Parque (Iona) que possui belas gravuras rupestres, representando animais e astros, como o sol, por exemplo. O seu nome significa "Gruta Sagrada do Céu" e é um lugar de culto para os Kwisses, um outro povo do deserto.
Nonkakos - sandálias que se fazem artesanalmente, se observarem os pés de Mukuroka podem ver os seus nonkakos.
Luando - esteira.
Kuroka ou Curoca - rio do deserto, que desagua perto de Tombwa. Este rio só tem água na época chuvosa e em especial entre Fevereiro e Abril. O Kuroka é um pequeno Nilo que atravessa a aridez do município de Tombwa. 





2 de outubro de 2009

MBULUMBUMBA









O hungu, também conhecido em certas partes de Angola como mbulumbumba, é considerado pelos musicólogos do mundo inteiro como a origem pré-histórica de todos os instrumentos modernos de corda. Os escravos africanos levaram-no para o Novo Mundo, durante o infame tráfico negreiro e no Brasil, por exemplo, ele tomou o nome de berimbau (nome mais comum mas outros nomes foneticamente próximos de hungu existem). Já me disseram que este tipo de instrumento também se encontra presente em Cuba mas nada posso afirmar sobre isso.
Este interessante e apaixonante instrumento de corda, não é mais do que a transformação do arco (zagaia) do caçador-recolector da pré-história. E como todo o homo sapiens sapiens saiu de África, o hungu foi levado para fora da mãe-África logo nas primeiras migrações da humanidade, há muitos milhares de anos, para dar origem a harpas, violinos, alaúdes, cítaras, liras, guitarras....

Namibiano Ferreira



MBULUMBUMBA


As línguas
não têm nome
são teu povo
imbamba muxima
na força da alma
ondjango com boca
a falar estórias
de contar de dançar
kissanje dikanza puíta
voz de amar sangue
trama terra-vermelha
ondjira de vida
caminho aberto
na seiva do verbo
Nzambi a sagrar-te
homem de sangue
a falar a língua
nada e mais nada
porque as línguas
não têm nome
és tu humano
em tua nudez
vestida de alma
sagrada expressão
batendo as palavras
azagaia e flecha
na palma nua
mbulumbumba
do coração.


Namibiano Ferreira



Imbamba – pertences, bagagens...
Muxima – coração.
Ondjango – assembleia de homens, entre os Ovimbundu.
Kissaje (quissanje) – instrumento musical.
Dikanza – instrumento musical tipo reco-reco
Puíta – isntrumento musical que no Brasil se chama cuíca.
Ondjira – caminho
Nzambi – Deus.
Mbulumbumba – instrumento musical também conhecido por hungu e que os escravos africanos levaram para o Brasil onde lhe deram o nome onomatopaico de berimbau.