foto: Jorge Coelho Ferreira

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA

POEMAS DE NAMIBIANO FERREIRA
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16 de abril de 2007

AFLUENTE/AFLUENCIA


Quedas de Kalandula - Angola


Menino ainda
sonhei
e era rio
perdido no labirinto de malaquites
ansioso por chegar à foz
mas como quem regressa ao berço.


Estranho Fado!
No sonho quente
eu era Lucala
serpenteando
lançando-me das altas
escarpas ruidosas
-Kalandula algodão-
no ímpeto desejoso de me encontrar
nos braços do teu corpo de Kwanza.


Lucala e Cuanza - rios de Angola.


Namibiano Ferreira

TEMPO DO CONTRATO







Body language by Jowo.



Frente à minha casa de adobe
e telhado de zinco
estendia-se um areal sujo, já de muito uso,
onde passavam negros contratados,
negros de tristeza, negros de alienação.
Negros contratados de exploração
do Grémio de Pesca, da Conserveira...
que cantavam, que tocavam seus batuques
nas noites quentes de sábado,
embriagando seus sentidos e saudades...
mas impossível, impossível era esquecer o sonho,
o sonho de não mais vir no contrato,
de não mais ser negro contratado
xingado por toda a gente:
-Ó preto, ó preto, seu contratado!
-Trabalha preto malandro!
-Ó seu preto matumbo, faz isto, faz aquilo...
Frente à minha casa de adobe
e telhado de zinco
havia o Grémio e a Conserveira
viveiros de contratados
dormindo, comendo em negros fétidos quartos
repousando por breves momentos
seu corpo sugado e mirrado
em tarimbas de aduelas de barril
envolvendo sua negra miséria
em trapos rotos e serapilheiras.
Negros contratados como eu gostava deles!
E nas noites quentes de sábado,
entre cânticos e batucadas
choravam a olhos enxutos sua terra longe:
o kimbo, a família, a saudade...
e na condição de homens transaccionados, forçados
gritavam, ainda que baixinho:
-Aiuê, aiuê! liberdade, liberdade p’ra todo o gentêêee
e soprando, o vento Leste,
prometia e prometia um futuro diferente,
DIFERENTE..............................................................

Kimbo - aldeia
Matumbo - estupido

Namibiano Ferreira

FIM DE TARDE

Foto Sanzalangola/Rio Cubango







Pela tardinha da tarde
sereno vai o Cuanza
e a piroga atravessando
quando o sol já se expande
para lá do horizonte...


Nada mexe, nada vibra.
Tudo é prata, tudo é folha.


Deus, como é belo o meu Rio!


Tudo é sereno silêncio
só a piroga ondula, negra,
na prata lisa da água.





Namibiano Ferreira

15 de abril de 2007

HOJE O NOSSO KIMBO





Ontem aqui era um kimbo…
Quando os pés amassavam
a terra e os homens,
o kimbo foi arrasado,
espezinhado por pés irados
e cegos.


Ontem aqui era um kimbo…
Não era o teu nem o meu,
era o nosso kimbo embebido em sonhos
e o que resta, hoje, do nosso kimbo,
amor, são só as cinzas vagas
do Onjango sem língua para falar.
E o que resta, hoje, do nosso kimbo,
amor, são só os buraquinhos calcinados
do wela-na-kulilya
ja sem pedrinhas
e homens para jogá-lo.




Kimbo – aldeia, pequena povoação.
Onjango – local de reunião só para homens, assembleia.
Wela-na-kulilya – jogo tradicional angolano, nome em lingua Umbundu.



Namibiano Ferreira

3 de abril de 2007

HOMENAGEM A VÓ MARIANA...


(Neves e Sousa - Bessangana)


Homenagem a Vó Mariana esposa do grande Soba Republicano da Cidade de Tômbwa (Porto Alexandre).



Xé, miúdos da minha cidade!
É tempo de pôr rolha...
Vó Mariana espera os meninos todos
Envolta nos seus panos compridos
Descendo sobre o corpo esguio de velha sabedoria.

Contra o makulu não há rival
Sabe todos os segredos:
erva de Santa Maria
pau de kissékua…
Se o menino tem bucho virado
Vó Mariana sabe também
E na sua casa entram os miúdos todos.

É tempo de matar o makulu
vamos só na casa de Vó Mariana
pôr rolha e tomar kissékua…

O vento parou e o tempo teimou em passar.
Vó Mariana, provavelmente, já morreu
Só eu, tão longe, sismo em lembrar:
makulu, rolha, kissékua...
e Vó Mariana aberta num sorriso de marfim
vem recebendo, à porta de casa, seus netos todos:
meninos pálidos-negros-morenos.




Namibiano Ferreira



Pau de kissékua – casca de determinada árvore que se reduz a pó e com o qual se faz um medicamento trdicional contra os vermes intestinais.
Makulu – vermes intestinais, vulgo lombrigas.
Rolha – misturas de ervas esmagadas que se introduz no ânus das crianças como terapia complementar contra o makulu
.